A evolução da Twitch no mundo da música

Plataforma digital usada por gamers vira alternativa para a monotonia das lives durante pandemia

Por Bianca Feldmann, Isabelle Aradzenka, Luisa Cardoso, Maíra Pilão, Melissa Coelho e Vitória Antunes

A Twitch, plataforma de streaming criada em 2011 e hoje pertencente à Amazon, veio para inovar no modo como o público consome conteúdo na internet e se aproxima de ídolos. Inicialmente orquestrada para conquistar o público gamer por meio da transmissão ao vivo de jogos eletrônicos, hoje o site conquista espaço dentro do meio musical. 

A dinâmica de lives se popularizou no Brasil logo no início da pandemia por conta da quarentena e do subsequente cancelamento da agenda de shows. Calendários com as datas das próximas lives de artistas renomados, como Gusttavo Lima, Marília Mendonça ou Cabaré logo tomavam conta de redes sociais e grupos do WhatsApp em todo o país. A alegria e o fervor pela novidade, contudo, durou pouco. 

Logo se percebeu que as lives nas plataformas do Youtube ou do Instagram muito se assemelhavam ao DVD ao vivo. “Os shows desses cantores sertanejos, da Marília [Mendonça], por exemplo, são muito legais, mas você vê uma, duas vezes e aí chega. Você pensa “eu já vi isso ao vivo, eu já tenho o DVD. O que mais eles têm pra oferecer?”, indaga Pedro Antunes, colunista do UOL. . 

O elemento faltante era um toque humanizado, uma interação dos artistas com o público que os fizesse sentir parte daquela experiência. E aí, quase que como uma luz no fim do túnel, alguém se lembrou da Twitch. A plataforma possibilita que os espectadores conversem diretamente com quem está ao vivo naquele momento, seja mandando uma mensagem pelo chat – um pouco menos caótico que o do Youtube – ou realizando algumas ações pré-autorizadas pelos streamers, como solicitar músicas ou enviar figurinhas personalizadas com o rosto dos ídolos. 

Em 2019, antes da pandemia, a Twitch já ensaiava seus primeiros passos quando o festival americano Camp Flog Gnaw Carnival, produzido sob a curadoria de Tyler, the Creator, realizou sua primeira versão online. 

Assim como o Tiktok, rede social focada no compartilhamento de vídeos curtos, a Twitch presenciou um crescimento astronômico durante a pandemia. Nas duas plataformas, os músicos descobriram que podem se aproximar do seu público, mesmo à distância. Enquanto artistas de todos os tamanhos enxergam a Twitch como uma alternativa para pagar as contas apesar da paralisação na agenda de shows, o público vê as lives como alternativa para suprir a falta de eventos e interações interpessoais. 

Luiz Rodrigues, também conhecido como DJ Mista Luba, acompanha o rapper Rincon Sapiência em tours pelo mundo e viu na Twitch uma alternativa para continuar seu trabalho em meio aos adiamentos dos shows de estreia do álbum Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroreps’: “Quando começou a pandemia, a gente tinha a agenda lotada para o mundo inteiro. Austrália, vários outros países que nunca fui. Me desapeguei e decidi fazer conteúdo de vídeos, até que apareceu um festival na Twitch com outros DJS só de vinis”, conta.

“No começo, eu não tinha estrutura nenhuma, mas foi uma maneira muito legal de espalhar, manter e resgatar a cultura dos vinis. É uma proposta legal porque você toca os discos que tem em casa, não aqueles que você costuma levar pra balada”, explica Luiz.

A migração de DJs para o universo virtual também contemplou músicos que roubavam a cena noturna de grandes metrópoles. Um exemplo disso é Marco Serra, o DJ e produtor de eventos com um currículo recheado de baladas consagradas na noite de São Paulo, uma festa própria – a Emo Revival – e uma passagem pelo Rio de Janeiro. 

Marco já estava inserido no mundo das lives de games antes da pandemia, mas o cancelamento de sua agenda de shows fez com que ele enxergasse a Twitch como uma fonte alternativa de renda. O negócio logo começou a crescer, com um cronograma pré-definido  para as apresentações e ganks (quando um streamer encerra a sua live e direciona todos que estão assistindo a outro canal). A partir daí, Marco conquistou um público fiel que talvez nunca tivesse conseguido apenas com sua agenda física. 

“Percebi que as pessoas que iam assistir à Emo Revival no final de semana voltavam nos outros dias para me ver jogando, e vice-versa. Daí surgiu gente que nem é de São Paulo, gente menor de idade que não tem como ir em uma balada. A Twitch me ajudou muito nesse sentido. Eu acho que ela promove muito uma aproximação com o público: enquanto estou discotecando [em uma balada] eu não consigo conversar com as pessoas, trocar ideia e ouvir os pedidos dela. Na live isso é mais fácil, eu estou sempre interagindo, lendo as mensagens no chat. Se uma pessoa comenta alguma coisa engraçada e eu dou risada, a pessoa me vê rindo e fica feliz”. 

