Vestibular para poucos: um sistema perverso

Alunos de escola pública têm maiores dificuldades de passar no vestibular
Alunos de escola pública têm maiores dificuldades de passar no vestibular – Foto: Divulgação

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Por Beatriz Moraes, Clovis Filho, Fatime Ghandour, Karen Oliveira e Mariana Nakajuni

Quatro em cada dez estudantes do ensino público vão para alguma instituição de ensino superior. Já para quem frequentou um colégio particular, esse número salta para oito. O dado revelado pela Síntese de Indicadores Sociais 2018 do IBGE é ainda mais preocupante quando se descobre que quem pode pagar por uma escola privada representa dois quintos do total de estudantes da rede estadual.

O doutor em Educação Jean Mac Cole Tavares Santos explica no artigo Exame Nacional do Ensino Médio: entre a regulação da qualidade do Ensino Médio e o vestibular. Isso acontece porque a educação brasileira foi montada pensando em deixar uma grande parte da população de fora.

“A forma como o sistema funciona é a de um funil. Basta ver quantos concluem o ensino médio e quantos tentam acesso à universidade”, critica Jean Mac. Santos aponta a dificuldade de o estudante da rede pública passar nos vestibulares brasileiros, provas escritas, de múltipla escolha e/ou redações. Para ele, basta observar que de todos que tentam entrar em uma universidade, são poucos os que de fato conseguem.

João Victor Moraes, de 18 anos, cursa Educação Física na Universidade de São Paulo (USP) e sempre estudou em escola particular. Ele conta que a pressão para passar em universidade pública sempre fez parte de sua vida. Isso porque o ingresso nessas instituições é o que se espera de estudantes do ensino privado, diferente do que acontece com os alunos do ensino público. Os quatro vestibulares que prestou foram para universidades públicas (USP, Unicamp, UNESP e ENEM). “Meu sonho sempre foi fazer faculdade pública”, diz João.

Mariana Oliveira, de 24 anos, estudou grande parte de sua vida na rede pública e hoje cursa Pedagogia na USP. “Acho que sonhar (em entrar numa universidade pública) todo mundo pode. Agora, dizer que um aluno de escola pública tem as mesmas chances que um de escola particular no vestibular é acreditar na meritocracia e para mim isso não existe”, afirma. Muitos alunos precisam trabalhar e estudar, têm uma vida precária ou estudaram em uma escola com uma qualidade de ensino ruim. Por isso, as chances deles terem bons desempenhos nos processos seletivos é reduzido, o que preocupa Mariana. “A realidade é que o aluno da escola pública ainda está atrás, mas acredito que essa distância tem diminuído com o passar do tempo.”

No vestibular, muitas vezes o aluno da rede pública não tem esperança de ingressar em uma universidade pública, porque não aprende todos os temas cobrados nas provas. Segundo o educador Mozart Neves Ramos, “eles [alunos de escola pública] não têm segurança no ensino que recebem. Grande parte não estuda o conteúdo que precisa, não tem professores de várias disciplinas ao longo do ano e sofre com a desorganização curricular da escola. É natural que desacreditem na própria capacidade de chegar ao ensino superior”. Foi isso que percebeu Bruna Miato em sua formação. A estudante de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, quando relembra seu ensino médio na escola pública, afirma que não teve biologia em sua grade e, por muito tempo, não teve aulas de geografia. 

O objetivo das universidades públicas é que o ensino superior seja acessível até a quem não tem dinheiro para bancar uma faculdade privada. Mas, na prática, existe uma inversão que  faz com que muitos estudantes que completaram o Ensino Médio na rede pública optem por faculdades particulares populares que possuem um processo seletivo mais simples.

Com a implantação do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e do sistema de cotas nas universidades federais, o perfil dos estudantes tem sido ampliado nas instituições públicas de ensino superior. A Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos(as) Graduandos(as) das IFES, de 2018, indica que aproximadamente 6 a cada 10 dos alunos das universidades federais do país cursaram o ensino médio na rede pública: um avanço nas políticas de inclusão. No entanto, a quantidade de alunos que estudaram em escola pública durante o ensino médio chega a quase 9 a cada 10, segundo dados do IBGE de 2018.

 Jean Mac Cole enfatiza em seu artigo que “o vestibular (o grande vilão) não existe para excluir, ele exclui para existir: é o instrumento que possibilita colocar uns para dentro e manter outros de fora”. O que resume, em poucas palavras, esse sistema perverso.

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2 comentários em “Vestibular para poucos: um sistema perverso”

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  2. Eu sou fruto de um ensino de alfabetização hoje conhecido como Eja, cheguei a cursar nivel superior e pós graduação nada é facil.Amei a materia parabéns para os alunos. E tudo é possível quando existe um SONHO.. Com Carinho.

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