Imagem de Danilo, portador de síndrome de Down e goleiro da equipe de futsal do Corinthians, que comemora vitória com os braços abertos

Quais os desafios da vida de um atleta?

Conheça a história de jovens que relatam suas vivências dentro do esporte e as dificuldades de seguir a carreira de atleta.

Por Aline Carlin, Ana Beatriz Hoffert, Fernanda Viana, Julia Polo, Mariana Hummel e Thaís Bueno

“O esporte pra mim é muita coisa. Muita mesmo. Faz parte da minha vida todos os dias e é muito importante, porque traz disciplina, maturidade, oportunidade. Ele faz você construir perseverança. Você passa a criar uma responsabilidade com você e com o seu futuro desde cedo”. É assim que o ginasta Diogo Speranza Paes, de 18 anos, encara a ginástica artística. O sonho de ser atleta profissional e ganhar a vida praticando determinado esporte é muito comum entre os jovens.

Diogo com suas medalhas. Foto: Instagram @/dig_speranza

No entanto, o sonho de ser profissional vem com árduos desafios. O comprometimento com esse objetivo possui certas exigências, e para muitos significou abrir mão da infância e crescer mais rápido, ter que lidar com a possibilidade de fracasso desde cedo, carregar a responsabilidade de elevar a qualidade de vida da família, como também possuir o psicológico necessário para encarar essas situações desde cedo. Para entender esse universo, a Factual900 conversou com quatro aspirantes a atletas, que enxergam a prática como o combustível que os impulsiona a cada dia.

Será que vou conseguir? 

Muitos estão tão certos de seus objetivos que não pensam em um ‘plano B’, mas outros optam por ter uma segunda opção. Esse é o caso de Diogo. O ginasta busca uma garantia maior para seu futuro cursando psicologia. “A faculdade é uma segunda opção para seguir depois que o esporte acabar. A ginástica leva o atleta até uns 30 a 35 anos, mas já começa a ficar difícil manter o nível. Então é importante ter uma segunda opção”. 

Ter um plano B para o futuro não é desistir do sonho. Diogo não deixa de acreditar na sua capacidade e deseja ir além como ginasta. Como acabou de entrar na categoria adulta, seus objetivos são grandes: chegar a um Mundial, competir em uma Olimpíada e ganhar uma medalha de ouro. Ele já participou de campeonatos internacionais, como o Mundial Escolar Gymnasiade de Marrocos (2018), o Sul-americano na Colômbia (2019) e o Pan-americano no México (2021), onde conquistou um 3⁰ lugar por equipes e um 2⁰ lugar na barra-fixa. 

“Nem todos têm condições físicas, financeiras ou mentais para chegar a algum lugar e isso me corta o coração, porque estamos lidando com o sonho de uma pessoa. Tem momentos que o melhor que podemos fazer a nós mesmos é insistir até dar certo”, completa o ginasta, que treina no Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo. 

Já para Yago Araújo, jogador de 18 anos do Anápolis Futebol Clube, não há uma segunda opção. “Sempre joguei desde pequeno. Minha mãe queria que eu estudasse, meu pai queria que eu trabalhasse. Mas desde que eu comecei a pensar em carreira, futebol sempre foi a primeira opção. Nunca teve outra”, diz.

Yago Araújo assinando contrato com o Anápolis. Foto: Instagram @/oyaguinhosilva

Nem tudo são flores

Muitos querem trilhar o mesmo sonho de Yago, mas não são todos que conseguem lidar com os obstáculos no caminho: “Uma coisa é você querer, outra é você ir atrás. Porque é difícil você ficar em um alojamento cheio de pessoas que você nunca viu na vida, difícil ficar longe de casa e de quem você ama”, fala o jogador do Anápolis, que sofre com a distância.