Streaming para todos os gostos

A Twitch hoje garante infinitas possibilidades de interações entre streamer e espectador. Um bom exemplo aconteceu durante as lives do Criolo, onde o rapper traz debates, bate-papos, assiste filmes e promove discotecagens. Na ocasião, o músico estava performando músicas românticas antigas quando convocou seus inscritos a “dançarem” juntos e “encontrarem” seus pares no chat. 

O mesmo acontece durante as lives de Lucas Silveira, que todas as noites joga os games do momento com seus fãs e até mesmo se disponibiliza a ouvir bandas desconhecidas que os inscritos enviam pelo chat. Marcelo D2 também provou dessa conectividade ao produzir seu mais recente disco, “Assim Tocam os Meus Tambores” ao vivo em seu canal na Twitch. Durante as transmissões, D2 ligava para outros artistas, convidando-os a participar de faixas e constantemente pedia a opinião de seu público sobre o que estava sendo produzido.

Lucas Furtado, baixista da banda brasiliense Scalene, começou a fazer lives na Twitch durante a pandemia jogando e tocando sintetizadores. O artista opinou para a Factual900 sobre a obrigatoriedade que a plataforma transmite aos streamers, para que produzam conteúdo diariamente: “As lives em qualquer plataforma que seja são ótimas para fidelizar a galera e aproximar o artista do público. Na Twitch, é exigido o uso contínuo e a criação de comunidades para rolar a remuneração, então não compensa fazer apenas um show por lá e parar de usar a plataforma. Isso porque artista nenhum vai fazer lives de música como as que rolam no Youtube todo dia por meses, meses e meses. Eventualmente o conteúdo muda porque o criador e o público cansam”.

Lucas Furtado jogando Fall Guys durante live na Twitch.

Porém, nem tudo são flores

Um dos grandes impasses na Twitch, talvez, seja a questão da monetização para streamers pequenos e os altos custos de inscrições para os usuários. 

A monetização para os criadores de conteúdo se dá em três maneiras: por um sistema de doações livres, pela reprodução de anúncios e pelo sistema de subscribers, inscrições mensais de valores variados. O conteúdo das lives também pode ser acessado gratuitamente, sem a necessidade de se criar uma conta no site, mas o sistema de inscrições libera funcionalidades exclusivas que podem ser personalizadas e demonstra um apoio maior a quem está na frente das câmeras. 

Além disso, a assinatura Prime da Amazon permite que o usuário se inscreva de maneira gratuita em um canal da Twitch. Esse sistema faz com que o público acabe tendo que “escolher” qual artista receberá seu apoio, e pequenos criadores de conteúdo se veem obrigados a trilhar um batalha silenciosa com os mais famosos. 

“Se o artista é alguém com muito nome e uma base de fãs que já o consome normalmente, ele vai ter uma grande parcela dessas assinaturas. Isso vai dificultar muito que artistas menores tenham alguma chance de aumentar seu número de apoios porque o pública terá que escolher deixar seu apoio para este ou aquele canal. Com a estrutura e os valores atuais que a Twitch aplica para os apoios em canais, se a Scalene, a Far From Alaska, a Supercombo e a Fresno tiverem canais ao mesmo tempo, vai rolar uma diluição desses apoios entre esses canais e não necessariamente um acréscimo de público para todas as bandas”, opina o baixista da Scalene.

Perspectivas futuras e o “novo normal” na música

Ainda para o baixista da Scalene, Lucas Furtado, artistas e bandas de grande porte terão dificuldade em manter as lives no pós-pandemia. “Acho que quando a gente fala de lives como forma de manutenção financeira e midiática para bandas é muito fácil dizer que funciona pegando exemplos individuais. A gente não pode esquecer que música é uma indústria interligada de várias e várias formas com muita gente trabalhando”, explica.

“As lives são boas para as bandas e podem até gerar certa grana para algumas, mas nunca vai sustentar a cadeia que envolve banda, roadies, técnicos, assessores, casas de shows, contratantes, divulgadores, produtores, selos e gravadoras.”

A agenda de lives, porém, pode permanecer como uma adição ao calendário de DJS e músicos de pequeno porte. Sobre isso, o DJ Marco Serra conta: “A minha ideia é manter as lives de discotecagem. A gente não vai perder o público da balada, ninguém vai pensar ‘por que eu vou na balada se tem a live de graça na internet?’, não dá pra comparar as duas coisas. Além disso, eu alcanço bastante gente de fora de São Paulo, bastante gente menor de idade que algum dia pode virar meu cliente, bastante gente do Rio que, um dia, se eu resolver fazer uma festa lá, com certeza já vai comprar o ingresso. Hoje eu tenho um público muito diverso que jamais imaginei que poderia alcançar”.

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