Jornalistas e Influenciadores: Há espaço para todos na rede?

Qual o impacto que os influenciadores digitais tiveram para o jornalismo? Quem realmente está apto para transmitir informações na internet? Tema polêmico causa debate entre comunicadores e usuários

Por Bárbara Vetos, Manuela Montez, Maria Cunha, Maria Luiza Jansen, Marina Galiotte e Maria Fernanda Maciel

A ascensão das mídias digitais, especialmente nos últimos 20 anos, transformou completamente o universo da comunicação. O papel de transmissor de informação, anteriormente ocupado por uma quantidade limitada de veículos de comunicação e jornalistas, hoje pode ser desempenhado por indivíduos e organizações, que produzem cada vez mais informação, abrindo um novo mercado para os ditos influenciadores digitais. 

Com esta possibilidade aberta, surge um novo mercado e, junto com ele, uma nova profissão: a de produtor de conteúdo para a internet. Novos modos de relação com a audiência se estabelecem e proporcionam o surgimento de influenciadores digitais: pessoas que postam conteúdos na rede e conquistam seguidores. Mas esses novos profissionais são qualificados para o mercado da Comunicação? Nesse modelo, a produção de conteúdo é tratada com responsabilidade e ética? 

Há quem pense que, para integrar uma extremidade comunicativa, direcionada a um grande número de pessoas, é fundamental possuir uma formação na área de Comunicação. Afinal, lidar com a informação e as consequências desta é uma enorme responsabilidade, principalmente quando se tem um público numeroso do outro lado da tela. Em contrapartida, os influenciadores digitais são considerados necessários no contexto da democratização da informação e da dissolução de monopólios comunicacionais. 

Assim, surge um novo debate: os influenciadores digitais são qualificados para disseminar informações? É necessário possuir uma formação específica para produzir conteúdo na internet? Para contribuir com essa discussão de extrema relevância para o futuro da Comunicação, conversamos com três profissionais: Rafa Brites, escritora, influenciadora de jornadas e ex-repórter de variedades do programa Mais Você, e os comunicadores Allan Bussons e Bárbara Cássia, responsáveis pela elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso “Vida Nada Fácil”, que objetivava desmistificar a vida de quem é influencer digital. 

Democratização e qualidade da informação

A influenciadora Rafa Brites, de 34 anos, conversou com a equipe da Factual 900 sobre o papel de influenciadores e de jornalistas na disseminação de informação atualmente. “Eu acho que, por um lado, as redes sociais potencializam o jornalismo, porque as pessoas têm mais acesso e a informação é democratizada. Por outro, a gente tem também todos os veículos que não são seguros e disseminam as fake news”. 

A escritora ainda discutiu o papel polarizador que as redes sociais e seus algoritmos, “que te levam cada vez mais para pólos, o que faz com que o seu pensamento crítico seja limitado”, têm tomado na vida das pessoas, e como a informação de pouca qualidade tem um forte impacto no problema. 

Podcast da Factual 900 com pesquisadora e jornalista Isaaf Karkawi

Jornalistas e publicidade

Outra reflexão proposta pela influenciadora Rafa Brites é a prática de publicidade por parte de jornalistas famosos, questão controversa que é vetada em muitos dos grandes veículos de mídia. 

“Você nunca viu o William Bonner fazendo uma propaganda. E isso é muito sério. Como você dá uma notícia sobre os casos de corrupção dentro da JBS, por exemplo, se no intervalo comercial do seu jornal, você acabou de fazer uma propaganda para a Friboi? Então, é muito controverso.”

Rafa Brites também explicou como essa questão está sendo abordada nas redes sociais, traçando uma comparação com os jornais tradicionais. “Dentro das mídias digitais, isso se confunde muito. Para quem tem o seu portal como uma fonte de jornalismo, o viés que as pessoas tomam é muito claro e muito perigoso. Lógico, é impossível: nenhum meio de comunicação é imparcial. Cada um vai ter sempre o seu viés, são empresas privadas. Mas os veículos tradicionais de mídia têm um compromisso muito maior”. 

Jornalistas e influenciadores: o trabalho de cada um

Devido ao fato de ser influenciadora e já ter atuado como repórter de variedades na Rede Globo, Rafa sente que, em uma concepção jornalística, “as redes sociais são muito mais como colunas de opinião dentro do jornalismo do que informação. E a gente tem que cuidar para não confundir informação com opinião”.

Em alguns universos específicos, esta diferença precisa ser olhada com cuidado, para diferenciar informação noticiosa e informação opinativa. “Em setores como política, por exemplo, é muito importante ter técnica e diploma. Então, eu acho que as redes sociais abriram um novo campo de entrevistas, mas é sempre no lado da opinião e não da informação real”. 

