Na pandemia, brasileiros aumentam o consumo

Com o isolamento social, compras de alimentação e eletroeletrônicos aumentaram. Mas ao mesmo tempo esse novo padrão encontra um consumidor que busca alternativas sustentáveis de consumo

Por Analuá Baptista, Diovanna Monte, Isabella Zacharias, Julia Brito e Larissa Cassano

As vendas e o consumo online, também conhecidas como e-commerce, deslancharam com a pandemia. A resistência do brasileiro em relação a comprar sem ver ou tocar os produtos foi por terra logo no começo do isolamento social. O comércio digital aumentou 47% no primeiro semestre de 2020, sendo essa a maior alta em duas décadas.

“Tem muita gente nova comprando no e-commerce que não comprava e muita gente que não vendia no e-commerce que começou a vender”, explica André Santini, especialista em marketing e comunicação, durante uma live para o Instagram da Factual900. Isleide Arruda Fontenelle, socióloga e professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), acrescenta: “O consumo se tornou mais forte justamente pela ‘busca por distrações e compensação’ durante a pandemia”.

De acordo com uma pesquisa do Think Google, além da alimentação, o consumo de produtos de higiene pessoal e limpeza cresceram 53% e 45%, bem como o uso dos serviços de delivery, que aumentaram 37%. “Como estamos mais dentro de casa, estamos preocupados com o que a família toda vai consumindo”, diz Santini.

O boom do e-commerce está vinculado à reinvenção da sociedade do consumo, ou seja, uma sociedade na qual o consumo é estimulado o tempo todo. De acordo com a professora Isleide, a sociedade está se tornando cada vez mais digital, algorítmica e virtual. Mas esse despertar digital resulta em um momento de maior conscientização em relação ao consumismo, sobretudo entre os mais jovens.

Geração que consome de forma consciente

Letícia Martins (18), estudante de artes visuais pela FMU, conta que é vegetariana há quase dois anos. “Eu assisti a um seminário na escola que me marcou muito sobre essa questão. A quantidade de gasto de água que tem e poluição, todo esse ‘rolê’ de degradação. Comecei a pensar nisso e um tempo depois virei vegetariana”, relata.

Letícia também é consumidora de brechós desde 2018. Ao pesquisar sobre consumo sustentável dentro da moda, descobriu os impactos da indústria têxtil, como o trabalho escravo e a produção por trás de grandes marcas. Isso explica o sucesso dos brechós físicos e online nos últimos anos.

Impulsionado pelos millennials, geração considerada como a mais consciente sobre o consumo, o enjoei é um site que conta com cerca de 7,5 milhões de usuários empenhados em vender e comprar produtos usados. A youtuber Barbara Graves, usuária da plataforma, conta que o desapego é um exercício que deve ser praticado. “É muito bom porque te liberta das coisas materiais e é sustentável, você tá comprando algo que não vai para o lixo”.

O “armário-cápsula” é outro conceito que, apesar de ter surgido nos anos 1970, vem ganhando destaque nas redes sociais. A ideia principal é a escolha de peças essenciais, versáteis e com durabilidade maior para fugir do modelo de consumo do fast fashion, responsável pelo descarte de roupas que contribuem para a emissão de substâncias tóxicas.

A prática é uma ótima alternativa para quem quer controlar o consumo individual. A youtuber Ana Desidério defende que com o minimalismo ela começou a comprar qualidade. Ela conta que, apesar de manter um guarda-roupa compacto, as roupas, na maioria das vezes, eram baratas. “É ruim porque elas estragam muito rápido. Isso não é nada sustentável para o planeta, porque você descarta cada vez mais tecido, e nem para o bolso porque você gasta mais a curto prazo.”

Consumo e posicionamento político

Para a antropóloga Shirley Torquato, a geração mais jovem é menos ligada às tradições e aos padrões de compra consolidados, porque essa geração tem uma facilidade maior em aderir ao “consumo político”. Ou seja, o boicote às empresas que utilizam trabalho escravo ou semi-escravo, que compram sementes transgênicas ou que utilizam fertilizantes não saudáveis.

“Isso está muito associado a um posicionamento político de se identificar, então vai muito além dessa questão da reutilização de roupas. Tem o movimento vegano, que é um movimento político também, consumo sustentável. Então acho que essa época que a gente está vivendo dá abertura para muitas escolhas e novas formas de consumir”, diz Shirley.

Comparado ao crescimento acelerado do e-commerce, a crise ambiental força a sociedade a repensar seus hábitos de consumo com a exploração de recursos naturais, devastação das florestas, esgotamento de recursos renováveis e com a obsolescência programada, na qual o produto é feito para ser descartado e substituído rapidamente.

Essa mudança de comportamento individual, junto de sistemas de produção mais limpos e com a promoção de políticas de reciclagem, reutilização ou reaproveitamento dos produtos não utilizados, pode caminhar para um futuro que ande de mãos dadas com a natureza e com a própria saúde. E esta pandemia serviu para que as pessoas repensassem suas formas de consumir.

“As únicas coisas que eu compro online são filmes (Google Play ou NOW), mas mesmo assim é muito raro. Eu nunca tive o hábito de comprar online, então meus hábitos de consumo estão muito conservadores”, conta a estudante Ana Júlia Stecca Barthmann Andrade (19), estudante de direito. Ela afirma que a última vez que comprou algo foi antes da pandemia, com exceção dos alimentos. “Foi por uma questão de necessidade. Estando mais tempo em casa, estamos comendo mais, então é normal”, encerra.

Quer saber mais sobre o assunto? A Factual900 produziu três episódios sobre consumo na pandemia, para acessar, basta clicar aqui ou no link abaixo:

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