Ser feminista: em qual vertente você se encaixa?

Mulheres diferentes unidas por uma mesma causa: igualdade. Entenda como o movimento feminista se dividiu a fim de se tornar mais acessível.

Feminista: pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos. O feminismo surge como movimento filosófico, social e político no século XIX. No século seguinte, foi tomando maior visibilidade dentro das culturas ocidentais.

As condições de mulheres de todas as cores e classes sempre andaram lado a lado a desigualdade presente dentro de uma sociedade patriarcal. O direito ao sufrágio e a educação foram requisitos básicos e responsáveis por alavancar o movimento mundo afora.

O feminismo é protagonizado por e para mulheres. Mas não somos iguais. Marcadas por tantas diferenças nos mais variados aspectos – sociais, econômicos e políticos. O modo de pensar, falar e ver o mundo. Será mesmo que um movimento sem recortes é capaz de abranger e atender às necessidades de todas as mulheres?

A resposta é simples: não. O feminismo, em sua totalidade, não pode ser considerado um movimento 100% irrestrito. Ainda que passível de recortes, a corrente não é acessível a todas. Pensando nisto, o feminismo contemporâneo passou a se organizar a partir de vertentes para atingir mulheres de classes, cores e maneiras de pensar diferentes.   

Feminismo Radical 

Pichação em prol da resistência do feminismo radical, que muitas vezes causa polêmica com suas teorias. 

Nascido nas décadas de 1960 e 1970 a partir das obras de Shulamith Firestone e Judith Brown, ao contrário do que muitos pensam, o feminismo radical não é sinônimo para extremismo. Quando tratamos de radfem, o “radical” significa “de raiz”. Sendo assim, as feministas adeptas a essa vertente acreditam que o problema do machismo em nossa sociedade está enraizado a uma questão: a identidade de gênero. Mas, afinal, do que se trata esta construção e qual a opinião do radfem a respeito dela?

O gênero nada tem a ver com cromossomos XX ou XY. Não se trata de machos ou fêmeas. Isso se chama sexo biológico. E é a partir dele que o gênero se constrói em nossa sociedade. O que o feminismo radical faz é pensar neste fenômeno como um sistema de opressão. Mas como?

Basicamente, a mulher enquanto fêmea (biologicamente do sexo feminino) recebe uma socialização – termo muito utilizado dentro do radfem – de acordo com seu sexo biológico. Ela é construída e moldada durante toda sua vida para agir e acreditar que aquilo que está sendo imposto é como ela realmente deve se portar. Frágil, delicada, sempre omissa e bem cuidada. 

Já o homem, enquanto macho (biologicamente do sexo masculino) é criado e moldado para ser superior. Sempre forte, viril e corajoso. E é dessa maneira que se constrói a opressão de gênero, tendo em vista que mulheres são criadas para serem oprimidas e homens criados para serem opressores, de acordo com a teoria radical. 

É importante ressaltar que, para as feministas radicais, essa construção não acontece de forma consciente nem consentida. Trata-se de uma imposição da sociedade patriarcal que se faz internalizada em nós mesmos. 

O feminismo radical não prega a ideia de que mulheres não podem ser femininas para lutarem por seus direitos. Apenas problematiza as imposições criadas para oprimir mulheres dentro de uma sociedade patriarcal. Alguns pontos importantes dentro da vertente são também a prostituição e a pornografia. As radfem se posicionam de forma totalmente contrária a estas práticas, pois acreditam que são formas de comercializar e explorar o corpo feminino. 

Feminismo Liberal 

Mulheres brancas realizam protesto feminista em 1 de maio de 1968, em Paris.

O feminismo liberal é a única vertente que aceita homens dentro do movimento e que não problematiza o capitalismo, lutando pela inserção da mulher na lógica do capital. O movimento está ligado a uma luta por direitos das mulheres pautado na doutrina político-econômica do liberalismo. Mary Wollstonecraft, Betty Friedan, Gloria Steinem e o filósofo John Stuart Mill são alguns de seus formuladores. 

Para o libfem, a raiz do machismo está ligada às leis. Feministas adeptas à essa corrente acreditam que uma mudança dentro do sistema judiciário seria a solução do problema e das opressões sofridas pela mulher no dia a dia. Caso as leis fossem reavalidas e houvesse, de fato, uma mudança, o machismo deixaria de existir. 