“Vida Nada Fácil”

Movidos pelo desejo de compreender o universo influencer, os jornalistas Allan Bussons e Bárbara Cássia produziram a série de cinco episódios para o Youtube, que buscou elucidar ao público o que é um influenciador e o que essa nova profissão desempenharia no mundo digital. “Era uma coisa que, como ainda estava crescendo, muita gente torcia o nariz. Havia uma desaprovação grande, inclusive, por parte dos setores de comunicação e de outros jornalistas”, afirmou Allan.

Sobre a motivação do projeto, eles contam que “as pessoas acham que é muito fácil, que é só ligar a câmera e começar a falar (…) Tem toda uma produção de conteúdo por trás, requer um trabalho pesado. Queríamos mostrar também o porquê é interessante trabalhar com esses influenciadores e porque vale a pena pagar por isso”. De acordo com Allan, “virar influenciador é um trabalho duro: exige tempo, dinheiro, criatividade, organização, além da questão dos algoritmos. É muito desafiador esse cenário”. 

selective focus photography of people sitting on chairs while writing on notebooks

Jornalista ou influenciador?

A série discute a diferença entre essas profissões no mundo digital e a maneira como elas se confundem nesse novo universo. “É muito difícil diferenciar as duas coisas. Se falarmos do Hugo Gloss, por exemplo, ficaremos em dúvida. Ele é um influenciador, mas tem um portal de notícias. Não deixa de ser um trabalho jornalístico, na minha opinião. Mas ele é também um influencer digital”, refletiu Allan, apontando a dificuldade em definir e classificar os profissionais em suas respectivas áreas. 

Atualmente, vários jornalistas possuem contas nas redes sociais. Há uma relação de proximidade. Enquanto antigamente a audiência só podia ver aqueles rostos conhecidos durante os grandes jornais, com as redes sociais e o fortalecimento das interações virtuais, as pessoas sentem-se parte do dia a dia e dos bastidores da vida de quem está do outro lado da tela. “Quando surgiram as redes sociais, entrou em cena esse novo perfil dos influenciadores digitais, que são pessoas nativas da internet e que não tinham fama antes – conquistaram o público delas ali –, diferentemente das celebridades e dos jornalistas, por exemplo, que vem de uma fama do jornal, da TV, ou de uma outra plataforma. Acho que essa é a grande diferença”, afirma Bárbara.

Entretanto, não basta estar conectado para ser considerado um influenciador digital. Os jornalistas, por exemplo, alcançam um número elevado de seguidores por serem pessoas públicas, mas não por exercerem funções que os influenciadores digitais estão acostumados para conquistar o público, gerar engajamento e conteúdo. Para Allan, “um correspondente internacional ou um repórter famoso que tem muitos seguidores é, em primeiro lugar, um jornalista e ele só possui muitas pessoas que o seguem porque elas apreciam seu trabalho fora das redes. Enquanto o jornal é a “marca”, no mundo dos influenciadores eles são as suas próprias marcas”.

A produção de conteúdo 

Com a ascensão das tecnologias e das redes sociais, o processo comunicacional se transformou radicalmente. Apesar de os monopólios ainda existirem e controlarem esse setor, para Bárbara, “as pessoas ganharam voz, o formato da comunicação mudou: não é mais aquela coisa “broadcast” (um único emissor para uma massa de pessoas).” Além disso, a jornalista entende que “o mais importante disso é a gente conseguir olhar para esse cenário dos novos influenciadores e das novas vozes e entender o fenômeno, além de compreender como a nossa profissão pode aprender com isso”. 

Ainda explorando a questão das distinções entre jornalistas e influenciadores, alguns pontos são levantados a respeito das temáticas que cada um escolhe abordar e criar. Afinal, tudo é conteúdo. “A diferença está, essencialmente, na origem e na motivação. O influenciador não tem, necessariamente, o compromisso informativo e com o interesse público. É um setor mais voltado para o entretenimento. Apesar de que muitos influenciadores falam sobre comportamento, racismo, lgbtfobia. Mas eu acho que, por eles terem essa ligação muito mais pessoal com o tema, de compartilhar experiência e engajar, acaba sendo a principal diferença com o jornalismo, em que não se pode ter uma relação tão visceral e emotiva. Tem a questão da imparcialidade e protocolos de ética”, compara Allan.

Allan também se pergunta quanto tudo isso vai custar e afirma que, em algum momento, a “conta” vai chegar. “Nós estamos vivendo em um ambiente muito polarizado, inclusive politicamente, e muito disso sofre a influência das redes sociais. Elas têm esse poder de ‘nichar’, de unir, cada vez mais, em grupos. Se um conteúdo te atinge diretamente, é importante lembrar que isso só acontece por causa do algoritmo. Esse esquema existe e é uma coisa totalmente artificial, que foi criada em busca de um lucro maior pelas grandes empresas”.

Atenta a esta suposta conta que pode chegar um dia, Rafa Brites defende que, independente da carreira que se pretende seguir, para produzir e difundir informação, é preciso ter ética. “Para a informação real, crua, é muito importante ter um diploma sim. Porque você pode fazer um estrago muito grande. No jornalismo, passar uma informação errada pode causar uma guerra”, afirma.

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