Há 5 meses em Goiás, esta não foi a primeira vez que o jovem ficou longe de sua família. No início de 2020, seguindo seu sonho, Yago foi passar uma temporada nos Estados Unidos jogando em um time local, porém não passava de mais um caminho sem saída já que, devido à pandemia, foi obrigado a voltar ao Brasil.

“Tem a questão da adaptação com a língua, adaptação com a comida, adaptação de tudo, mas o mais difícil foi a saudade da minha família. Eu falava com eles todo dia por mensagem e vídeo chamada, só que não é a mesma coisa. Na ligação eu sorria, mas quando desligava o celular vinha a vontade de chorar. Quando voltei, eu estava feliz por ver as pessoas que eu amo. Depois eu entendi o que estava acontecendo mesmo, aí bateu uma tristeza porque pensei ‘eu estava com a chance na minha mão e a pandemia estragou tudo’”.

Para ele, foi crucial o apoio de seus parentes e amigos, que o incentivam a ir atrás de seus objetivos: “Eles entendem que é meu sonho e fazem de tudo para me ajudar”. Por outro lado, todos sofrem quando as coisas não estão indo tão bem e a frustração é multiplicada. Os jogos sem gols, os campeonatos sem títulos, as tentativas de peneiras sem sucesso:  “Acho que a pior parte é ter que voltar para casa, olhar para seu pai e sua mãe e falar ‘mais uma vez não deu certo, mais uma vez recebi um não’”.

Ter um porto seguro, alguém que o apoia, também foi fundamental na vida de Felipe Oliveira, jogador de futebol de 21 anos. Filho de mãe solteira, contou com o suporte e aconselhamento da matriarca da família, a qual sempre trabalhou duro para colocar uma refeição na mesa, e teve que lutar ainda mais para ajudá-lo a seguir seu sonho.

Felipe conta que assim que a mãe percebeu que era aquilo que o filho queria, ela não mediu esforços para incentivá-lo. “Ela nunca me privou de nada, sempre falou assim: ‘Eu vou deixar você ir para você saber como são as coisas. Eu quero que você tente seu sonho, porque se caso você não conseguir, se caso vier a dar errado, você vai saber que não foi por parte minha e nem por parte de ninguém. Você tentou e não conseguiu, e isso faz parte da vida’”, disse emocionado.

Enquanto tentava trilhar seu caminho, nas passagens ainda muito jovem por Rio de Janeiro e Santa Catarina, Felipe encontrou muitos empecilhos, mas estes ele não podia compartilhar com a mãe: ela era capaz de aguentar a distância, mas não aguentaria saber da fome ou do frio que ele passava. E sabendo disso, ele mentia.

“Eu falava ‘Pô mãe, hoje foi ótimo, comi lasanha, comi strogonoff, fiz isso e fiz aquilo’ porque eu sabia que se eu falasse para minha mãe o que realmente tava se passando, como era realmente a situação, ela não ia deixar eu ficar lá e na mesma hora ela ia mandar eu voltar”.

Felipe Oliveira e Yago Araújo, respectivamente. Fotos: Divulgação

Apesar dos desafios para se tornarem jogadores profissionais, Yago e Felipe estão dispostos a abrirem mão de muito para conquistarem seus objetivos finais e é sabendo que existem jovens como eles que, no mundo da bola, assim como em todos os outros, aparecem aproveitadores. 

Não é de hoje que o futebol no Brasil se tornou um mercado e, partindo deste ponto, crescer no esporte sem um empresário é muito mais difícil. Segundo Yago, “Você precisa de um empresário para conseguir alguma coisa dentro do futebol e eu acho isso errado. Muitos moleques não têm condições de bancar um porque não é uma coisa barata e a maioria deles cobra”. Ele ainda completa: “Além de ser uma coisa incerta, muitos não agem de boa fé: tem muita história de menino que deu dinheiro na mão de empresário e nunca mais viu o cara.”

