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Hobby na quarentena vai da poesia à astrofotografia

Começar um novo hobby durante o isolamento se tornou uma ótima estratégia para garantir o bem-estar

Por Camila Alexandrino, Caroline de Tilia, Lara Asano e Renata Milliet

Ficar isolado em casa, sem contato com amigos e parentes, pode ser bastante desesperador. Para aliviar o tédio e a angústia sentidos pela falta de contato com pessoas e o afastamento do trabalho quando o isolamento social foi recomendado, muitos recorreram a um novo hobby. Nada como resgatar antigas atividades como forma de passar o tempo e eventualmente até ganhar dinheiro. A equipe da Factual900 entrevistou pessoas que passaram por essa situação. Mais que uma atividade recreativa, o hobby garantiu o bem-estar de milhões de pessoas.

A poesia: um hobby que estreitou laços

Deyse Mara Aparecida tem 33 anos e é professora do ensino fundamental no Rio de Janeiro (RJ), além de ser mãe solo e escritora nas horas vagas. Ela encarou o momento atual como uma chance para fazer todas as obrigações que adiava por conta da falta de tempo e da correria do dia a dia. Mas quando percebeu que não estava sendo “produtiva”, ela se sentiu fragilizada. “Essa questão da pandemia mexeu não só comigo, mas com muita gente, por causa do isolamento, do distanciamento social, dos riscos. Tudo isso colocou a gente, de certa forma, numa condição muito mais sensível a muitas questões.”

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Livro ‘Ela cismou de sonhar’ da autora Deyse Maria Aparecida Francisco (Foto: Proverbo Editora / Divulgação)

Porém, a autossabotagem que a tentou derrubar foi paga com a mesma moeda. Decidiu que usaria o tal tempo extra da forma que desejasse. “Eu vi que não conseguia fazer essas coisas, então me dei o direito de fazer tudo aquilo que tenho vontade de fazer não obrigação”, lembra.

Dentre os desejos deixados de lado, o de ler poesias pulsou mais forte e com ele um novo surgiu, ou melhor, ressurgiu. Deyse sempre gostou de escrever e ler poesias. Agora, ela decidiu que voltaria a praticar esse antigo hobby. “No meu livro Ela cismou de sonhar, eu até falo um pouco sobre isso. A gente deixa essa capacidade de sonhar para depois, como se tudo na nossa vida girasse em torno de obrigações e assim, não sobra espaço para sonhar.”

Deyse não pretende levar esse hobby como profissão, ou uma forma de ganhar um dinheiro extra. “No momento nem passa na minha cabeça fazer disso uma fonte de renda, a produção de escrita no Brasil é extremamente desvalorizada. Inclusive, a negociação para a publicação do meu livro foi a seguinte: os exemplares vendidos pagariam apenas a produção dos mesmos”, diz.

A música que traz um novo olhar sobre si mesma

A arquiteta Luna Nakano, de 34 anos e moradora de Mogi das Cruzes (SP), começou um hobby totalmente novo em sua vida: tocar ukulele. Luna já toca diversos instrumentos como violão e baixo, chegando a ter uma banda na adolescência, que não vingou por causa das metas pessoais de cada integrante do grupo.

Já o ukulele era um desejo antigo, realizado graças ao namorado, que lhe deu o instrumento de presente. Para ela, tocar faz o isolamento ser menos pesado, ajudando a se desconectar das notícias que vê na televisão. Como ela faz home office há pelo menos três anos, já estava acostumada a ficar em casa. Mas fazê-lo por obrigação e deixar de ver os amigos se tornou algo penoso. A música fazia falta em sua vida e voltar a tocar foi uma forma de se sentir melhor.

“No início, quando foi decretado o isolamento, não tinha ideia do que estava por vir, nem muito menos o quanto ia demorar… Conforme o tempo foi passando, comecei a sentir uma insegurança e a surtar, chorar de desespero às vezes, recomeçar a estudar música e tocar ukulele, deixou o clima mais leve. Ajudou a colocar a cabeça no lugar, e a perceber as coisas alegres que estavam acontecendo, mesmo estando ‘presos’ em casa”, afirma.

Os hobbies geralmente trazem inúmeros benefícios para os praticantes. Mas no caso de Luna, ela passou a ser notada, ficou mais próxima dos amigos, sentiu-se mais alegre e pode variar o assunto política e pandemia. Ao compartilhar vídeos nas redes sociais tocando seu instrumento, os amigos começaram a elogiá-la, pedir músicas que gostariam de ouvi-la tocar e cantar. Isso trouxe energias positivas que estimulam Luna a continuar com o hobby.

No hobby, um empreendimento

Roberta Sampaio de 31 anos, moradora da capital paulista, tem uma vitrine no Instagram, onde vende objetos artesanais e de decoração para a casa. Antes de conceber um novo produto, ela pensa em produtos diferentes e que não são facilmente encontrados. Seus itens são exclusivos, com detalhes únicos que conferem charme e trazem o logo da Home Story .

No início do ano, já pensando em novos produtos e sem saber exatamente quais iria produzir, Roberta buscou por um curso de corte e costura. Chegou o mês de março, quando as medidas de isolamento passaram a valer. A obrigação de trabalhar em casa por períodos prolongados em frente às telas do computador e conversas no celular com o aparelho preso entre o ombro e o rosto para liberar as mãos, culminaram na piora da qualidade do sono e dores no corpo: sinais claros de estresse.

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Almofadinhas para relaxar (Foto: Home Story / Divulgação)

Foi assim que nasceram as almofadinhas para os ombros e para os olhos: uma mistura compacta de alecrim, lavanda e camomila envoltos em algodão com as bordas caprichosamente costuradas. Elas possuem tamanho exato que cobre os olhos e vai até as têmporas, ao passo que a dos ombros é bem maior e mais pesada. 

