Qual o limite entre representatividade e estereotipação?

As séries possuem um papel de influência na sociedade, sendo assim, é importante que tenham personagens presentes na realidade para abordar a representatividade. Mas na busca pela representação destes grupos sociais, um risco de esbarrar na estereotipação. Quando isso acontece, a intenção de representar pode se converter em reforço da segregação.

“É muito bacana a gente poder ver essa representatividade, mas, principalmente, o impacto que isso causa para sociedade”, afirma Patrícia Salvatori, pesquisadora e mãe atípica, referindo-se à série Atypical.

Atypical é uma série original da Netflix, que trata de forma dramatizada e ao mesmo tempo leve sobre o dia a dia de um jovem com TEA (Transtorno do Espectro Autista).

Em Atypical, o protagonista Sam tem uma mãe super protetora. Patrícia conta que na série, o assunto é “tratado com uma certa leveza, tem o negócio da comicidade, tem os diálogos super divertidos dele com o amigo, mas apesar da comicidade o amigo não trata ele de uma forma capacitista”.

A professora e pesquisadora compartilha sobre maternidade atípica em seu Instagram (@mundoim.perfeito).

Ela é mãe de Larissa, de 15 anos, diagnosticada aos 2 meses de idade com a Síndrome de Prader Willi (SPW), que, em 50% dos casos, tem características de autismo, Larissa faz parte desses 50%. 15 anos atrás, quase não havia informação sobre a síndrome aqui no Brasil. O diagnóstico da Larissa veio dos EUA e, desde então, Patrícia teve muito trabalho para conhecer a deficiência intelectual e divulgar essas informações.

Diversas pessoas que não tiveram pessoas com deficiência intelectual ao seu redor, quando olham, começam a perceber com outros olhos”, diz Patrícia.

Um espelho mais leve

E mesmo com o estereótipo da mãe super protetora e talvez certa romantização de algumas situações vividas pelo protagonista de Atypical, a série também não deixa de mostrar as crises que o jovem protagonista passa. Patrícia conta que percebe o cuidado da produção do seriado para que fique o mais fiel possível à realidade e ressalta que se fosse abordado de uma forma mais pesada”, talvez o público não aceitasse tão bem a série. Ela se diz feliz com a representatividade que a boa aceitação do público traz.

Além disso, Atypical ressalva um comportamento muito importante para Patrícia que é a abordagem da autonomia do protagonista. A visão paternalista e assistencialista da sociedade ainda é predominante com os pais assumindo o protagonismo dos filhos e, assim, acabam tutelando demais as pessoas com deficiência intelectual e autismo. Mas, o ponto é que ainda temos uma sociedade extremamente paternalista aqui no Brasil que precisa entender que essas pessoas têm vez e voz”, afirma.

Representatividade e superação

Karen Varro também é mãe de uma criança autista. Arthur, de oito anos, possui um grau leve do espectro. Ele foi diagnosticado por volta de dois anos de idade, mas, com o tempo e com o acompanhamento de profissionais (fonoaudióloga e psicóloga), a sua situação foi amenizada. “Hoje, com oito anos, ele está no espectro de um grau muito leve e isso se deu ao tratamento que ele faz” Karen completa.

Karen também tem uma visão positiva sobre a influência das séries. “É claro que a maioria das séries sempre mostra o lado de superação. Atypical é isso, um menino como o Arthur que tem o diagnóstico, mas que com bons acompanhamentos consegue levar uma vida comum (estudar, fazer uma faculdade, namorar, trabalhar e até mesmo se casar). Isso é o que esperamos com toda evolução na vida dele. E a série caminha para isso. Mas, infelizmente, essa não é a realidade de todos.”

Karen conta que existem casos mais severos, mas que não são muito tratados na televisão, pois as séries gostam de abordar situações de superação e grandes finais e, nesses casos, geralmente não é isso que acontece. “As pessoas não sabem o que é o espectro, só conhecem o autismo e rotulam, sem saber a capacidade que essas pessoas podem ter. Acredito que séries como essa podem mostrar uma outra realidade até mesmo para quem sofre com TEA.”, diz.

O exagero e o estereótipo

O estudante e pesquisador João Ferreira Malafaia Macedo conta que a representação dos espectros autistas é mais dramática para se adaptar ao formato televisivo. Os produtores tendem a exagerar em alguns comportamentos entre os afetados pelo transtorno neurológico. A representação principalmente no século 21, é importante para quaisquer grupos, minoritários ou vulneráveis. Porém deve ser feita de maneira clara e real para que os representados consigam se enxergar”, afirma.

