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Os males por trás do streaming musical

Descubra como as gravadoras e as plataformas de streaming musical como o Spotify, o Apple Music e o Deezer têm afetado artistas como Radiohead, Taylor Swift e BTS

Por Arthur Silva, Bruna Parrado, Gabriel Haguiô, Nicole Cantagallo e Sabrina Carmo

Você sabe quanto vale cada play para o seu artista favorito numa plataforma de streaming musical? O site The Trichordist estima que apenas US$ 0,00348 é repassado para as gravadoras para cada música ouvida – ou seja, a cada mil audições digitais é possível para arrecadar quatro dólares (menos de 25 reais). Essa matemática faz com que apenas 5% da receita dos artistas venha dos serviços de streaming, enquanto os 95% restantes são de shows ou publicidade.

Para o criador dos sites de música Letras e Palco MP3, Samuel Vignoli, que informou a divisão de receitas acima, o streaming ajudou a facilitar e, ao mesmo tempo, limitar o acesso à música. “Essas plataformas de streaming têm um vício muito grande em nichar demais quem pode ser atingido, são pessoas que topam pagar uma mensalidade”, explicou Vignoli à Factual900.

A baixa monetização tem afetado diretamente a maneira de se fazer e promover música. Se cada play gera US$ 0,00348 para as gravadoras, a tendência é que as músicas se tornem cada vez menores e os álbuns mais compactos. Só assim elas podem ser tocadas mais vezes, o que gerará mais lucro. Para as rádios, significa poder reproduzir um número maior de artistas em sua programação.

Uma pesquisa da Quartz indicou que a duração média das músicas da Billboard Hot 100, a principal parada musical do mundo, decaiu em mais de 30 segundos desde 2013, justamente o ano que mais cresceu o número de usuários das plataformas de streaming. Hoje, as paradas da norte-americana Billboard Hot 100 e da britânica Official Charts giram em torno dos streamings.

O surgimento da tecnologia do streaming fez despencar o número de downloads ilegais. Uma pesquisa da Alexandria Big Data detectou que 82% dos assinantes do Spotify no Brasil afirmaram ter reduzido o consumo de pirataria por conta do serviço. Com cerca de 50 milhões de músicas em seu repertório, a plataforma já seduziu 61% dos assinantes de músicas no Brasil, segundo outra pesquisa, divulgada em maio, pelos sites Mobile Time e OpinionBox.

Durante o isolamento social, por causa da pandemia do novo coronavírus, o número de usuários de serviços de streaming não parou de crescer. Só nos quatro primeiros meses do ano, o Spotify ganhou 6 milhões de assinantes, totalizando 138 milhões de pagantes. O professor e DJ de música eletrônica Eric Marke conversou com a Factual900 no Twitter para falar desse assunto:

Baixa rentabilidade para os artistas

Embora seja a maior plataforma de streaming do mundo, o Spotify não é a que melhor remunera os artistas. Segundo o site The Trichordist, reconhecido pela defesa de uma internet ética e sustentável em prol dos direitos dos artistas, o Tidal possui a melhor política de remuneração. “Acaba que não é positivo nem para o Spotify nem para os artistas, mas para as gravadoras. São dali que as empresas abocanham uma receita grande, enquanto o Spotify roda no vermelho, disse Vignoli, apontando o prejuízo da plataforma que tem de arcar com os direitos autorais para manter as músicas em seu catálogo.

Ao longo dos últimos anos, os integrantes da boyband sul-coreana BTS receberam menos do que seus empresários e representantes. De acordo com a Bloomberg, o dono da Big Hit Entertainment, Bang Si-Hyuk, tornou-se bilionário por meio da abertura da gravadora na bolsa de valores. Já o grupo, responsável pela alta da empresa, arrecadou cerca de US$ 170 milhões a serem repartidos entre os sete integrantes pelos direitos das canções. A gravadora abocanhou US$ 960 milhões.

No Ocidente, casos como o da banda Radiohead, em 2013, e da Taylor Swift, em 2014, chamaram a atenção da mídia após eles se recusarem a terem suas músicas no Spotify. Motivo: a baixa rentabilidade da plataforma para os artistas.

Com isso, viver da própria música se torna insustentável para artistas independentes, que não possuem um contrato fixo com uma gravadora. Em tempos de isolamento social, o dilema se intensifica com a impossibilidade de realizar shows. Restam as lives patrocinadas, que não servem para todos.

A materialidade do streaming

O streaming pode parecer um meio de consumo ecológico e livre da produção de lixo, diferente dos CDs e vinis. Mas não é bem assim. Para que o serviço exista é necessária uma grande quantidade de energia elétrica, que pode vir de fontes renováveis ou não. Em reportagem para a revista New Yorker, Kyle Devine, professor e pesquisador do Departamento de Musicologia da Universidade de Oslo, apurou que o streaming e o download de música foram responsáveis por gerar cerca de 194 mil toneladas de gases do efeito estufa em 2016. Devine é autor do livro Decomposed: The Political Ecology of Music.

Além disso, o streaming transformou a música numa ferramenta de vigilância e rastreamento, tão poderosa quanto o Google e o Facebook. Samuel Vignoli, apesar de ser crítico do modelo de negócio do Spotify, reconhece sua superioridade tecnológica:A inteligência artificial do Spotify está num nível difícil de chegar. É um excelente produto. Em uma análise técnica, os caras são excelentes”. Em um artigo, o musicologista Eric Drott aponta que “os sites de streaming se transformaram em empresas cujo negócio não se limita à venda de serviços relacionados à música, mas depende cada vez mais da coleta, agregação e troca de dados do usuário”.

O streaming musical veio para ficar?

Devido à facilidade de seu uso, é improvável imaginar que serviços como Spotify e Apple Music saiam de moda pelos próximos anos. Embora o YouTube ainda seja o meio mais popular em qualquer público, o streaming é líder disparado na preferência entre os mais jovens. Foi o que apontou uma pesquisa realizada pelo canal Multishow, que verificou que só as pessoas mais velhas ainda ouvem música pelo rádio.

“Mesmo vendo o número de usuários crescendo, acredito que o Spotify é uma bomba”, disse Vignoli, chamando-o como uma “fornalha de grana”. Para o publicitário, o streaming pode vir a se tornar sustentável para o artista a partir de uma mediação direta com eles, deixando a participação das gravadoras de lado. Em meio à disputa de capital que se tornou a indústria fonográfica, este ainda parece ser um futuro distante para músicos e ouvintes.

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