Felipe passou por uma situação parecida quando foi morar em uma casa com outros cinco baianos alugada por um preparador físico, cuja promessa era de encontrar um time para os garotos, mas o dinheiro da mãe de Felipe entrava na conta do explorador e os testes para clubes não apareciam.

Já Yago quase caiu no encanto de um empresário que “prometeu jogos em estádios, prometeu jogos em vários países, mostrou foto com jogadores famosos”, mas ao pesquisar mais a fundo a história do homem, se deparou com diversas denúncias de juramentos não cumpridos e de negligências com outros meninos.  Apesar disso e de outros obstáculos, ele diz: “Eu sei como é difícil, mas, mesmo tendo que abrir mão de certas coisas, eu nunca vou desistir do sonho de ser jogador”.

Os desafios (e benefícios) da mente

Por outro lado, o esporte traz benefícios não só para a saúde física, como também para a saúde mental. Porém, a pressão, a ansiedade e o estresse também fazem parte do universo esportivo. No futebol, por exemplo, um estudo da Federação Internacional de Atletas (Fifpro) destacou que cerca de 23% dos jogadores de futebol em atividade têm transtornos do sono, 9% relataram que sofrem de depressão e outros 7% apresentam sintomas de ansiedade. Esses números aumentam entre os jogadores que já se aposentaram: a depressão afeta 13% dos atletas.

Sobre o assunto, Yago declara: “O futebol é muito incerto, você passa a vida inteira jogando para talvez dar certo. Agora eu tenho 18 anos, estou na fase do ‘Vai ou não vai virar profissional?’. Então, qualquer tempo que eu ficar fora por lesão pode significar o final da minha carreira. Sempre dá medo!”.

Mas mesmo anos de experiência não te resguardam desses desafios da mente. Nas Olimpíadas de Tóquio 2020, a ginasta Simone Biles, já na fase de classificação, decidiu retirar-se da competição alegando necessidade de preservar sua saúde mental. A atleta sofreu uma crise psicológica comum no mundo da ginástica chamada “twisties”, em que perde-se a noção de espaço e movimento e torna os movimentos do ginasta perigosos.

“É, honestamente, petrificante tentar alguma habilidade mas não ter sua mente e corpo em sincronia. Desta vez é literalmente em todos os aparelhos, o que é uma muito ruim”, disse a ginasta, em publicação nas redes sociais. 

Biles não foi a única ginasta que comentou sobre como as competições afetaram suas condições mentais e a colocaram em posição de tomar atitudes decisivas para sua carreira. Ao ser questionado sobre qual o impacto da ginástica artística em sua saúde mental, Diogo avaliou o lado que ele considera ruim da prática esportiva: a pressão nas competições. 

Apesar disso tudo, para Yago e Diogo, nada é melhor que a prática esportiva. Embora ambos tenham destacado alguns aspectos negativos do impacto do esporte nas condições mentais, no geral, os dois avaliam-no como algo positivo. O jogador ainda conclui:

“Futebol é meu psicólogo para tudo. Quando eu estou em um dia ruim, estressado, eu vou para o campo e esqueço de tudo”, disse Yago. 

O esporte pode desempenhar diversos papéis na vida de um atleta. Para compreender mais sobre as diversas facetas do esporte, ouça o podcast “O que é o esporte?”, produzido pela Factual900.

A importância dos projetos sociais

Muitos atletas trilharam seus caminhos no esporte que praticam com a ajuda e o apoio de projetos sociais e ONGs. Alguns buscam essa ajuda, enquanto outros são convencidos, por parte desses projetos, a fazer parte deles quando ainda estão no início de suas carreiras. 

Felipe conta que fez parte de um projeto social de sua cidade natal (Bahia). Quando completou 12 anos de idade, o garoto foi para este núcleo, que segundo ele era projeto de um clube local. Ele menciona a rotina esportiva que aprendeu quando começa a tratar das viagens que teve de realizar para jogar em diferentes cidades. O jogador, atualmente, revê essa experiência no projeto como fundamental para sua trajetória no esporte, para que já pudesse ir se acostumando com a vida de atleta. 

