Trap: a história por trás do hype


As febres do mainstream vêm e vão. Então antes dessa acabar, venha entender um pouco mais sobre o trap. 

Roupas muito características e um estilo musical que aos poucos está se infiltrando- esse é o Trap, um subgênero do RAP que não sai dos ouvidos dos millenials. O vestuário desconexo, o abuso de drogas, as tatuagens no rosto, as rimas e batidas eletrônicas na mesma canção fizeram essa tendência – ou mesmo, estilo de vida, como dito por seus adeptos – se tornar um dos maiores hypes de 2016 para cá. Mas o que tem por trás de Matuê e Young Thug? Ou ainda, de onde veio o trap e para onde está indo? 

A história do trap começa, na verdade, no mesmo lugar onde surgiu o pai de todos os gêneros de música marginal: A Jamaica, o berço do Rap. Nos anos 60, os jamaicanos usavam e abusavam do Rythm n’ Poetry (ritmo e poesia, isto é, a sigla referente ao RAP) para embalar seus bailes populares. Na década seguinte, entretanto, as fronteiras do rap se expandiram com a imigração jamaicana, por razões sociais e políticas, para os bairros pobres de Nova York. Com a chegada dos novos habitantes, chegou também uma nova nova musicalidade e a semente do que viria a ser, anos mais tarde, um dos gêneros musicais mais ouvidos e espalhado pelo planeta. 

O rap contava basicamente com a “palavra-falada” sobreposta a uma mistura instrumental de jazz, funk e, principalmente, a música tradicional africana. Logo nos anos 80 essa mistura distinta caiu no gosto popular, e lendas do hip hop, como Public Enemy e Afrika Bambaataa, se consagraram. As letras são altamente engajadas e ativistas, de vocação popularesca que tratava, e trata, ainda hoje, da violência, pobreza, criminalidade e diferentes problemas sociais decorrentes da marginalidade e da pobreza. O trap “é uma vertente do rap, uma derivação como tantas outras, que começou a nascer com o dirty sound de Atlanta” de acordo com o rapper paulista Crespo Mc, de 33 anos, em entrevista a Factual 900.

Nas zonas marginais, ou guetos, a população local deu voz às suas expressões artísticas já existentes, que iam desde as batalhas de rimas aos clubes de música eletrônica underground – o que possibilitou a criação das primeiras trap houses. As “casa-armadilha”, assim chamadas devido a grande repressão policial, não serviam somente como clubes de música, mas também como ponto de venda e uso de drogas e apresentação experimental dos cantores de trap. 

Durante o ápice da sua popularidade, na virada dos anos 2000 o rap se tornou quase que uma epidemia tomando conta de países como França, Japão e, é claro, Brasil. Ainda que uma nomenclatura definitiva não existisse, foi nessa época que o trap, de fato, começou.

 “O trap não tem muito compromisso social, além de ser uma vertente mais nova, então o público é basicamente formado de gente bem jovem, mais interessada em diversão! Já o boombap hoje atinge uma faixa etária maior e mais variada, porém acaba restrito a quem gosta de uma abordagem mais politizada do mundo” aponta Crespo Mc. 

Derivado diretamente das produções dos rappers do sul dos Estados Unidos, o trap é caracterizado pela ostentação e melancolia, percussão eletrônica e forte alteração vocal através de recursos como Autotune – considerado por Crespo um artifício pedido pela música. 

Os MC’s da east e west coast (Costa leste e oeste dos EUA, respectivamente) construíram impérios musicais milionários e uma cena de embate entre os grupos. Esse cenário de desprezo e revolta dirigiam os refrões embrutecidos para temas como drogas, solidão, criminalidade e morte. A cena underground, se é que algo poderia não ser underground nos anos 90, contribuiu com os graves pesados, as altíssimas bpms (batidas por minutos) e os samples eletrônicos. 

Nas trap houses, artistas como Rick Ro$$ e Gucci Mane iniciaram suas carreiras e fizeram os primeiros contatos do trap com a indústria musical do mainstream. Mas foi Lil Wayne, tido por muitos como o pioneiro do subgênero e do vestuário e comportamento, que deslanchou rumo ao fenômeno que conhecemos hoje. A produtora de Wayne revelou grandes nomes da música dos anos 2000 como Taiga e Nicki Minaj. Introduziu o ad lib – onomatopéias nada léxicas, características do trap usadas para fazer rimas e dar sonoridade – e o flow, ou rítimo, literalmente, muito específico do gênero, além de ser o padrinho musical dos ícones do trap atual, como Tiff Khaliffa, Rich the Kid e o conjunto MIGOS. 

O grupo MIGOS, inclusive, é o responsável pela criação do que talvez seja um dos maiores emblemas do trap, o dab (uma comemoração em que se flexionam os joelhos, os olhos se cobrem com um braço e outro se estende para a lateral do corpo, com a cabeça virada para o lado oposto). 

Esse período de formação identitária do movimento também evidenciou, ou talvez, popularizou, o uso de lean. Trata-se de uma droga líquida, de coloração roxa, derivada de medicamentos analgésicos, que quando diluída no álcool e em refrigerantes, tem efeitos anestésicos semelhantes ao do ópio. 

“O rap sempre teve, desde o início, uma relação aberta com o mercado e com a moda”, disse Crespo, e conclui “isso fez com que ele fizesse sucesso no mundo inteiro”. Para ele, “o trap é só a vertente da vez, não mata nenhuma das outras porque a história não é uma linha, é um espiral, quando surgir outra derivação ou resposta, o trap também não morrerá”.

Os anos de 2010 foram a época de ascensão de trap, e artistas como Lil Peep e Fetty Wap fizeram com que, em 2017, o gênero assumisse protagonismo entre os gêneros musicais dos jovens, seus beats característicos se tornaram influência também para o pop das mais variadas vertentes, de Drake à Ariana Grande. 

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