Roberta passou a produzir as almofadinhas depois do horário de trabalho e com pouca estrutura para dar conta das entregas e obter os materiais em quantidade. Como as lojas estavam com os estoques esgotados, foi preciso encontrar novos fornecedores que cumprissem os prazos combinados. Com a prática, a microempresária foi capaz de criar diversos processos para otimizar a confecção.

Fazer as almofadas durante a pandemia trouxe muita satisfação para Roberta, num primeiro momento, por ter a percepção de criar algo útil para as pessoas e ter um feedback positivo. Além disso, parte do lucro obtido com a venda das almofadinhas foi doado para uma instituição necessitada, sobretudo naquele período.

“Fazer as almofadas foi muito bom, porque além de fazer algo que as pessoas poderiam usar, recebo muitos feedbacks e pessoas que continuam comprando para dar de presente”, afirma Roberta.

Da matemática para as artes

Luciane Batista, de 42 anos, é formada em Matemática e professora do ensino fundamental e médio em Curitiba. Apesar de trabalhar numa área de exatas, seu hobby é desenhar com lápis de cor. Ela desenhava desde criança, porém uma professora acabou inibindo sua vontade de continuar, quando em uma aula de artes, lhe deu zero por achar seu desenho tão bom que só podia ser plágio.

A decepção fez Luciane parar com o desenho por alguns anos, voltando apenas agora com a prática, para aliviar o estresse. O hobby lhe abriu os olhos a uma nova possibilidade, a partir da compra de um curso de desenho para aprimorar o traço. Ela também passou a escrever, chegando a participar de concursos promovidos por uma biblioteca de Portugal.

“Voltar a desenhar e escrever desbloqueou meus talentos e me deram mais autoconfiança, porque a cada elogio dos meus amigos e colegas, me inspirava mais a continuar”, diz.

Por sempre ter gostado de várias áreas do conhecimento, ela nunca teve interesse em um único assunto, o que dificultou sua escolha profissional durante o vestibular, por isso optou por hobbies que são diferentes da profissão que exerce.

Uma das melhores coisas que o hobby trouxe foi um outro olhar sobre si mesma, mantendo a sanidade mental e a autoestima. Ela pretende continuar depois da quarentena, sobretudo porque conseguiu desbloquear o seu talento.

Contemplar a beleza do universo

“Uma forma de estar em contato com a natureza e contemplar a beleza do universo.” Assim Krishna Nunes, de 38 anos, define a astrofotografia. Nascido em Salvador, mas morando em Campinas há cinco anos, viu na arte de fotografar os astros uma forma de passar o tempo livre que aumentou depois de perder o emprego. A fase depressiva que enfrentou por conta disso foi aliviada pelo hobby, que já havia tido uma tentativa de ser iniciado em novembro de 2019:

“Mas as fotos não ficaram boas. Só a partir de março de 2020 resolvi tentar de novo, aprendi a dominar as configurações manuais da câmera e algumas técnicas de edição, e aí as imagens melhoraram”, contou Krishna. 

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Lua e Marte (Foto: Arquivo Pessoal Krishna Nunes / Divulgação)

Aprender as técnicas de sua câmera não foi a única novidade. O astrofotógrafo amador que já tinha um certo interesse pela astronomia desde a infância e ficava observando o céu com o seu binóculo, durante a quarentena resolveu voltar a participar de grupos relacionados à astronomia nas redes sociais. Além de ter se inspirado em outros astrofotógrafos que publicavam seus registros, Krishna descobriu que em Campinas e em outras cidades próximas, atividades ligadas à astronomia como aulas, palestras e observações guiadas, eram oferecidas por observatórios e planetários. 

Por conta da pandemia, as atividades estão suspensas, mas isso não impediu que Krishna conhecesse em sua cidade pessoas com o mesmo hobby. Agora, já planeja realizar observações em grupo, assim que puder. Krishna aprendeu ainda a ter paciência com o hobby. Não apenas por ter que esperar as coisas voltarem ao normal para se reunir com o grupo, mas a prática da astrofotografia em si, exige paciência:

“Muitos eventos astronômicos (conjunções, eclipses, etc.) demoram para acontecer e é preciso esperar por meses ou anos para ter a oportunidade de presenciar um. Júpiter e Saturno estão se aproximando visualmente no céu; o ápice dessa aproximação só vai acontecer em 21 de dezembro, mas quem gosta do assunto já está ansioso desde o começo do ano. É preciso saber lidar com as frustrações, pois as condições atmosféricas podem não ser favoráveis no dia de um evento astronômico. Em setembro, acordei de madrugada para tentar fotografar uma ocultação de Marte pela Lua e estava totalmente nublado“, finaliza.

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13 comentários em “Hobby na quarentena vai da poesia à astrofotografia”

  1. Muito bacana, fiquei honrada em ser uma das entrevistadas, que tudo isso passe logo… E enquanto não passa, vamos deixando nosso rastro de alegria por onde estivermos…

    1. Que demais essa Matéria!
      Coisas assim que nos inspiram a olhar para outras direções, e despertam em nós novas curiosidades.
      Acredito que logo esse período difícil que estamos vivemos vai passar. E a todos os envolvidos nessa matéria deixo aqui os meus parabéns!

    2. Luiza Helena Fernandes Rachel

      Achei a materia
      super interessante e incentivadora isso mostra a criatividade e percepção sempre em alta.
      Amei as almofadinhas da Roberta Sampaio. Parabéns a todos os envolvidos. Nota mil.

    1. Nesta quarentena muitos se reinventaram, descobriram novos dons, novas habilidades. Essa matéria nós inspira a vermos o quanto somos capazes… Parabéns

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