Alguns artistas, como Emma Watson, defensora do movimento HeForShe – em português “Eles por Elas” – idealizado pela ONU Mulheres, se declaram adeptos a esse “tipo” de feminismo. Isso acontece, pois, para muitas feministas, essa é a vertente que mais se encaixa nos padrões midiáticos, promovendo ideais como empoderamento pessoal e a liberdade sexual da mulher. 

De fato, à primeira vista, a corrente se mostra bem amigável. Que mulher não deseja se empoderar e se ver livre de opressões que afligem seu corpo e sua liberdade sexual? Contudo, por vezes, o libfem não é visto com bons olhos por feministas de outras correntes.  

Por que isto acontece?

“Nosso compromisso, enquanto feministas, é pela libertação da mulher. De todas as mulheres. Não é coerente, portanto, defender o direito de uma mulher fazer algo que sabidamente é motivo de aprisionamento para todas as outras mulheres. E mais: a partir do momento em que temos consciência das estruturas que nos aprisionam e nos exploram, também é completamente incoerente defender ideias e valores defendidos por grupos que têm interesse na manutenção de nossa dominação/exploração (por isso nós falamos repetidamente que se determinada ideia “feminista” agrada à classe masculina então ela não é feminista coisa nenhuma)”, é como define ‘Furiosa’, como se autointitula uma das colaboradoras da página QG Feminista e feminista radical.  

Feminismo Interseccional 

Ainda que, academicamente falando, o feminismo interseccional não seja entendido como vertente, mas uma metodologia que considera epistemologias diversas, ele se apresenta como uma forma de consenso entre as demais correntes. É de extrema importância termos em mente a ideia de que, como mulheres, somos diversas. Contudo, por muito tempo, o feminismo tratou isso de maneira universal, não levando em conta a existência de mulheres de raças, classes, regiões, opções sexuais diferentes.

Somos mesmo todas iguais?

A ideia de que “somos todas iguais” acaba gerando, dentro do próprio movimento, opressão de umas para com outras. Os pilares da sociedade patriarcal afetam diretamente toda e qualquer mulher. Fato. Mas é realidade também que algumas opressões evidenciam parcelas diferentes. Explicando: toda mulher sofre com o machismo, mas nem toda mulher sofre com racismo, homofobia, transfobia, gordofobia, capacitismo, elitismo ou sistema hierárquico de classes, xenofobia etc. Logo, globalizar vivências e colocar mulheres que se encontram inseridas em diferentes posições da sociedade dentro de um mesmo pacote de existência e opressão é sinônimo de silenciamento, na medida em que não são reconhecidos privilégios de umas sobre outras. 

E é a partir dessa maneira de enxergar que a interseccionalidade atua no movimento. Entre suas principais autoras estão Avtar Brah, Anne McClinton e Kimberly Cranshaw. As feministas interseccionais defendem recortes de gênero, etnia, classe, orientação sexual etc, justamente por reconhecerem que mulheres diversas partem de pontos diferentes da sociedade e não sofrem juntas as mesmas opressões. Essa corrente age como uma interação entre “feminismos” epistêmicos em forma de vertente. 

Mulheres negras protestam numa passeata em Los Angeles, 1970.

Feminismo Negro 

Seguindo a linha da interseccionalidade, o feminismo negro também pode ser entendido como uma epistemologia. Este também parte da ideia de que toda mulher sofre com a estrutura patriarcal que nos é imposta. Mas nem todas sofrem com o racismo. “Mulheres brancas lutam para ter os mesmos direitos que os homens. Mulheres negras lutam para ter os mesmos direitos de mulheres brancas”. Esta frase é capaz de explicar a concepção do blackfem. É a corrente que reconhece que entre as mulheres brancas e negras, existe um tipo de pirâmide entre quem possui mais e quem possui menos privilégios.

Esta corrente conta com alguns nomes em sua formação, como Audre Lorde, Suely Carneiro e Angela Day. Surge a ideia de que mulheres negras, por sofrerem uma dupla opressão, não são representadas por outros “feminismos”. Existe um processo de socialização de pessoas negras e brancas, sobretudo, mulheres negras e brancas e posições distintas que estas irão ocupar. Não só nas relações sociais, mas no modo de produção também.

Siga-nos nas redes sociais

6 comentários em “Ser feminista: em qual vertente você se encaixa?”

  1. Pingback: Empoderamento feminino no trabalho - Factual 900

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *