Mais arte na cidade

Grafiteiros contam como é produzir arte de rua

O grafite começou no Império Romano, mas somente nos anos 1970 em Nova York e Paris é que ele se popularizou. De lá para cá, as técnicas foram se aperfeiçoando e as pinturas se tornando mais valorizadas e fazendo parte da paisagem urbana. Por trás de cada muro ou prédio pintado, estão artistas que fazem da cidade sua tela e seu espaço de expressão. E por trás de cada grafiteiro, existem histórias pessoais que se misturam com as das próprias cidades em que vivem. Em São Paulo, três jovens artistas, Feik, FemmeNath e Letícia Xavier, contam à Factual900 como é produzir a arte de rua que encanta a muitos, mas ainda é mal compreendida e até rechaçada por outros.

Feik (@feik_frasao)

Adepto ao nome artístico “Feik”, o grafiteiro começou a pintar seus primeiros muros em 1998, duas décadas depois da chegada do grafite no país.

O movimento cultural tem forte ligação com o Hip Hop, e possui traços musicais, danças, pinturas e locomoções, como o skate, muito originais e também vinculado principalmente às pessoas negras e da periferia. Devido ao racismo e classismo, essas manifestações ainda são criminalizadas, mesmo quando consideradas arte.

O artista paulistano costuma ter ideias e as coloca em prática dentro de casa, desenhando tanto em seu tablet como em telas. Ele diz que gosta das distrações que a rotina de trabalhos em casa proporciona. Durante treze anos, trabalhou em um hospital, no qual chegava às 7h e batia o ponto às 17h, realizando a mesma tarefa, parando apenas para almoçar.

Feik considera o trabalho em casa mais prazeroso do que em um escritório, descansando nos momentos em que acha necessário. Também gosta de fazer suas telas de madrugada, aproveitando o silêncio noturno.

Quando vai para a rua, fica por horas absorto em seu trabalho, não só porque prefere finalizá-lo no mesmo dia, como também porque gosta muito da experiência de grafitar. Nas ruas, ele comenta como curte a interação com as pessoas, principalmente com as crianças, que se encantam com seus insetos e criaturas lúdicas. Por vezes, até deixa os pequenos participarem ativamente de seu trabalho, as deixando brincar com suas tintas.


Fonte: Reprodução Instagram/@feik_frasao

No momento que Feik começou a se conectar com a arte, o grafite ainda era uma manifestação artística criminalizada. Mesmo quando fazia trabalhos em locais autorizados pelos proprietários, era comum que quem o visse com latas de spray na mão o denunciasse por vandalismo.

Certas vezes, teve que ser abordado pela polícia por estar apenas fazendo sua arte. Felizmente, o artista considera que a sociedade atual tem uma visão mais positiva do grafite, havendo também uma maior demanda em seu trabalho autoral.

Com as mídias sociais, consegue expor seu trabalho com mais facilidade, e procura estar sempre postando obras no Instagram. Hoje, Feik consegue viver apenas da arte, da qual ele não considera apenas trabalho como também uma diversão.

Nath Dias (@femmenath)


Fonte: Reprodução Instagram/@femmenath

Resiliente, artista, mãe solo, brasileira, sofredora, corinthiana e lésbica, é assim que Nath ou FemmeNath se descreve. Ilustradora, muralista e artista visual, ela tem uma rotina agitada com os pedidos de desenhos que recebe.

A história com a arte iniciou-se com um acidente com 19 anos. A partir desse acontecimento, a mãe da artista comprou materiais de pintura para desenhar. Após a recuperação, começou a fazer faculdade de Artes Visuais, porém houve algumas complicações e então trancou o curso.

Com 22 anos, decidiu morar no Recife e trabalhava como garçonete. Foi conversando com alguns dos frequentadores que acabou pintando pela primeira vez uma parede com spray. “Me apaixonei pelo grafite assim, pela técnica, pela tinta, pela agilidade e por ser vandal”, conta a artista. A primeira parede feita por Nath foi em Olinda, em Pernambuco.

“Foram 10 anos de muita resiliência, de muita persistência, de não desacreditar da minha parada para eu estar aqui hoje”.

FemmeNath relata que não é fácil começar a ganhar dinheiro com arte, depois de 10 anos nesse ramo — começou a pintar em 2011 — a artista passou a lucrar com o trabalho que exerce. Para ela, aprender a ser autônoma e ganhar dinheiro por conta própria foi um dos maiores desafios. Outro, foi enfrentar o preconceito por sua arte.

Quando você é mulher e você tá na cena, você várias vezes não tem dinheiro para colar naquele evento de grafite, você não tem com quem deixar seu filho para colar naquele encontro na quinta-feira, você não tem passagem de busão pra trombar com a galera numa exposição ou até dinheiro para entrar nessa exposição […]. Quando você é mulher o microuniverso de cada mulher tem muita demanda, tem muita coisa pra fazer, a gente não chega em casa e a roupa tá lavada e a comida tá pronta, então quando a gente fala que muitas portas estiveram fechadas pra gente, essas portas estão dentro da nossa casa, afirma a grafiteira.

Agora há uma maior participação das mulheres nessa arte urbana, diz Nath, pois elas conseguem administrar mais as demandas e o sonho da arte. “A gente tá compondo sim essa poesia urbana que tá nas ruas, ela é nossa.”

Sobre a criminalização em uma sociedade em que as pessoas estão acostumadas a se interessar por arte “comestível”, como as de Romero Britto, a população não questiona o pixo ou o significado que tem por trás daquela arte e a mensagem por ela transmitida.

Existem diferenças entre a pichação e o grafite, a artista tem plena consciência que antigamente, há 20 e 30 anos atrás, muitos pichadores sofreram sendo presos e humilhados. “Eu devo minha gratidão pra essa galera e que a cena deles nunca acabe”, diz a grafiteira.

Nos anos 1980 no Brasil, ambos os movimentos eram vistos como vandalismo e até confundidos entre si. Porém, com o tempo, a sociedade civil e as instituições passaram a diferenciar o grafite ao tratá-lo como uma maneira válida de expressão. Com uma maior ocupação de espaços, diversos novos artistas surgiram e iniciaram a expressão de seus pensamentos através das pinturas nos muros, trens, metrôs, laterais de prédios e muito mais.

“A missão do grafite e da arte urbana em São Paulo é reflexão […] é você sair do seu caos, olhar para fora e ver arte e uma arte que não é privilégio, é uma arte para todos”.

Para a artista essa é a importância do grafite para São Paulo, a fuga. Na cidade há muita dificuldade, fome, hostilidade, preconceito, racismo, xenofobia, e a arte faz com que haja um escape desse mundo com tantos problemas e adversidades existentes.

Arte como crime, crime como arte

São Paulo, dia 26 de outubro de 2008, um grupo de cerca de 40 pichadores entra na 28.ª Bienal e picham o segundo andar do pavilhão, dando continuidade ao longo debate público que reverbera até hoje nas mais diversas áreas, desde política até a arte.

O local que, segundo a curadoria do evento, propunha a questão do vazio como arte, com apenas suas paredes brancas e a arquitetura de Niemeyer, a partir daquele momento passou a servir de palco para outra discussão, o pixo como manifestação artística.

Em uma cidade que tem como símbolo seus grandes edifícios e através do grafite se manifesta, a pichação é seu grito de socorro. A ocupação vertical da capital paulista, maior símbolo do grafite nacional, significa mais do que parece, ainda mais quando se pensa no subgrupo dedicado ao pixo.

Como forma de liberdade de expressão, manifestação política e com caráter contestatório do Estado e da propriedade privada, o pixo demonstra e representa aqueles que não são ouvidos, que vivem às margens da prosperidade econômica da cidade mais rica do país.

