Masculinidade tóxica: como o machismo molda e afeta a vida de homens

Por Giovanna Gonçalves, Júlia Sacetoli, Lethicia Lioi, Manuella Mansani, Maria Luiza Cardone, Pedro Zanatta e Thauany Barbosa 

Homem não chora, não demonstra sentimento, não é frágil e muito menos afeminado. Estas foram algumas das afirmações que o estudante de geografia da UNIFAL-MG, Wender da Silva Vitor, de 21 anos, ouviu durante toda infância, graças ao machismo. Segundo Guilherme Nascimento Valadares, editor-chefe do portal Papo de Homem, essa necessidade de recusar o sentimentalismo em uma tentativa de parecer mais másculo é fatal aos homens. 

O portal alardeia que “a masculinidade tóxica mata diariamente” e mostra que este fato passa muitas despercebido, pois naturalizamos algumas situações cotidianas. Por exemplo, quando um homem quer se mostrar “durão” no trânsito e acaba se envolvendo em brigas – muitas vezes fatais; ou quando se recusa a fazer exames e insiste em executar trabalhos perigosos sem proteção – afinal, proteger-se é “coisa de mulher”. “Os homens estão sendo mortos por uma construção social da imagem masculina, diretamente relacionada à imposição do sistema patriarcal”, afirma Valadares em texto postado no portal.

O vídeo “O que é masculinidade tóxica?” do canal Quebrando Tabu apontou o conceito como uma construção antiga baseada na virilidade do homem, que é confirmada por meio de poder, força, sexualiade e frieza.

O impacto do machismo na vida de homens que demonstram vulnerabilidade

Para  o estudante Wender Vitor, desde o início da criação, os meninos são ensinados a “serem homens” e a como devem exercer este papel social. “Sempre fui um menino delicado e sensível e, por conta disso, sofri muito. Quando não sabemos lidar com a masculinidade, as piadas logo aparecem”, lembra.

No ano de 2018, a expressão “masculinidade tóxica” foi tão comentada e discutida, que o dicionário Oxford cogitou reconhecer o termo como a palavra do ano – mas acabou escolhendo apenas o termo “tóxico”. Alavancado por isso, no início de 2019 a marca Gillette se interessou pelo assunto e lançou uma campanha propondo imagens de como seria o homem em uma sociedade igualitária

Fotograma retirado do comercial da Gillette mostra sete homens de braços cruzados em frente a churrasqueiras. O comercial motivou debate sobre machismo.
Fotograma do comercial da Gillette que motivou um debate sobre masculinidade tóxica.

O objetivo da campanha, segundo o professor e pesquisador de gênero, masculinidade e direitos LGBTQ+, Octavio Salazar, em entrevista ao El País, era “alterar o imaginário imposto pela sociedade sobre a masculinidade”. A representatividade (na mídia) é uma peça-chave para mudar – ainda que lentamente – a mentalidade das pessoas, para assim, ajudar a eliminar o machismo. 

Para Wender, um dos principais fatores que influenciam esse ambiente tóxico sem dúvida é a falta de desconstrução sobre o assunto. Além disso, são necessários mais discussões e ensinamentos que mostrem de fato que vivemos em um país de total diversidade. Dessa forma, comportamentos não devem ser atribuídos a gêneros e nem à sexualidade. “Se você é sensível e não performa masculinidade, é nítido o olhar de repreensão das pessoas a sua volta direcionados a você. De de certa forma já te classificam como gay e também afeminado”, desabafa.

O clássico vira tóxico

Para o estudante, a imposição masculina e o machismo são frutos de uma distorção da masculinidade clássica. Afirma que, com avanços sociais, a mesma se converteu em algo tóxico: “Esse é um dos motivos para o adoecimento  dos  homens. O excesso de masculinidade é a ideia de que preciso ser macho e autossuficiente para se cuidar sozinho”.

Wender conta ainda que até mesmo em uma relação homossexual é fácil perceber essa imposição. Ela é refletida em uma “divisão social” dos papéis:  quem é o “passivo” e quem é  o “ativo”, quem é “a mulher da relação” e quem “gosta de se impor”.

Por estar na universidade, o estudante percebe no dia a dia que a masculinidade é uma ideia distorcida e baseada em preconceitos. Como uma das muitas consequências dessa imposição, ainda há a distinção entre profissões adequadas para homens e para mulheres. “É incabível dizer que a pedagogia é para mulher e arquitetura é para homem. Até quando vamos viver neste tipo de bolha?”, indaga Wender.

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1 comentário em “Masculinidade tóxica: como o machismo molda e afeta a vida de homens”

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