Centralizado na foto, temos o humorista Léo Lins. Segurando um microfone em seu show de stand-up.

Limites da liberdade de expressão no humor

“O humor não tem limites, o limite tá onde ele acontece”. O humorista Léo Lins defende a “bandeira” do humor politicamente incorreto. Pesquisadores alertam que nem tudo é liberdade de expressão e que ofensas não devem ser transformadas em piadas.

O entretenimento é o ato ou efeito de distrair, de divertir. Sendo a diversão um efeito daquilo que causa alegria e excitação às pessoas, a diversão é relativa para cada um, e há casos nos quais as pessoas se divertem às custas das outras. Até que ponto o entretenimento pode chegar e como ele tem moldado a sociedade?

Vale tudo pelo riso? A Factual900 ajuda você a entender o que nos traz a essa discussão, como o espetáculo humorístico evoluiu ao longo dos últimos anos e os limites da liberdade de expressão no humor.

O stand-up surgiu por volta da década de 50 e 60 nos Estados Unidos. Naquela época, os clubes noturnos removeram os números musicais e adotaram o modelo de “clubes de comédia”. O estilo de apresentação ainda é forte nos dias atuais; e no Brasil, grandes humoristas protagonizam seus próprios shows e, por conta dos temas polêmicos abordados por eles, o stand-up inicia um debate em relação ao humor que divide opiniões: qual é o limite que esses humoristas não podem ultrapassar? 

Como a lei interfere no humor?

Olhando essa questão com um ponto de vista mais técnico, o Artigo 19° da constituição brasileira determina que, “todo indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão”. Tal direito implica que nenhum sujeito pode ser inquietado pelas suas opiniões, no entanto, para tamanha liberdade é necessário um limite, sendo a própria constituição o limitador.

Tendo em vista o Artigo 5°, inciso X, temos aquilo que melhor desempenha essa função limitadora, pelo fato de reforçar que são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas. 

Muitos humoristas passaram por momentos turbulentos com o público justamente por terem ultrapassado essa barreira. Um dos casos mais famosos disso foi o dos inúmeros processos contra Rafinha Bastos, por conta de polêmicas em seus shows e nas redes sociais. Atualmente, Rafinha afirma se arrepender de alguns dos entraves que teve no passado e reformulou a sua forma de trabalhar com o entretenimento, no Youtube comanda o podcast “Mais que 8 Minutos” e raramente faz participações em shows de humor ou improviso.

Esse foi um dos tweets feito pelo humorista que teve uma repercussão negativa. (Reprodução / Twitter: Rafinha Bastos).

O limites da liberdade de expressão no humor

Nadja Vladi Gumes, Coordenadora do GP de música e entretenimento do Intercom conversou com a Factual900 sobre os limites entre o entretenimento e o jornalismo.

Léo Lins, 39, que acumula mais de um milhão de seguidores no Instagram e é considerado um dos humoristas mais famosos do Brasil. Seu dia a dia inclui shows de stand-up – com cerca de 1000 fãs por noite -, gravações do programa The Noite com Danilo Gentili, produção de roteiros e edição de conteúdo, ou seja, das próprias piadas.

Em entrevista com a Factual 900, ao se apresentar, relembra uma de suas fotos mais famosas, em que veste uma camiseta com o escrito “100% humor negro”, vangloriando-se por ser um dos únicos a defender essa “bandeira” – termo que utilizou na entrevista e é considerado problemático por conotações racistas, o Instituto Fazendo História recomenda o uso do termo “humor ácido”.

(Foto: Reprodução / Press MF)

Envolvido em diversos escândalos nos últimos anos, Léo Lins assume que não tem limites quando o assunto é humor. Segundo ele, se sua piada faz alguém rir – por mais que seja a minoria -, o objetivo foi alcançado. Independentemente de ofender alguém, carregar opiniões preconceituosas, racistas e gordofóbicas, Lins afirma que procura apenas provocar o riso no espectador: “O humor não tem limites, o limite tá onde ele acontece, isso pra mim resume tudo, a partir do momento que começarem a entender isso vai ficar mais fácil”.

O humorista explica que sua intenção não é ofender alguém: “Óbvio que não vou sair fazendo piada com pessoas na rua, eu não vou ver um cadeirante e fazer piada com ele… eu não vou ver um anão no ponto de ônibus e fazer piada com ele. Agora se eu tô em um palco de stand-up, convido as pessoas para subir e fazer uma fritada… aí vai lá um cadeirante e um anão, eu vou deixar de fazer piadas com eles? Não, aqui o ambiente é para isso”. Ele relembra que quando iniciou a carreira, em 2005, o público era mais tolerante com seu humor ácido – ou negro, como ele mesmo intitula.

Imagem do humorista retirada da entrevista exclusiva com a Factual 900

Léo Lins conta que não se arrepende de nenhuma piada que faz. Segundo o humorista, o riso sempre vale a pena. Ele ainda explica que não tem o objetivo de agradar todo mundo, e assume que seu público nos shows de stand-up é bastante nichado: “Os assentos nos meus stand ups são ocupados praticamente apenas por homens, entre 20 e 45 anos… eu olhei a fila de um show com piadas mais pesadas e comentei com o Murilo (outro humorista) que era composta de 95% homens, uma ou outra mulher que era amiga ou ia acompanhar o marido ou namorado”. 

O pesquisador Eloy Vieira fala das relações entre o entretenimento e a informação.

O outro lado da moeda: o público

Lins conta que já ouviu comentários surpreendentes do público feminino e de pessoas que o julgavam antes de assistirem o stand up. “Muitos já vieram me falar que não gostavam de mim, e que depois de conhecerem meu show, até deram risada e se divertiram. Tem um relato desse fim de semana, a namorada de um fã meu comentou antes de um show “putz… aff… logo o show dele?” e quando acabou o show, falou que amou, achou sensacional”.

Lins também comentou os processos e xingamentos que ele e outros humoristas recebem por conta das piadas “ácidas”. Segundo o comediante, sempre que alguém fala com ele educadamente, pessoalmente ou por mensagem, ele responde da mesma forma. Quem fala com xingamentos ou grosseria, ele responde fazendo piada com essas pessoas.

Essa é a maneira que encontrou de lidar com quem o incomoda, seja no meio de um show ou nas redes sociais. Segundo Lins, “Se quiser vir com processo, então vamos para justiça, e o que eu vou fazer com isso? Mais piadas! O seu processo me rendeu mais piadas!”. 

Lins acredita que não devem existir limites da liberdade de expressão no humor. Ele explica que muitos processos que recebe não tem justificativa, defende uma atualização na legislação e argumenta que vários processos contra os humoristas na realidade são subjetivos, e “vão da cabeça do juiz”. Ele explica que algumas pessoas não consideram a piada ofensiva, ao contrário da vítima, que leva a decisão final para a corte. 

Quando um comediante acredita que suas piadas não são preconceituosas e não ofendem alguém, mas vítimas se sentem atingidas e buscam lutar por seus direitos, é preciso pensar sobre os limites e contornos da liberdade de expressão, dos direitos humanos e da justiça.  

Por: Breno de Gouveia, Gabriel Alvarado, João Nakamura, Lívia Ulian, Luan Foresti e Thiago Ribeiro.

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