A (não) participação do jovem na política

O porquê da ausência do jovem na política e antídotos

Por: Beatriz Foiadelli, Eduardo Reis, Gabrielle Fernandes, Letícia Félix, Luiza Palermo e Maria de Toledo

Dois em cada dez jovens de 16 e 17 anos participaram das eleições presidenciais de 2018. Para eles, o voto não é obrigatório. Dois anos antes, na disputa municipal, foram três em cada dez votantes nessa faixa etária. Qual é o motivo dessa queda? Descontentamento ou negação da política? Menor interesse pela campanha presidencial? Essas perguntas, de difíceis respostas, são um sintoma de uma questão maior que pode ser desvendada neste ano, na inédita campanha eleitoral feita quase toda remotamente. A tabela abaixo demonstra o volume do jovem na política nas últimas eleições:

A internet e os meios de comunicação em massa são grandes aliados para chamar a atenção da juventude sobre a importância da participação política. Se os jovens estão conectados o tempo todo, sobretudo nas redes sociais, e a campanha eleitoral se concentrar nesse ambiente digital, então é de se esperar uma maior participação, certo? As plataformas repercutem rapidamente as notícias e espalham as propostas dos candidatos com uma comunicação mais direta, baseando-se inclusive no fenômeno mais recente das lives, que aumentou exponencialmente durante a quarentena.

Todos os dias o Brasil é bombardeado com notícias de escândalos, corrupções e burocracias. Isso tem afastado o jovem e qualquer eleitor que tenha um mínimo de boa vontade para com a política. Uma consequência é o número de abstenções cada vez maior nas eleições (20,3% do eleitorado em 2018 e 19,2% em 2016). “Precisamos mudar essa cultura de pensamento político, e isso passa pela questão da reforma educacional, da forma como se debate os temas em sala de aula”, adianta o presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Iago Montalvão, em entrevista exclusiva à Factual900. Ele e sua entidade estudantil defendem uma radical modificação no sistema de comunicação brasileiro como forma de melhorar a qualidade da democracia. “Temos uma comunicação profundamente concentrada em poucas mãos e uma internet que espalha muitas informações falsas.”

Em 2019, grandes mobilizações de rua como as do tsunami da educação e da defesa do Enem trouxeram os estudantes de volta para a política na visão do presidente da UNE. “Esse interesse fará com que os jovens se aproximem dessa eleição, até por entender que já é um preparatório para 2022.”

Mas para o consultor político Álvaro Maimoni, ouvido pela Folha de S.Paulo, essa aproximação já vinha se intensificando desde o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. Para ele, os jovens de 16 anos compraram a ideia de querer acabar com a corrupção.

Ataíde Roberto, de 32 anos, representante da bancada Resista do Psol, um partido com reconhecida adesão juvenil, lembra que não basta aguçar o interesse dos jovens para participar das eleições. “Eles se sentem mais atraídos pela política quando suas ideias e suas vozes são ouvidas por partidos e movimentos de renovação, o que abre espaço para o debate em relação ao incentivo à participação política”, aconselha.

Ataíde Roberto no OAB diversidade discutindo a participação do jovem na política.
Ataíde Roberto (agachado, camisa xadrez à direita) numa convenção da OAB Diversidade discutindo participação jovem na política / Reprodução

Mateus Barbosa, 19 anos, membro do Universidade Vai às Urnas, um projeto que busca criar uma consciência política no ambiente universitário, afirma que os debates são uma forma eficaz de enfrentar essa questão da não-participação do jovem na política: “Uma forma muito legal de saber em quem você vai votar é assistir a debates. E não só para conhecer o candidato em si, mas as ideologias que cada um defende, quais as pautas que eles atuam, o que eles sabem e não sabem. Porque é muito mais importante entender no que acredita para depois escolher um candidato que defenda isso”, afirmou à Factual900.

Como inserir o jovem na política

“Investimento na educação! Não precisamos de uma escola de políticos, mas mostrar que a participação é importante e que os grêmios estudantis são um exemplo da contribuição do jovem no meio social”, acrescenta Ataíde. Iago Montalvão, da UNE, complementa: “O movimento estudantil cumpre um papel além da defesa por nossos direitos. Ele ajuda na compreensão do aluno como ser coletivo e busca construir mudanças, dando experiência na luta política”.

E o que pensam os jovens eleitores? A reportagem da Factual900 promoveu uma mesa-redonda com um grupo de eleitores de primeiro voto. Vivian Ramos, 18 anos, quer estudar psicologia ou medicina e fazia o cursinho da Poli, mas teve de parar por conta da pandemia. Para ela, os atuais governantes e políticos com ou sem cargos recorrem aos jovens na busca pelo voto, mas não se esforçam para que eles realmente ingressem nesse campo. Porém, diz Vivian, a resposta a isso pode ser dada pelos próprios jovens: “O Brasil e muitos países da América Latina com uma situação parecida com a nossa têm uma aversão à política, que é interessante para a classe dominante. O brasileiro tem de começar a estudar e gostar de política não por obrigação, mas pela necessidade de saber o seu futuro”, ensina ela.

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