Cartuns de Gilberto Maringoni

Como os cartuns retratam o tempo presente

O cartunista e jornalista Gilberto Maringoni explica como os desenhos humorísticos entram para a História

Por Isabela Caperuto, Júlia Adefonso, Júlia Lopes e Julia Neves

As mídias atuam como formadoras da opinião pública e os cartuns não poderiam ficar de fora. Por meio dos desenhos humorísticos, a sociedade pode se questionar e até rever seus comportamentos ao longo do tempo. A linguagem não-verbal é tão poderosa que ela, muitas vezes, leva a uma reflexão coletiva de atitudes e ações que cada um adota no dia-a-dia.  “Sim, existe essa especificidade do desenho de humor como objeto de disputa de opinião pública, mas dentro de uma gama de ferramentas enorme”, afirma o jornalista, cartunista e professor universitário Gilberto Maringoni. Não é à toa que os cartuns ocupam há tempos um espaço cativo na imprensa.

A palavra “cartum” significa “desenho” ou “esboço”. Com sua veia cômica, e quase sempre crítica, o cartum acaba se tornando um fiel retrato da sociedade contemporânea. Acompanhando o desenvolvimento da imprensa, o desenho humorístico já foi conservador, quando retratava negros em situação depreciativa no período da escravidão, até progressista, como nas tiras estampadas no Pasquim, um jornal alternativo e de contracultura da época da ditadura militar. E os cartuns levam a vantagem de serem como obras de artes, muitas vezes não envelhecem no tempo.

Um exemplo são as tirinhas da Mafalda do ilustrador Quino (1932-2020), que começaram a ser publicadas em 1964 e foram interrompidas em 1973. Apesar da morte recente do autor, em 30 de setembro, as histórias da personagem estão presentes até hoje no imaginário das pessoas. “A Mafalda expressou uma época vivida pela América Latina muito além desses 9 anos em que ficou na mídia. Seus cartuns expressam um anseio, algumas inquietações, prescrições políticas muito fortes e têm a rara capacidade de ser atual até hoje, mesmo sendo uma criança dos anos 60”, comenta Maringoni, que já foi professor de Jornalismo da Cásper Líbero. Muito conhecida por retratar, mesmo que indiretamente, eventos sociais, a personagem de Quino nos faz refletir sobre múltiplas questões sociais de forma despretensiosa.

Os cartuns revelam mudanças de hábitos

O cartunista, jornalista e professor Gilberto Maringoni

Conforme as pesquisas indicavam que em Nova York o número de pessoas vivendo com gatos em apartamentos crescia ano após ano, não demorou para o surgimento do Garfield, do cartunista Jim Davis. Maringoni lembra que o animal representava a solidão da sociedade americana nas grandes cidades. Garfield, que além de gato também é ser humano, por causa de sua maneira de pensar e agir, vive constantemente enclausurado em um apartamento com seu dono John. Ele é preguiçoso e mal-humorado, vive distante, é individualista e preza sempre pelo seu espaço pessoal e tranquilidade, mesmo que essa seja em meio ao caos. O felino é o típico americano que passa seus dias buscando se adaptar à vida urbana.

Em todo o mundo, os jornais e as mídias tradicionais se posicionam das mais diversas maneiras sobre os problemas da sociedade contemporânea. O racismo, a xenofobia, o machismo e a ascensão do neonazismo são apenas algumas das causas que podem ser defendidas ou atacadas, dependendo do posicionamento político do jornal que emite a opinião. E o cartum acompanha essa lógica.

“Eu nunca gostei do Charlie Hebdo, nunca acompanhei”, adianta Maringoni, que se formou pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. “Acho que eram de mau gosto as piadas e ilustrações que eles faziam. Era bastante apoiado pela extrema direita da França, era um jornal que tinha ideias que flertavam com o racismo”, diz o professor, quando questionado pela Factual900 sobre os cartuns do jornal francês. Em 2015, o veículo sofreu um atentado terrorista por causa de uma publicação que satirizava a imagem de Maomé, profeta muçulmano.

Há uma explicação para esse flerte com o racismo, segundo Maringoni. “A França colonizou vários países na África, mas é racista. Não quer receber de volta os filhos das colônias que tinham no continente.” No século XIX, a Europa iniciou o processo de neocolonização. O processo industrial em pleno vapor no continente europeu levou franceses, ingleses, belgas e portugueses a ocuparem e dominarem territórios na África. A França colonizou países que viriam se tornar o que hoje conhecemos como Costa do Marfim, Chade, República do Congo, Senegal e Marrocos. A descolonização da maioria desses países apenas se concretizou no século XX.

A liberdade utilizada pelo jornal francês vítima de um ataque terrorista começou a ser questionada após o evento que comoveu o mundo. A posição do Charlie e suas publicações são duramente criticadas por sua abordagem dos temas, muitas vezes vista como de mau gosto, provocativa e que dissemina ideais de um setor muito conservador da sociedade francesa.

Com o atual caos – político, econômico, institucional e social – que o mundo vive, os cartunistas não passam aperto, principalmente se o assunto for o novo coronavírus. A pandemia que atingiu o globo no ano de 2020 foi com certeza um dos assuntos mais retratados em cartuns, com duras críticas a decisões e posições de determinados governos sobre o assunto.

Aqui no Brasil, podemos citar de exemplo um cartum feito pelo artista Benett Apavora (cartunista pela Folha de S.Paulo) que retrata o presidente da República, Jair Bolsonaro, segurando um fósforo aceso e um recipiente com gasolina dizendo “Está demitido” para um bombeiro apagando um incêndio de um prédio. O cartum era uma alusão – e crítica – à decisão do presidente de demitir o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, no auge da contaminação do vírus da Covid-19.

Quando historiadores do futuro quiserem saber o que se passou nesse ano de 2020, certamente terão um farto material de pesquisa nas tiras e nos cartuns dos artistas do traço.

A questão racial também em ascensão vem sendo cada vez mais representado nos cartuns. Para entender melhor sobre esse assunto confira o trabalho completo no youtube da Factual900, que consta com o pesquisador Nobu Chinen abordando o tema.

A finalidade da imagem é exemplificar o que é uma tirinha e como elas podem ser críticas
Reprodução da tirinha da Mafalda produzida por Quino
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