Na imagem: mulher sudanesa em frente a um banner que anuncia um workshop sobre exploração sexual e abuso

Onde a mídia não chega: a representação, formação de estereótipos e desinformação

A indústria cultural-midiática e seu papel como mãe de estereótipos sobre culturas não-ocidentais

O mundo ocidental sempre teve que lidar com um enorme obstáculo: a dificuldade de compreender e respeitar culturas diferentes. O ápice desse problema já está distante, no passado, nos tempos das cruzadas e do colonialismo, mas os danos e a perpetuação dessa dificuldade se mantêm e se estendem para os dias atuais mediante a falha representação midiática. Seja por meio de conteúdos de entretenimento ou através de coberturas jornalísticas deficientes, muitas áreas do globo são mal interpretadas por nós, ocidentais, o que abre espaço para um relacionamento muito pobre e até preconceituoso com relação às culturas mais distantes, aumentando essa lacuna cultural entre nações e povos.

As diversas identidades culturais existentes, hoje, no imaginário social — internacional e brasileiro — são formadas com a ajuda de certos agentes. Como já dito, a forma como a mídia e o que se produz dentro dela representam determinados aspectos e povos pode ser considerada um desses agentes. Outro exemplo deles são os chamados filmes hollywoodianos, que possuem repercussão mundial e por vezes constroem e fortalecem estereótipos — como o filme Alladin: sua primeira versão, lançada em 1992, tinha a música introdutória ao universo árabe constituída por trechos como “Vão cortar sua orelha para mostrar para você como é bárbaro o nosso lar”.

A dicotomia da mídia

Quando uma cultura não é representada ou tem representação parcial na mídia, é aberto um campo de possibilidades para a desinformação. Essa área nebulosa, sem características definidas, que resulta da representatividade insuficiente, pode ser chamada de zona cinzenta (tradução do conceito em inglês de gray area). Na mídia ocidental, encontramos inúmeras zonas cinzentas, como a generalização da cultura árabe.

Contudo, um questionamento que surge quando falamos em representação midiática é o da possibilidade de retratar a realidade exatamente como ela é. A Teoria do Espelho define que o jornalismo deve representar fielmente a realidade. Interpretações menos radicais dessa teoria propõem um jornalismo que chegue ao mais próximo possível da realidade, pois consideram impossível a reprodução plena. O jornalista Rodrigo Ratier considera que isso deve ser feito por meio da busca de multiplicidade de fontes, apuração precisa e contextualização, que são essenciais para se obter o relato mais completo possível. Dessa forma, por mais que não se consiga retratar as culturas em sua totalidade, é preciso que o jornalismo siga esses passos para evitar a criação e o fortalecimento de estereótipos que dão espaço para a desinformação.

Mesmo que, em tese, esse pensamento seja ideal, ele não condiz com a realidade jornalística. De acordo com o intelectual de teoria jornalística Walter Lippmann, a mídia cria e impõe a estereotipação do exótico. Esse exótico seria, por definição, aquilo que está longe, que o público não tem acesso por meio de sua experiência imediata, necessitando, dessa forma, do auxílio da mídia para a sua compreensão e entendimento do assunto. Para Ratier, a mídia trata desses assuntos por meio de pré-julgamentos, que são categorias muito limitadas para análises mais aprofundadas das culturas abordadas. 

Ele também afirma que a mídia está acostumada a trabalhar com dicotomias: as narrativas têm sempre heróis e vilões, certos e errados. No entanto, além desse maniqueísmo “preto no branco” não condizer com a realidade, ele é responsável por uma visão simplista do mundo, em que as culturas são julgadas com base em dados superficiais e, muitas vezes, distorcidos. Outra forma como a mídia aborda essas representações é por meio de tratamentos sintetizados, que deixam questões em aberto por falta de explicações concretas, criando uma visão turva e cinzenta da realidade. Principalmente para as culturas orientais, as consequências dessas representações são muito graves, pois, como apontou Ratier, a única forma que temos de contato com esse mundo é através das representações midiáticas, ou seja, ficamos reféns da mídia. 

A interferência da indústria cultural-midiática no imaginário coletivo

A indústria cultural e da informação ajudam a construir, juntas, o imaginário da população sobre culturas consideradas exóticas, deformando e criando significados que não correspondem à verdade ou à totalidade dessa verdade. Assim, dependendo do modo que essas culturas são representadas, um espaço para a estereotipação e propagação de preconceitos é aberto, criando uma hegemonia ideológica cultural. Entretanto, mesmo que a indústria midiática tenha um papel forte e inegável nessa propagação, ela não é a única. A indústria cultural como um todo, como séries, filmes e toda a dominação hollywoodiana, também contribuem para a manutenção e perpetuação desses estereótipos na sociedade.