Além disso, Felipe relata que, morando em uma periferia, notou que o futebol poderia ajudá-lo a sair dali, a ter uma vida melhor. Ele conta, ainda, que alguns de seus amigos só possuíam duas alternativas: ou estudavam ou entravam para o tráfico – e a última opção ele definitivamente não queria para si mesmo. Desse modo, através do projeto, ele começou a se esforçar nos treinos e passou a perceber que o esporte realmente estava fazendo diferença em sua vida. 

“O projeto foi um impulso pra mim, foi de onde eu tirei forças pra ajudar minha família. O pensamento era sempre ajudar a família e os amigos, e aí eu vi que era isso que eu queria pra minha vida. A esse ponto, foi tão fundamental pra mim que eu consegui almejar viajar pra fora, jogar em clubes… eu nunca imaginei que iria conseguir sair do meu próprio estado, sabe. Foi fundamental para eu não ter ido pro caminho errado do tráfico.” 

Felipe Oliveira em jogo pela Copinha. Foto: Divulgação

O esporte pode ser visto, também, como forma de integração social. Pessoas com deficiência, por exemplo, podem ser extremamente beneficiadas pelo esporte, principalmente no que tange às relações interpessoais e às interações sociais. Danilo Polo, portador de Síndrome de Down, é um exemplo de como o incentivo do esporte através de projetos sociais pode contribuir para a integração social das pessoas com Down. 

A mãe de Danilo, Sandra Polo, relata um pouco sobre como o menino começou sua história no esporte através da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais). A Apae é uma organização social cujo objetivo principal é promover a atenção integral à pessoa com deficiência intelectual e múltipla. Danilo foi para a associação quando tinha entre 7 e 8 anos. Até então ele ia em clínicas particulares para fazer fisioterapia, terapia ocupacional e também frequentava psicólogos.

Alguns esportes praticados por Danilo – ginástica, futsal e natação. Fotos: Divulgação

Ao começar a frequentar a Apae, que tinha um setor de educação física, a vida de Danilo mudou. Hoje em dia, com 36 anos, ele pratica 5 esportes – natação, ginástica artística, futsal, dança e atletismo (este último de forma não competitiva): “Ele começou a viajar com o esporte, na primeira viagem dele ele tinha 8/9 anos, foi pra Ilha Solteira e ficou 7 dias lá numa Olimpíada das Apaes. Ali começou essa parte competitiva do esporte. Nisso, ele começou a pegar gosto pela prática do esporte, ganhar medalhas, ter incentivos, isso fez ele gostar.”

A Apae, então, foi fundamental para Danilo tomar gosto pelo esporte e promover a integração social de um menino, considerado diferente, que era cheio de sonhos.  Contudo, infelizmente, a associação extinguiu aquele setor. 

Desse modo, Polo passou a frequentar uma outra associação para que não tivesse que abandonar o esporte: a Associação Paradesportiva JR, preparada para competir tanto campeonatos paulistas como campeonatos brasileiros. Através dessa associação, Danilo pôde viajar o mundo inteiro praticando esportes, principalmente com a natação – já foi para Portugal, México, Itália, Equador e vários estados do Brasil. 

Sandra destaca a importância que essas instituições tiveram na formação de Danilo, não só como esportista, mas também como pessoa. 

“Isso tudo aconteceu devido ao esporte, porque se não fosse o esporte ele não teria tido essa oportunidade de conhecer esses países. Tem também essa autonomia de viajar sozinho, porque os pais não vão. Hoje, o Danilo consegue levar uma vida praticamente sozinho. Ele trabalha, consegue se virar sozinho, tudo isso em razão do esporte.”

Em termos gerais, portanto, o esporte como forma de carreira profissional traz muitos benefícios para seus praticantes e, embora tenha seus desafios, é muito valorizado, principalmente pelos atletas.

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