Moradia social, a luta dos sem-teto em São Paulo

A crescente criminalização da busca pelo direito à habitação afasta população que não tem onde ficar

Por Beatriz Luiz, Clara Suaiden e Letícia Tiossi

Na Avenida Nove de Julho, o portão do prédio ocupado fica em uma parede toda grafitada. Ao entrar nele, há um porteiro e câmeras de segurança, onde os visitantes precisam assinar uma lista para entrar. E há uma outra lista para os moradores. Tudo sempre organizado. O edifício, que serve de moradia social para 124 famílias, é hoje uma das ocupações habitacionais emblemáticas dos sem-teto em São Paulo.

No acesso para a ocupação Nove de Julho há várias expressões artísticas que mantêm a paisagem agradável para os moradores, dando a aparência de mais um condomínio comum, seguro e organizado, com sentimento de acolhimento. As paredes do interior da edificação são decoradas. Já na entrada um mural com a história do movimento e fotos das crianças que moram no local em momentos de diversão recebem os moradores.

O Cotidiano da Ocupação Nove de Julho – PRÉVIA. vídeo: Luzia Barros

O prédio de 14 andares conta com biblioteca na sala de comunicação, cuja parede é forrada de cartazes de referência política. Os banheiros são coletivos, divididos entre homens e mulheres, sempre muito limpos e arrumados. A limpeza é feita todos os dias, coletivamente.

Criminalização dos sem-teto

Em conversa com a equipe do Factual900, Danilo Martinelli, conselheiro tutelar e gestor de políticas públicas que ajuda na curadoria do movimento, e está substituindo Preta Ferreira na liderança da ocupação Nove de julho, declarou:

“Os movimentos de moradia têm lideranças (líderes) que inclusive estão presas por tentarem organizar a vida de pessoas para que elas tenham acesso a uma política pública e de um direito constitucional que não está sendo garantido. Há um déficit habitacional, de responsabilidade do Estado, de resolver o que não está sendo resolvido. Enquanto isso, emergencialmente, os movimentos de moradia são uma forma de denunciar. As ocupações são imóveis que não estão cumprindo sua função social da propriedade.”

Para Danilo, a criminalização dos sem-teto nos últimos tempos tem afetado o psicológico dos moradores. Isso faz com que muitos tenham medo de participar do movimento por moradia social.

Na ocupação Nove de Julho, as crianças têm acesso a uma oficina de arte, enfeitada e acolhedora. A cozinha coletiva é sempre bem organizada. 

As histórias por trás de cada morador são escondidas e a realidade de cada ocupação é diferente, com regras e normas a serem seguidas. As crianças, por exemplo, não podem entrar e sair depois das 22 horas sem autorização dos pais. A preocupação com o futuro das crianças é tão grande, que Danilo faz questão de mostrar os documentos de que todos os jovens estão matriculados e vacinados.

A líder por moradia social

Dessas formas irregulares de habitação saem histórias que precisam ser ouvidas, como a trajetória de Carmen Silva Ferreira, líder do Movimento dos Sem-Teto do Centro (MSTC), de São Paulo, um dos maiores movimentos organizadores de moradia urbana do País.

Dona Carmen, como é chamada, está à frente da organização da ocupação Cambridge, prédio praticamente vizinho da Nove de Julho. Vinda da cidade baixa de Salvador na Bahia, ela possui uma história de vida difícil. São Paulo foi a alternativa para tentar uma vida melhor. Viveu nas ruas e até que passou a lutar por moradia social. Mas não só para ela: para todos.

Carmen Silva é mãe de Janice Ferreira Silva, a Petra Ferreira, líder da Ocupação Nove de Julho, que está presa desde 24 de junho. Sob ela, há acusações de extorsão, por supostamente cobrar uma taxa de aluguel de moradores em condomínios ocupados do centro de São Paulo.

As ocupações ainda são vistas por parte da imprensa como criminosas. Líderes e sem-teto são frequentemente retratados como acomodados. Mas dentro delas podem ser encontradas histórias plurais de pessoas sem muitas opções. As ocupações servem como uma salvação, ainda que temporária, para quem não conta com uma moradia social.

Por não conseguirem pagar aluguéis e para não ficarem em situação de rua, muitos procuram ocupações e movimentos populares. Essa é a única chance para aqueles à margem da sociedade, formadas com um propósito em comum: ter um lugar para dormir à noite.

Ocupações em SP

A cidade de São Paulo contabilizava, até maio de 2018, mais de 200 ocupações, nas quais residiam cerca de 45 mil pessoas. Na noite de 1º de agosto de 2018, um desses prédios ocupados no centro desabou, o edifício Wilton Paes. Sete sem-teto morreram e dois ficaram feridos.

Para a prefeitura paulistana, 248 pessoas habitavam irregularmente o local. O Corpo de Bombeiros contava 372 habitantes. Após a tragédia do Wilton Paes, as ocupações foram colocadas em pauta e receberam atenção nacional, fato que não durou muito tempo. Hoje, milhares de famílias continuam vivendo o drama das ocupações.

A Defesa Civil avalia que mais de 70 prédios estão ocupados no centro. Após o incêndio do edifício Wilton Paes, a prefeitura pressionou para que essas ocupações fossem vistoriadas. De lá para cá, nada foi feito para melhorar a situação dos moradores desses prédios.

Siga-nos nas redes sociais

1 comentário em “Moradia social, a luta dos sem-teto em São Paulo”

  1. Pingback: Entre os prédios de São Paulo: crise e sucesso - Factual 900

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *