Maternidade e Google: ex-funcionária denuncia “preconceito e hipocrisia”

Em mensagem interna, a funcionária revelou anonimamente práticas discriminatórias e de retaliação que sofreu de diferentes gerentes da companhia

Folheto dizendo “Não alimente o ditador”, durante protestos contra a Google em 2018; Berlim, Alemanha (Fonte: Shutterstock)

No início de agosto, uma funcionária da Google postou na rede interna da companhia um relato sobre a discriminação que sofreu dos seus superiores por engravidar. A carta foi enviada pela autora ao site Motherboard.

A carta pode ser conferida, na íntegra, aqui. O texto está em inglês.

A mulher, por medo de represálias, decidiu não se identificar. O relato viralizou rapidamente na rede interna da empresa e cerca de 10 mil pessoas, de diferentes setores, já visualizaram a mensagem.

O texto, batizado de “I’m not returning to Google after maternity leave, and here is why” (“Eu não voltarei para o Google depois da licença maternidade e este é o motivo”, em tradução livre), possui seis páginas e mais de 2.000 palavras acusando a gerência da companhia de comportamento abusivo e claro preconceito, além de retratar o despreparo das equipes de recursos humanos para solucionar o problema.

O caso

O relato da funcionária anônima diz que o problema na empresa começou há cerca de um ano e meio, depois que ela foi promovida a uma posição em que era gestora de outros cinco funcionários. Dentre eles, uma mulher grávida.

Após a promoção, seu gerente começou a fazer “comentários inapropriados” sobre a gravidez da mulher de sua equipe. O gerente especulou que a mulher era “excessivamente emocional e difícil de trabalhar quando estava grávida” e discutiu “a provável saúde mental relacionada à gravidez”, diz o texto.

Indignada com os comentários e a postura do chefe, a autora da carta, antes de engravidar, procurou o RH da companhia para exigir da Google um posicionamento sobre o caso. Entretanto, esse contato com a área de recursos humanos não obteve solução.

“Quase imediatamente depois de minhas discussões com o RH, os comentários do meu gerente sobre mim mudaram de forma drástica. Eu recebi por meses chats e e-mails raivosos, tive projetos vetados, ele me ignorando em encontros ao vivo. Até humilhações públicas cheguei a vivenciar.”

Após o desgaste com o antigo gerente, a autora relata que foi transferida de área pelo RH, e que o antigo chefe não foi sequer advertido pela postura inadequada e preconceituosa. Depois, ela mesma engravidou – e, então, passou a sofrer na própria pele as discriminações.

Em outro cargo e agora grávida, a ex-funcionária afirma que sua nova gerente lhe disse abertamente que ela não assumiria as funções enquanto estivesse grávida, porque a “gravidez poderia estressar a equipe”. A nova gerente a excluiu de certas comunicações e reuniões, de acordo com o relato

“Eu me sentia completamente sem suporte. Eu estava sozinha. Decidi ser mãe e isso me mandou para um caminho que destruiu minha carreira no Google. A gota d’água foi quando descobri as mentiras que ela contava sobre mim para outros gerentes. “

Há outros casos

O relato publicado pela ex-funcionária não foi apenas para que sua história fosse conhecida, mas também para que esse caso de discriminação servisse como exemplo para que o Google repense suas políticas internas e o tratamento com os funcionários.

Estou compartilhando esta declaração porque espero que ela mostre como o Google lida com discriminação, assédio e retaliação e que isso deve mudar

Os detalhes são importantes para entender a experiência muitas vezes prolongada, isolada e dolorosa das vítimas de discriminação, assédio e retaliação. Além disso, se algo semelhante aconteceu com você, saiba que você não está sozinho

Mesmo passando por uma historia tão difícil, a autora incentiva mulheres a buscarem justiça

Essa não é a primeira vez que o Google é denunciado por práticas abusivas

Em novembro do ano passado, funcionários realizaram uma paralisação mundial, na qual milhares de mulheres protestaram contra acordos de saída, propostos pela própria Google, no valor de milhões de dólares dados a executivos que haviam sido acusados de assédio sexual.

Mulheres protestam em frente ao prédio da Google, no Vale do Silício.
Foto: Getty Images/Bloomberg

Enquanto permaneciam em silêncio absoluto sobre o assédio em si, a companhia pagava milhões para que o caso fosse abafado.

Em janeiro, acionistas alegaram que a empresa tentou encobrir a má conduta do alto escalão de funcionários da empresa e abafar os casos de assédio sexual.

Procurada pela Motherboard para comentar a situação, a empresa se negou a responder perguntas e, por meio de um porta-voz oficial, declarou que a companhia “proíbe retaliação nos ambientes de trabalho” e que todas as suas “políticas são compartilhadas publicamente”.

Para garantir que todas as reclamações sejam ouvidas aqui na Google, nossos funcionários têm à disposição múltiplos canais para reportarem indecentes e problemas. Garantimos o anonimato e investigamos todas as denúncias de retaliação.

Diz o porta-voz da Google à Motherboard.

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