Repúblicas - seis meninas posam para a foto fantasiadas em uma festa

Repúblicas ou morar sozinho, o que é melhor?

Como a escolha daqueles que saem de casa para estudar impacta na experiência estudantil.

Por Diego Alejandro Valencia

Em 2018, Ana Julia Lozano estava radiante ao conseguir uma vaga para engenharia em uma universidade pública. A vida adulta estava só começando. Mas havia uma questão que a perturbava. O curso em que ela foi aprovada pelo Sisu (Sistema de Seleção Unificada) era em Minas Gerais, mais exatamente na Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Significava ficar distante a quase 9 horas de São Caetano, onde ela morava com os pais. Ana teria de começar a se virar de forma independente. Ou talvez em uma república, uma dúvida que perpassa gerações de estudantes que têm de morar longe de casa. 

Ana Julia começou o curso morando sozinha. Alugou um apartamento já mobiliado na cidade mineira de Ouro Branco, de 40 mil habitantes. Logo percebeu que não seria nada fácil. “Perdia muito tempo fazendo coisas da casa, como compras, limpeza e cozinhar”, lembra. Não demorou para que ela repensasse um receio que tinha antes da universidade. “No início, achava que não ia me adaptar morando com um monte de menina”. Mas em seis meses ela decidiu se mudar para uma república e ganhou outro olhar.

“Já na república, sempre tinha alguém para estudar comigo e as tarefas eram divididas”, diz a universitário, enumerando algumas das vantagens. “Todas as contas eram divididas igualmente, e os aluguéis variam, porque depende do quarto e tals.” Mas, claro, há também obstáculos que surgem, quase como uma rotina, do indivíduo que compartilha o espaço com outros. 

Esse dilema sobre viver ou não em república quando têm de estudar longe de casa paira sobre a cabeça de muitos estudantes. “Um apartamento pra mim sozinho, acho que seria um pouco caro demais, e meu objetivo não era gastar tanto”, diz Theo Peron. O jovem se mudou de São Paulo para cursar Agronomia. Aos 18 anos, estudante da Universidade de Viçosa (UFV), ele optou por morar em um apartamento com outros dois colegas, e não se arrepende. Quase como tradição que data do século XIX, os “veteranos” do local passavam suas experiências da vida universitária, davam dicas sobre a cidade e iam, assim, criando um vínculo de confiança.

Entretanto, Theo explica que nem tudo são tudo rosas. E que é importante saber com quem vai se dividir uma casa. Ele relatou, por exemplo, “uma insegurança de saber que não estar sozinho, e não ter uma privacidade total, pois mesmo estando trancado em seu quarto, eu sei que há outras pessoas ao lado que não é de minha família e isso pode causar alguma tensão”. 

História das repúblicas estudantis

As primeiras repúblicas estudantis datam desde o século XIV, em Coimbra, quando dom Dinis, por diploma régio de 1309, promoveu a construção de casas na zona de Almedina que deveriam ser habitadas por estudantes. No Brasil, as repúblicas começam a aparecer no reinado de dom João VI. Mas se organizaram num contexto de cidade universitária, como é conhecido até os dias de hoje, apenas em 1876, com a criação da Escola de Minas, em Ouro Preto. 

Não há dúvida que as repúblicas e cidade universitárias evoluíram muito desde então. Samir Fekuri, de 63 anos, relata o progresso, já que ele morou numa república enquanto estudava Engenharia Civil na USP de São Carlos há cerca de 40 anos atrás. “No meu tempo era diferente”, disse ele. “Havia mais algazarra, mais brincadeira, porém, era mais saudável também. Hoje só se pensa nas festas.” O hoje aposentado chegou a morar em um casarão com 30 “cabeças,” a maioria de homens.

E as famosas festas, quase sempre associadas com a vida em repúblicas? Fekuri relembra dos quatro anos em que passou. “Tinha também lá. Mas ‘ralávamos’ duro também nas provas, a maioria pelo menos”, diz, sem prender o riso.  Já a futura engenheira Ana contraria essa percepção e descreve as dificuldades. “Foi difícil, porque eu não tinha meus pais o tempo inteiro para me ajudar e os meus amigos que estavam muito longe. Ter que começar essas relações do zero é complicado, principalmente quando você está em outro estado”. (Colaborou Ian Casalecchi)

Para saber mais, ouça o podcast da Factual900 sobre o assunto:

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