Segundo Rodrigo Ratier, essas culturas são carregadas de história e sentidos, e essa indústria cultural, não só o jornalismo, ajudam a manter certas representações por meio dessas informações “fechadas” e incertas: “É uma situação que deriva de um conjunto de mídias, o jornalismo é uma peça nessa engrenagem da construção de uma hegemonia cultural.”

A questão árabe 

Segundo Flavia Paniz, doutora em sociologia e membro do Grupo de Trabalho de Oriente Médio e Mundo Muçulmano, a ideia do Oriente Médio como sendo um lugar desértico, violento e extremamente religioso “advém de uma produção conformada por cinema, literatura e imagens”. Isso se intensifica pelo fato de todas essas produções serem feitas, majoritariamente, por pessoas do próprio Ocidente e não existir uma grade de estudos — em especial, nas escolas — direcionada ao aprofundamento desse lado do globo. Com a falta de narrativas especializadas que representam suas próprias etnias ao pesquisá-las, o discurso se torna ocidentalizado e eurocêntrico — já que a produção de conhecimento é feita, em sua maioria, por pessoas brancas da elite.

A própria ideia de Oriente foi produzida. Edward Said, intelectual palestino e ativista sobre a causa palestina, cunhou o conceito “orientalismo” para caracterizar essa formação de poder através da dominação pelo conhecimento. Assim, forma-se uma ideia genérica sobre o que hoje é chamado de Oriente, mas, na verdade, é algo que se mostra uma tática de homogeneização de pessoas, religiosidades e etnias que, segundo a socióloga, possuem um objetivo muito específico: “A maneira como construímos discursos sobre o Oriente e o Ocidente estabelecem uma relação de poder dentro desses espaços. O Oriente existe como discurso de poder que o Ocidente produziu sobre ele e o conhecimento do Ocidente se dá sob essa forma de poder porque aí se consegue justificar ocupação, invasão e uma série de coisas”. 

Essa demanda por liberdade que os ocidentais acreditam ser urgente dentro desses povos “não civilizados” e que é perpetuada ao pensarem sobre a necessidade de intervenções estrangeiras nesses locais também é uma manobra política, principalmente em se tratando das mulheres e crianças que precisam de auxílio. Muitos dos relatos que cerceiam a existência das primeiras são de opressão e hiperssexualização: na mesma medida em que elas são subjugadas pelo uso dos véus que cobrem todo o corpo também são utilizadas como forma de atração para o turismo sexual a partir do imaginário da dança do ventre e afins. Isso, novamente, também é fortalecido dentro do contexto imagético, como as diversas novelas do Brasil que retratam essas etnias com esse pensamento direcionado (“Salve Jorge”, “Caminho das Índias” e “O Clone” são exemplos claros disso). 

Segundo Paniz, isso deriva-se da “ideia de salvacionismo das mulheres do Oriente pela intelectualidade liberal ocidental, que cria esses artefatos dicotômicos”, como a burca, visto que ela “não é mandatória, salvo em contextos e lugares específicos”. No entanto, os discursos sobre o domínio que elas exercem são muito mais usuais e largamente divulgados do que o fato de serem uma escolha das mulheres usá-las ou não.

Na imagem: mulher iemenita com o rosto coberto por véu olha para câmera diretamente
Imagem: United Nations Photo

É possível, inclusive, traçar uma linha comparativa quando o tema se volta para trajes requeridos e usados em sociedade. Na família real britânica, por exemplo, as mulheres não podem mostrar os ombros, usar calças ou meias que não sejam da tonalidade de suas peles, as saias só podem ser abaixo dos joelhos e elas precisam usar chapéus enormes nos eventos com grande público para não mostrar os cabelos. Mesmo com esses muitos rigores, é raro e quase impossível ouvir pessoas mostrando preocupação com a “opressão” sofrida por essas mulheres ocidentais. Assim como existem muitos outros códigos sociais e institucionais sobre vestimentas — dentro dos fóruns, por exemplo, a regra da saia abaixo dos joelhos também se aplica — “pegar um código específico e aplicar toda uma geopolítica para uma região que envolve mais de quarenta milhões de pessoas é muito genérico e falso”, Paniz complementa.  