Fonte: Reprodução Rovena Rosa / Agência Brasil

Letícia Xavier (@leticiax.lele)

Faz um ano desde que Letícia Xavier começou a pintar na rua. Apesar de ter sempre admirado ver as artes na cidade, nunca havia se aprofundado no assunto. Foi através de um evento que aconteceu em Itapevi, local onde mora, localizado no interior da cidade de São Paulo, que viu sua arte ganhar um novo significado. Durante o evento, Leticia pintou, junto de outras pessoas, uma das principais avenidas da cidade.

A partir desse dia, não parou mais. Com uma amiga, fundou o projeto “Grafitar”, oficina de introdução ao grafite voltada para mulheres, com o objetivo de compartilhar saberes e ajudar na introdução ao mercado de trabalho. “Foi com o grafite que entendi o real significado da arte na vida”, diz a artista.

É assim que descreve sua relação com os desenhos. Apesar de vender ilustrações antes de passar a grafitar, é grata e aprecia as oportunidades que o grafite tem lhe oferecido, como ter ido ao Rio de Janeiro para pintar, fato esse que aconteceu recentemente.

Fonte: Reprodução Acervo Pessoal (Letícia Xavier)

Fonte: Reprodução Instagram (@projetografitar)

Em sua rotina, Letícia procura estar sempre atenta ao redor, já que tudo pode servir de referência — desde carros estacionados até a textura de uma flor, por exemplo. Como seu marido, que é tatuador, também está inserido no meio artístico, ambos estão sempre procurando criar e desenhar, à procura de novas inspirações.

Atualmente, sua renda vem principalmente do artesanato, e mais recentemente tem ganhado com as ilustrações e o grafite que vem produzindo, com muito orgulho de ter conquistado uma arte que as pessoas querem ter para si.

Fonte: Reprodução Acervo Pessoal (Letícia Xavier)

A artista relata que não sofre preconceito de outros artistas que não consideram o grafite como uma forma de arte legítima, e afirma que a arte está em todo lugar. Dessa forma, não é certo colocá-la em uma caixa, padrão, escola artística, porque pode perder o sentido, e todas as produções, consequentemente, virariam mais do mesmo.

Com relação a ser uma grafiteira mulher, entretanto, Letícia afirma que já se sentiu diminuída por outros homens que sentem a necessidade de aprovar o trabalho de uma colega mulher, tendo ouvido até mesmo afirmações como “a mina pinta bem igual homem”.

Historicamente, mulheres sempre estiveram presentes na arte, mas foram silenciadas e roubadas. O cenário, porém, tem mudado. Hoje, a artista diz viver em um momento diferente do qual se deparou no início, com mulheres pintando na rua porque querem, porque veem outras mulheres no mercado, ao invés de estarem ali apenas por influência de homens.

A jovem de Itapevi reconhece que a criminalização do grafite é um assunto complexo. Em eventos autorizados, por exemplo, vê uma maior aceitação por parte das pessoas, que muitas vezes julgam a mesma artista se o trabalho está sendo feito sem autorização, chamado de vandal. Letícia comenta que, antes de julgar, é necessário entender porque o grafite está sendo feito daquele jeito, naquele lugar. “Não é porque você não acha bonito que é errado”, afirma Letícia.

Por fim, reforça a importância do grafite para São Paulo, e como essa arte se tornou característica para a cidade, com prédios grafitados por toda parte. Apesar disso, ainda há muita história a ser contada, e mesmo com os esforços que partem do Estado para que isso não aconteça, o grafite vem conquistando seu espaço cada dia mais.

São Paulo é pulsante, cheia de energia e contradições. Isso é inegável. Ela é viva e tem uma personalidade única e suas ruas confirmam tudo isso. Presente em diversos muros e fachadas de prédios, os grafites, manifestações artísticas urbanas, transcrevem todas essas características da terra que já foi da garoa. Definitivamente, eles são um símbolo paulistano que, ao contrário do sanduíche de mortadela do Mercadão, correm riscos e sofrem até perseguições.

Por Ana Clara Carvalho De Mico, Camilla Militino, Gabriel Cól, Gabriela Salomoni, Gabriela Mackert Occhipinti e Rafaella Iazzetta Nocker.

Foto destaque: Acervo pessoal/Letícia Xavier

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