Finnegan’s

“O sentimento é de revolta”, diz gerente do Finnegan’s

Tradicional bar de São Paulo enfrenta uma série de dificuldades para manter o negócio aberto

Por Adriano Riello Pereira, Guilherme Fernandes Napolis, Pedro Henrique de Mendonça e Souza, Ronaldo Sambinelli Filho e Vinicius Primazzi Monteiro

Guilherme e Adriano se encontraram na porta do Finnegan’s bar às 16h30 de máscara e sem abraços, apesar da saudade entre os amigos. É lá que estava marcada uma entrevista com Evaldo Muller, gerente há quatro anos do tradicional pub irlandês. Foi em um sábado de frio na capital paulista, daqueles dias feios, com 15 graus e garoa, mas nada que o paulistano não esteja acostumado. O tempo na cidade combinou com o clima no bar.
            Afinal, com a pandemia e o medo das pessoas de saírem de casa, as cenas de um lugar lotado, com música ao vivo e aglomerações passou a ser uma vaga lembrança. O Finnegan’s agora precisa conviver com poucos clientes, capacidade reduzida e horário limitado.
            Mesmo com a reabertura do comércio permitida pelo governo estadual, ainda é preciso seguir regras sanitárias que, por bem ou por mal, dificultam a retomada do negócio. O estabelecimento está proibido de abrir por mais de 6 horas por dia, precisa operar com 40% da capacidade total e também não pode servir em ambientes externos. Além do álcool em gel e das máscaras, é claro.
            A entrevista acontece no mezanino do Finnegan’s, todos sentados com distância mínima permitida e gravador sobre a mesa. Guilherme Fernandes Napolis e Adriano Riello Pereira são dois jovens magrelos e de estatura mediana. O gerente Muller é um quarentão, alto, forte e com voz de locutor de rádio. Mas o papo não assusta, ele é tranquilo e bem receptivo, oferece até uma cerveja para entrevistadores. “Melhor não, né?”, responde um deles. De início, o gerente do pub vai direto ao ponto, a situação dramática que bares e restaurantes enfrentam em todo o País.

“Está sendo bem difícil, para ser honesto. No começo demos férias de um mês para todos os funcionários, pagando direitinho. Mas quando foi retornando, aos poucos a gente foi demitindo, porque analisamos os outros países e vimos que a situação ia demorar a passar”

Evaldo Muller, gerente do Finnegan’s

            Demitir funcionários foi uma estratégia adotada por muitos bares na capital paulista. Aproximadamente 57% deles tiveram que dispensar algum funcionário durante a pandemia. As empresas tinham a possibilidade de suspender o contrato de trabalho dos colaboradores, segundo programa do governo federal, mas essa solução não serviria para o Finnegan’s. “Não usamos, porque teríamos que dar, depois da suspensão, dois meses de estabilidade para os funcionários e essa era uma garantia impossível no momento”, admite

Falta de apoio dos governos

            O gerente do pub aproveitou para criticar as ações que os governos estaduais tomaram. Segundo Muller, a quarentena total com o fechamento dos bares e restaurantes prejudicou demais o setor. “No nosso ponto de vista, daria para ter sido totalmente diferente com o seguimento de bares. Fomos duramente penalizados. A gente entende que farmácias, mercado e lojas de materiais ficaram abertos com aglomerações e que os bares conseguiriam fazer distanciamento, uso de álcool em gel e máscara desde o começo”, garante.
            Muller não sustenta que um bar é tão essencial quanto uma farmácia, mas ressalta que a forma como foi realizado o planejamento onerou demais o setor, já que não houve nenhum auxílio dos governos estaduais e municipais. Essa falta de auxílio fez com que o dono, Fábio Baptista, e o próprio Muller tivessem que se reinventar. Tentaram de tudo: delivery, refeições e serviço de porta com horário restringido. Porém, o ponto forte do bar sempre foi o horário noturno, com atrações musicais e festa até a madrugada. Ou seja, na prática nenhuma novidade compensou os dias sem clientela.