Esse fenômeno também se aplica a outras instâncias das dinâmicas sociais que aproximam as realidades dos dois lados do planeta: muito do que existe nas leis dos países ditos democráticos não se aplicam a uma grande parte da população. A socióloga exemplifica: “Fala-se muito agora que o Talibã proibiu crianças do sexo feminino de estudarem, mas, na medida em que você não tem escola nas comunidades rurais e transporte que chega até essas comunidades no Brasil, você também está proibindo, de uma certa maneira, o estudo por parte dessas crianças. Então entre o direito e a prática existe um abismo a ser levado em consideração que é importante se pensar”.

Outro ponto é o forte fundamentalismo religioso que é atribuído ao Oriente Médio em geral, em razão dos períodos de dominação do Talibã. No entanto, essa mesma característica não é amplamente estudada como um acontecimento dentro de lugares do Ocidente, embora nunca tenha havido um momento na história em que qualquer Estado-Nação tenha sido laico por completo: sempre houve negociação entre as instituições religiosas e fato é que é o cristianismo — não o islamismo — que possui um país inteiro em seu domínio: o Vaticano. 

A socióloga acrescenta que “ao associar um lugar a uma extrema religiosidade, precisa-se pensar que o exercício da liberdade religiosa é um direito de todas as pessoa e essa fé vai variar de pessoa para pessoa, não tem como homogeneizar essas pessoas através da religião ou da violência, assim como você tem as instituições religiosas com outras práticas. São coisas distintas”.

Dois tipos de mídia, dois tipos de crítica

Então pode-se analisar que a maneira como se produz conhecimento e de qual lugar ele é produzido e consumido são determinantes para a forma como se enxerga as etnias estudadas. Isso, claro, varia de acordo com as áreas que estão sendo investigadas, afinal as heranças colonizadoras se mantêm presentes em diversos âmbitos da lógica mundial. Paniz finaliza dizendo que a “dominação do conhecimento e da imagem são exercícios de poder e não temos esse fenômeno somente com relação ao Oriente Médio. Também temos aqui nossos próprios ‘orientes’ com essa dicotomia entre civilização e barbárie” que, acrescenta posteriormente, já fora (e ainda é) utilizada para justificar pseudo ciências, como o determinismo biológico.

Há décadas (e principalmente após a Guerra Fria), a democracia liberal dos países ocidentais vêm sendo usada como fator de legitimação de seus ideais encobertos nos conflitos e destruição em detrimento das culturas não-ocidentais. Os filmes, séries e mídias em geral já produzidas pelo Ocidente — ou, ainda mais especificamente, pelos Estados Unidos, através das famosas produções hollywoodianas — manifestam isso de uma maneira que nem sempre é perceptível a olho nu. E, além disso, utilizam de discursos distorcidos que invertem a situação a seu favor. Um filme estadunidense que exalta a cultura nacional como sendo superior e ubíqua é vendido e quase não é criticado quanto a isso. Em contrapartida, quando uma representação nacionalista parte de uma produção oriental — e isso se perpetua desde a época da União Soviética — é interpretado como propaganda. Dois tipos de mídia, dois tipos de crítica. O primeiro, como validação da globalização de um ideal político-econômico; o segundo, em formato de denúncia e resistência ao imperialismo. E por quê é somente o segundo que é considerado mal-intencionado?

Leia mais: dentro do ocidente, mas não tão ocidentais

A ideia do ocidental está sempre ligada a pessoas brancas (normalmente homens) e de classe média alta, como se, quanto mais ariano alguém parecer, mais ocidental e “digna” ela é. Dentro das próprias Américas, embora geograficamente próximas dos Estados Unidos, um dos bastiões do ocidente, há grupos que simplesmente não parecem serem vistos como “próximos”, na verdade parecem exóticos. Um dos grupos que mais sofre com isso são as mulheres latinas.

Estereotipadas, sexualizadas, exploradas e usadas de diversas formas como inferiores e apenas objetos de satisfação de um fetiche eurocêntrico, essas mulheres tem a sua representação quase nula e, quando ela acontece, ainda tende a ser prejudicial. Para acompanhar melhor essa história, acompanhe o nossos posts nas redes sociais:

Por: Bruno Penteado, Isadora Costa, Julia Bonin, Lara Sanchez, Lorena Lindenberg, Maria Clara Villela e Maria Edhuarda Castro

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