Pantanal em chamas

Pantanal em chamas: entenda o que está acontecendo

Você sabia que o fogo controlado faz parte da cultura pantaneira? E que as chamas que atingiram a região recentemente provavelmente não fazem parte desta prática porque foram iniciadas na época seca? Conhecido por suas extensões úmidas e alagamentos, o Pantanal já teve mais de 23% de sua área atingida pelo fogo iniciado no final do mês de julho. Entenda como anda a investigação sobre os motivos das queimadas e como se manter informado sobre o assunto.

“Existem técnicas para o fogo não sair fora de controle”, diz o especialista Thiago Izzo, do departamento de botânica e ecologia da Universidade Federal do Mato Grosso. “Historicamente, assim como o fogo produzido por raios, o pantaneiro e o indígena colocavam fogo no começo das épocas chuvosas, época em que começa a voltar a umidade do ar, porque quando as plantinhas estão começando a brotar, enche de água, e isso causa a mortalidade das plantas”. E completa: “O fogo no pantanal meio que faz parte, do conceito socio-cultural e ecológico que compreende o bioma. Mas agora o fogo foi colocado no começo da época seca”.

Quem causou essa devastação

“Segundo a polícia federal, as grandes queimadas começaram em grandes fazendas. Eu acredito que provavelmente nem foram em fazenda de pantaneiros, mas sim de pessoas que tem fazenda no Pantanal, mas que são de outros lugares e não conhecem o sistema. Porque não faz sentido um pantaneiro verdadeiro colocar fogo na própria fazendo causando esse desastre. Nem os índios fariam algo assim!”.

O impacto das queimadas no bioma

“Estamos estudando como esse fogo vai afetar o bioma a curto e longo prazo agora, só teremos uma ideia de taxa de regeneração quando entendermos o tamanho do desastre”, afirmou. “Como ele [o pantanal] está em uma área de enchente, é um ambiente extremamente resiliente, é natural dele isso. Sempre vai ter uma grande quantidade de matéria orgânica produzida que vai alimentar uma cadeia atrófica muito grande. Pequenos organismos eventualmente nascem rápido e crescem rápido, então os insetos e as plantas, talvez não tenham um impacto tão grande como vai ter os grandes organismos. Estamos medindo isso agora, medindo se eles conseguiram fugir ou não”.

A recuperação

“Por causa dessa característica do Pantanal, talvez daqui há seis meses quando começar as chuvas vai estar tudo brotando de novo, e dá a impressão de que o pantanal vai se recuperar muito rápido, mas não é tão trivial, porque os organismos se estabelecem em uma porção de interações entre si. Uma onça precisa de um veado para comer, um veado precisa de uma planta para comer. Então existe uma cadeia atrófica associada que pode estar sendo desmantelada, pode estar perdendo grandes predadores, e isso pode ter consequências que podem perdurar muito mais anos”, afirma.

O impacto das chamas na fauna

Jacqueline Muniz é veterinária especialista em animais silvestres e alertou sobre os principais impactos que esse fogo descontrolado no Pantanal pode causar: “Temos espécies endêmicas desse bioma que estão sofrendo muito com a alta das temperaturas, a escassez de alimentos e a falta de água, são animas que se sofrerem uma baixa muito grande populacional podem simplesmente sumir. Essas temperaturas podem causar desidratação, hipertemia, fadiga, aumento da frequência cardíaca e respiratória e, caso o anima não consiga abrigo fresco e com sombra, podem vir a óbito.”

Ela ainda reforçou a importância de tratar todos os animais que sofreram algum tipo de queimadura, por exemplo, e defende a realização de testes de condicionamento antes da soltura para saberem se o animal está apto a voltar a vida selvagem. “Temos que ter a certeza que aquele animal consegue se alimentar sozinho, consegue procurar abrigo e todos os recursos para sua sobrevivência. Sobre inserir esses animais em um bioma diferente, é algo muito perigoso e não indicado pois podemos desequilibrar esse outro bioma. Animasi de origem de um lugar devem ser introduzidos em seu local de origem”.

Como se manter informados sobre a situação

Segundo o instituto SOS Pantanal, o fogo já consumiu 3.461.000 hectares do bioma, o que representa mais de 23% da área total localizada entre os estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e as partes que se estendem até o território da Bolívia e Paraguai. A ONG está divulgando em seu perfil do Instagram semanalmente vídeos para informar a população do andamento do fogo no local e seus esforços durante esse tempo. 

Afinal, quando tudo isso vai acabar?

Thiago Izzo ainda lembrou que o fogo está acontecendo de forma subterrânea em algumas áreas e de forma superficial em outras, o que dificulta ainda mais o acompanhamento do estrago.

“Provavelmente essa situação só irá acabar quando chover, acredito que em novembro vamos poder dar uma correta medição do que aconteceu e como podemos proceder. Para os ambientalistas [o que está acontecendo] é equivalente a uma pandemia, é uma coisa tão grande que não sabemos ainda as proporções. As informações vão mudando porque ainda não acabou, vamos ter que consolidar o tamanho do estrago para ter algum tipo de informação firme de como vamos poder lidar. E isso é apenas porque o estrago é grande demais”.

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