Leitura: entenda como a taxação dos livros pode ser uma barreira para a ampliação do hábito no Brasil

Leitura: entenda como a taxação dos livros barra a ampliação do hábito no Brasil

Ler é para todo mundo? No Brasil, leitura e desigualdade social estão intimamente relacionadas. O acesso a livros limitado e – a despeito de esforços pela democratização – a taxação dos livros pode aumentar ainda mais a distância entre as letras e o brasileiro. 

Marcos da Veiga Pereira, vice-presidente do Instituto Pró-Livro, reforça que o estereótipo que as pessoas têm é de que os livros são para as pessoas de classe mais alta. “É muito difícil encontrar alguém que diga ‘sou contra livro’ e essa é uma boa notícia, mas você vai encontrar gente que diz que livro é para ricos”, afirma. De acordo com a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, apenas 38% da população das classes D e E é composta por leitores. Um número tão pequeno exige medidas que tentem reverter essa situação. 

Incentivo em áreas carentes

Edson Moura, 43,  auxiliar de coordenação do Colégio Magno, ao observar essa disparidade, decidiu fundar o projeto Parceiros na Literatura, que tem como objetivo levar a leitura para áreas carentes. Tudo começou quando Edson trabalhava como inspetor de alunos no Colégio Etapa, escola particular, e notou a diferença entre seu ambiente de trabalho e a escola de sua filha, que estudava na rede pública. Assim, o projeto de incentivo à leitura se iniciou dentro de casa, quando Edson levou para sua filha livros da rede particular de ensino na qual trabalhava. Ciente da realidade em que vive, o criador do projeto sente-se privilegiado pelo seu trabalho.

“Os amigos da minha filha ficaram maravilhados com os livros, porque são de boa qualidade e é difícil para a ‘molecada’ ter acesso a isso. Moro no Capão Redondo (bairro de São Paulo) e as pessoas aqui têm que decidir entre comprar um livro ou um quilo de carne”

Edson Moura, criador do projeto

O auxiliar de coordenação acredita que um dos motivos para a pouca prática do hábito da leitura é a baixa acessibilidade das bibliotecas. “Fui num colégio público no Butantã onde a biblioteca era trancada. Parecia porta de cadeia (risos), com um cadeado enorme na porta e a ‘molecada’ não podia usar. Biblioteca tem, mas o que falta é vontade. O pessoal tem que se sensibilizar mais”, explica.

Renata Toigo, 40, educadora e coordenadora de eventos da ONG Cirandar, também ressalta a importância das bibliotecas no incentivo à leitura no Brasil. “A biblioteca às vezes funciona como o único centro cultural daquele espaço; é o único espaço em que a criança e o jovem têm como extensão de suas casas.” A Cirandar atua diretamente na construção de bibliotecas comunitárias, a fim de fortalecer o espaço de leitura e proporcionar o acesso à educação e à literatura em espaços periféricos. Atualmente, o projeto está repensando os espaços e se distanciando de trabalhar apenas com as bibliotecas. A ideia é, segundo Renata, pensar em espaços de promoção de leitura e democratização do acesso, como geladeirotecas, clubes de livro e clubes de leitura. 

Incentivo à leitura por faixa etária 

Os dados da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” apontam que a única faixa etária na qual houve um aumento de leitores no país, entre os anos de 2015 e 2019, foi entre crianças de 5 a 10 anos de idade. Em contrapartida, todas as demais faixas etárias apresentaram declínio no número de leitores. “Eu trabalhei em projetos de leitura de escolas, por exemplo, que não tinham projetos para os anos finais. Tinha para os anos iniciais até o 5º ano, e depois retomava lá com as leituras obrigatórias no ensino médio”, conta Renata. “É essa ruptura que o leitor tem ao longo da vida. Se lá nos anos finais ele tem uma ruptura de leitura, como é que ele vai retomar isso?”, indaga.

A educadora sugere que a solução está no desenvolvimento de projetos de incentivo à leitura focados em adolescentes e pré-adolescentes. “Por exemplo, este ano, nas nossas bibliotecas, nasceram clubes de leitura com adolescentes, do 6º ao 9º ano. E deu muito certo, porque os adolescentes passaram a se sentir valorizados”, conta.

A jornalista e famosa booktuber do canal “Ler Antes de Morrer”, Isabella Lubrano, 31, também demonstra preocupação com o decréscimo do hábito da leitura após os 10 anos idade: “Tenho medo de que o livro seja um brinquedo da infância, em que você perde o hábito de brincar com ele conforme cresce.”, diz ela. “A primeira infância é a que está mais livre do celular, pois os pais tentam controlar o acesso. A pesquisa mostrou que no início da adolescência, o hábito de ler despenca monstruosamente. Penso que no futuro, talvez o livro se torne apenas uma brincadeira de criança.”, continua.

A influência das redes sociais no hábito de leitura

Com um canal sobre livros prestes a alcançar 500 mil seguidores, Isabella atinge principalmente o público de 18 a 30 anos, que muitas vezes não recebeu o incentivo adequado na escola, criando um estigma negativo em volta da leitura. “O principal mérito das redes sociais é que elas conseguem tirar aquele ‘ranço’ que muita gente fica na época da escola, muita gente vai redescobrir Machado de Assis num canal como o meu e vai dizer ‘nossa, quando eu vi na escola foi horrível, mas agora com você falando parece tão interessante que eu vou tentar dar uma segunda chance”, explica ela.

Isabella reitera que as redes sociais são o principal mediador da linguagem dos nossos tempos, logo, quando a literatura é abordada de forma mais descontraída, ajuda a impulsionar o acesso e criar comunidades de leitores, onde é possível trocar dicas de lugares para baixar livros de graça, promoções e feiras. “Se você se interessar pela programação do mundo livreiro, você consegue inclusive comprar livros de um jeito muito mais econômico”, afirma a booktuber.

Taxação alta é barreira para a democratização

O acesso à leitura está diretamente ligado à questão econômica, que é fator determinante para o consumo. A CBS “Contribuição sobre Bens e Serviços” pode impactar a produção de livros no Brasil, visto que uma taxa de 12% seria atribuída nas etapas da cadeia produtiva. O mercado livreiro muitas vezes acaba por diminuir sua margem de lucro, com o intuito de não repassar para o consumidor. Com a reforma tributária, isso se torna inviável e o repasse, imprescindível. No final, o valor dos livros tende a aumentar em 30%.

“Um livro custa muito caro para o poder aquisitivo do trabalhador brasileiro, mas está tudo ‘indo nas costas’ das livrarias, das editoras, das distribuidoras, elas não contam com incentivos grandes do governo. Acho que deveria haver subsídio, financiamento para que o livro custasse metade do que custa hoje” diz Isabella Lubrano. Essa visão também é compartilhada por Edson Moura, que acredita que o preço cobrado pelos livros é muito alto e o aumento da taxação é um obstáculo a mais para a democratização do acesso à leitura.

Por Gabriela Favacho, Helena Geraldes, Letícia Maia, Matheus Silva e Paola Orlovas

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