A experiência amarga do Finnegan’s

“O sentimento é de revolta e abandono total, né? Como eu disse agora há pouco, dava para ser diferente. Além de não ter sido diferente, a gente ficou jogado. Tipo, ‘se vira com suas contas, se vira com seus funcionários’”, desabafa o gerente do Finnegan’s. “Aconteceu que muitos e muitos bares fecharam definitivamente, e muitos ainda vão fechar porque os efeitos estão aí, você tem agora uma retomada, meio que começar do zero, recontratar e repor estoque. O sentimento é de revolta!”
            O entrevistado da Factual900 havia se soltado e não escondia de estar realmente incomodado com a situação dos bares no Brasil. É, de fato, uma situação assustadora: 20% dos bares já faliram devido à pandemia de covid-19, e a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) prevê que esse número pode chegar a 40%. Pesquisa nacional da Abrasel, de 1º de setembro, indicou que 73% dos estabelecimentos pesquisados já reabriram suas portas, mas para 71% deles o faturamento está abaixo da expectativa.

No podcast da Factual900, falamos sobre os bares da boêmia Vila Madalena:

           “Aqui (no Brasil), o único apoio leve que a gente teve foi do governo federal, que postergou o pagamento do Simples, alguns impostos, não cobram multa após dois meses do pagamento e liberaram verba para financiamentos com taxas de juros. Agora, governos estaduais e municipais, uma catástrofe! Foram quatro meses, e ainda está sendo, de catástrofe. Assim, se não tiver um outro comércio em paralelo para dar uma segurada ou se não tiver as contas equilibradas como sempre tivemos, é fechamento e falência. É revoltante!”, desabafa Muller.
            Por ser um pub irlandês, eles promovem a festa de Saint Patrick’s Day, um feriado muito comemorado na Irlanda, que ocorre no dia 17 de março. Naquele país europeu, a tradição é as pessoas se vestirem de verde e branco e saírem pelas ruas festejando pelos bares da cidade. Em São Paulo, o Finnegan’s prepara um dia especial, que geralmente é o de pico de clientes no ano. Trocando em miúdos, o Dia de São Patrício exige muita preparação e é o mais rentável para o bar.

Álcool gel e QR code no Finnegan’s

Não é preciso fazer as contas para saber que, em 2020, nada disso ocorreu. “Essa pandemia não foi a primeira e não vai ser a última, mas ficou uma experiência muito amarga, tanto como investidor, tanto como empreendedor. Mas acredito que a questão do álcool em gel e do QR code vêm para ficar. Porém, o cenário geral pós pandemia será bem pesado, no qual todos vão ter que se reconstruir. Foram cinco meses sem faturamento, faturando 10% do que faturava antes, é um dinheiro que não volta mais”, lamenta.
            Mas nada disso altera a forma com que o gerente vê o Finnegan’s e muito menos o fez desistir de lutar pelo projeto que possui com o dono do lugar. Para Muller, o que segurou esse momento, tanto para ele quanto para Fábio Baptista, foi o amor que têm pelo pub. Segundo ele, é referência em São Paulo e um dos mais tradicionais bares da cidade, que existe há mais de 30 anos e não poderia fechar de maneira tão triste. “O Finnegan’s é tudo, o Finnegan’s é foda!. Eu te falo que temos muito amor ao bar. Se não fosse por amor, a gente mudaria a chave, mudaria a bandeira.”
            Terminada a entrevista, agradecimentos e despedidas. Cada um para o seu lado, apesar da vontade dos jovens entrevistadores de ficarem para tomar uma cerveja juntos. Quem sabe numa próxima.

Bar Finnegan’s. Endereço: Rua Cristiano Viana, 358. Telefone: (11) 3062-3232. Aberto: 16:00-22:00 Site: www.finnegans.com.br
           
           
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