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Velhos novatos: O diferente ano de bixo com a pandemia

O primeiro ano de faculdade é um momento sonhado por muitos estudantes. É mais do que o glamour de chegar ao ensino superior. É uma experiência marcante, que aponta para o futuro e os caminhos possíveis de se seguir. Este período é tão especial, que existe um nome para quem está passando por ele: bixo.

O termo “bixo” é a popularização de bicho, expressão usada para se referir aos calouros universitários. A palavra vem de uma derivação do latim, segundo o linguista Ari Riboldi.

Na Roma Antiga, os animais passavam por uma espécie de corredor estreito chamado de vestibulum, que derivou para o termo vestibular. A analogia é: assim como os animais no antigo império, os estudantes passam pelo aperto dos vestibulares para conseguir entrar no ensino superior.

Após o aperto do vestibular, quando entram na faculdade, os “bixos” passam por rituais de chegada, festas e um período de adaptação à nova vida. Mas em 2020, com as medidas de isolamento social determinadas pela pandemia de COVID-19 em março, esta chegada ao mundo universitário foi diferente.

Recepção ou decepção? Um bixo pandêmico.

O cuiabano Vitor em sua recepção como bixo na UFSC.

A recepção de alguns e a decepção de muitos. Alguns bixos tiveram apenas um mês de aulas presenciais. “O contato virtual como “bixo” não existiu. Não tivemos mais contato com os veteranos quase, porque não tinha nada para falar”, relata Vitor Pacce, de Cuiabá-MT, que deixou sua cidade para fazer o primeiro ano da faculdade de história em Santa Catarina na UFSC. “Foi difícil ir para um lugar que eu nunca tinha ido na vida, ficar longe de amigos e família, mas foi bem rápido a adaptação e eu já tinha conseguido me prender a uma rotina suave de aulas”, contou.

“Na primeira semana teve o trote com apresentação dos veteranos e cada um ficava “responsável” por algum novato, fui super bem recebido. Meu veterano foi muito legal em mostrar o campus inteiro da faculdade para mim, o local das aulas e essas coisas. Almoçamos no RU (restaurante universitário) direto e foi legal. Teve as atividades do trote que foram basicamente tacar tinta nos calouros e sujar todo mundo para depois irmos pedir dinheiro no semáforo para pagar uma festa depois. Foi uma experiência legal que nunca pensei que iria passar na minha vida”, lembra Vitor.

Quando as aulas presenciais foram interrompidas, Vitor precisou voltar para Cuiabá. “Depois de duas semanas de aula elas foram canceladas e eu voltei para casa, o que foi bem decepcionante porque eu já estava bem estabelecido lá em outro estado”, diz. A frustração maior do jovem não necessariamente é apenas por ter perdido o ano de “bixo”, mas sim pelas dificuldades do ensino remoto. “O fato de ser calouro ou não é insignificante nessa situação, acho que o mais importante mesmo foi ter perdido aulas, matérias e discussões mais bem elaboradas dos temas”, conclui.

Em um passado não tão distante..

O começo ano de bixo de Vitor foi diferente do que costuma ser o primeiro ano de faculdade. Brunna Francisco, atualmente no 3°ano de Relações Públicas, nos contou um pouco sobre como seu primeiro ano na faculdade foi fundamental para seu crescimento pessoal. Segundo a estudante, seu ano de “bixo” ajudou a criar uma independência muito grande, visto que não tinha mais seus pais em sua cola cobrando pelas notas, trabalhos e boletins, agora ela teria que se preocupar por conta própria. Além disso, agora era responsável por ir e vir de sua universidade sozinha, através do transporte público, algo que não acontecia em seus anos escolares por conta de morar perto de sua escola. “No meu primeiro ano de faculdade eu aprendi a ser bem mais independente dos meus pais, porque minha escola era perto de casa… tive que começar a andar muito mais de ônibus e metrô sozinha”.

Brunna (esquerda) posa com outros calouros durante seu trote como bixo.