Ele explica que a representatividade de pessoas com transtornos mentais ainda é fraca na indústria cinematográfica. Pouco se fala sobre as dificuldades e falta de inclusão e a atenção que essa parcela populacional vive. Mas essa representatividade por mais que, muitas vezes dramática, pode ajudar a fazer diferença em nossa sociedade. Isso se dá, segundo Macedo, porque novas pessoas começam a entender mais sobre os casos e indivíduos que, ao consumirem esses produtos midiáticos, percebem que podem sofrer algum transtorno também. A representatividade ajuda no diagnóstico de novas pessoas que ainda não compreendiam o que acontecia e acrescenta aliados nas causas de defesa desses espectros.

Ainda estamos atrasados

“É muito importante, porque abrange muitas questões. Ao mesmo tempo em que tem muita importância, o nosso país está muito atrasado em relação a isso”, afirma Carla Regina, psicóloga e mãe de Rebeca Tosta, de 21 anos, jovem com Síndrome de Down.

A série “Eu Nunca”, original da Netflix tem uma personagem com Down que traz esperanças para mãe e filha. Carla e Rebeca sentem muita falta da representatividade e da inclusão de pessoas com Síndrome de Down no mercado. Mas, ainda assim, valorizam as pequenas conquistas de representatividade como a personagem Rebeca Hall- Yoshida (Lily Moore) da série. Rebeca se disse apaixonada por como a personagem se parece com ela. “A única diferença é o cabelo loiro da personagem, pois até a moda nós duas temos de paixão em comum”, contou.

A vida pode imitar a arte

Rebeca Tosta é atriz cadastrada em agências de modelo. Ela relata que percebe que a síndrome é colocada muito à frente do que ela é, incapacitando-a. Mas, na verdade, ela é uma um jovem com 21 anos, com toda sua capacidade, com toda sua personalidade e todo seu potencial.

Ela sonha em um dia ser como a Lily Moore. Ela é uma modelo e atriz reconhecida, que participa de novelas, séries, e viaja o mundo como modelo. A felicidade em se ver representada é muito grande, mas a crítica continua sendo voltada ao pequeno espaço que é dado para isso. Ela segue lutando pelo seu espaço e compartilha como é essa batalha pelo reconhecimento como atriz e modelo em seu Instagram (@rebecatotalmentedemais).

Acesso à informação

“Hoje, caso a pessoa procure informação, a terá. É fácil não estereotipar de uma forma negativa”, afirma Renata Milliet, advogada e jornalista em formação e mãe de Francisco, que têm síndrome de Down.

Francisco tem 26 anos, gosta de ir à academia, assistir filmes e, principalmente, ouvir rock e funk no computador. Não é muito ligado a séries, mas de vez em quando assiste alguma para prestar companhia aos pais.

Foto do acervo pessoal de Renata.
Foto do acervo pessoal de Renata Milliet.

Renata contou que, em meados de 2000, Francisco assistiu uma novela da Rede Globo que apresentava uma garota com síndrome de Down. Na época, seu filho se incomodava com a situação e rejeitava assisti-la mas, com o tempo e amadurecimento, a representatividade se mostrou importante para ele. Principalmente assistiu o filme “Colegas”, de Marcelo Galvão, uma comédia que retrata a aventura de um trio de amigos com síndrome de Down. Além de se sentir representado, Francisco se sentiu acolhido, pois um dos atores é seu amigo pessoal”, lembrou Renata.

A mãe ressalta a importância dessa representatividade e o quanto a estereotipação pode ser evitada com facilidade com o acesso à informação.

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10 comentários em “Qual o limite entre representatividade e estereotipação?”

  1. Parabéns a todo grupo pela matéria! Inclusão e representatividade, ideias que (tomara!) a
    sociedade absorva e incorpore a ponto de não precisar de campanhas de conscientização num futuro próximo.

  2. Muito bom o artigo , esse tema é muito discutido nos congressos de psicologia, por um lado a representatividade é excelente pois facilita a inclusão, por outro , a necessidade de tornar o produto interessante leva á esteriótipos que muitas vezes são falsos, como na vez que mostraram a personagem da novela resolvendo um trauma familiar em poucas sessões de coaching. Parabéns 👏💐

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