Fernanda Corrêa, cursando atualmente o 2° ano de Relações Públicas, citou a importância que as festas e um “pai/mãe” tiveram em ajudar com suas dificuldades no primeiro ano. Fernanda chegou à faculdade após um ano no cursinho e não conhecia muitas pessoas que fariam o curso com em sua sala. Ela nos contou que uma grande ajuda que ela teve para conhecer não só pessoas de sua sala, mas também muita gente de toda a universidade foram os grupos de Whatsapp criado (justamente para criar essa integração), o trote e a famosa festa “Cervejada dos Bixos”. A última em especial foi fundamental para conhecer novas pessoas de outros cursos. A tradição de novatos terem “pais” ou “mães” veteranos existe para pessoas mais experientes na faculdade ajudarem os calouros em se localizarem dentro do campus, em determinadas matérias e em qualquer outra dificuldade

Felipe posa para foto durante seu trote em 2017

“Cada aluno tinha seu pai e sua mãe, que é tipo um aluno do segundo que seria a mãe de um aluno do primeiro e a minha mãe era a Thaís. A gente tinha um grupo que era eu, a minha mãe e outra menina que era minha ‘irmã’ (pois também era filha da Thaís) e a gente conversou muito como seria o começo das aulas, o ano, os professores e quais matérias seriam mais complicadas para cada uma. Foi muito bom ter essa mãe que orientou a gente nesse primeiro ano. Ajudou muito.”

O estudante Felipe Matos, hoje no quarto ano de RTVI, lembra com muito carinho de seus primeiros passos na faculdade, antes mesmo de sequer pisar no prédio na Avenida Paulista. “Desde que eu entrei na Cásper antes do primeiro dia já me colocaram nos grupos e tal, e sempre foram muito suaves e isso eu achei muito legal, já falaram para a gente ir aprendendo as músicas já”, disse Felipe. Relembrando sobre suas primeiras experiências como calouro, o rapaz ainda completou, reiterando de onde adquiriu essa paixão pela faculdade que agora estuda há quatro anos. “No trote foi muito “daora” por que todos estavam abertos para se conhecer e conversar e isso me marcou, a paixão pela Cásper já foi deixada clara desde o dia do trote, quem está na Cásper gosta muito da Cásper é 100% vermelho, nas festas principalmente”.

Por fim, Felipe ainda comentou a sensação de ser um “bixo” e como significou para ele poder ter uma recepção desse nível e viver toda a experiência de calouro . “Tem essa questão de ser “bixo” e aproveitar tudo no máximo assim sabe? Tudo mais intenso tudo novo e isso foi muito marcante para mim”, finalizou.

E a classe de 2021?

Como será que os “bixos” desse assumirão o papel de protagonizar as festas e recepções para os estudantes que chegarão em 2021? O período de calouro dos alunos do ano seguinte será atrapalhado pelo COVID-19? Depois desse período perturbado, as próximas gerações de calouros terá seu primeiro ano normalmente, ou não? São essas e outras perguntas que surgiram após esse ano de pandemia.

Entretanto, a certeza que temos é que a classe de bichos de 2020 teve a experiência mais diferente dos últimos tempos, tendo contato com a universidade, professores e colegas de maneira remota e sem poder utilizar os espaços disponibilizados nos campus. Ademais, a função dos segundo anista de ajudar os novatos, sendo “pai/mãe”, ficará extremamente limitada às matérias e professores, visto que não tiveram a experiência completa dentro dos institutos. Sendo assim, provavelmente essas pessoas irão para o segundo ano não só com uma mentalidade de primeiranista e curtirão todas as novidades, festas e oportunidades que a faculdade tem a oferecer, mas também para auxiliar os calouros com as matérias e conhecer a universidade juntamente da classe de 2021.

MAIS FACTUAL!

Como complemento do nosso texto, recomendamos o podcast feito pela Factual900 onde alguns bixos contaram suas experiências vivendo como calouro em 2020. Ouve lá!

Nosso Facebook também nos trás uma leitura importante abordando a visão de estudantes que não conseguiram se adaptar ao “novo normal” e abandonaram o ano de bixo. Não deixem de conferir!

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