Depressão na quarentena: o que está por vir

Por Carlos Lírio, Gerson Nichollas, Henrique Andrade e Matheus Ribeiro

A pandemia do novo coronavírus está longe de terminar, mas já se fala que outra começará logo em seguida, a pandemia da depressão. Foi o que se verificou após o surto de algumas doenças anteriores como H1N1, Mers, Sars e Ebola, graves, mas não tão impactantes globalmente quanto a Covid-19. Situações críticas como essas geram, durante e depois, confusão, raiva e até estresse pós-traumático. Estudos científicos já apontam para um aumento da depressão na quarentena, por causa do longo período de isolamento social.

Para a psicóloga Silvana Cardoso, o isolamento imposto pela pandemia em si já é muito difícil, uma vez que há uma enorme mudança nos hábitos, além do reduzido contato com parentes e da falta de uma perspectiva boa para o futuro. Atuante desde 2007 na área com atendimento clínico home-care e online de adolescentes, adultos e idosos, a profissional formada pela Faculdade Metropolitanas Unidas acrescenta que esses problemas podem se agravar muito se forem vinculados a questões financeiras, provavelmente uma realidade no pós-pandemia, e eventuais má relações com os parentes. “A falta de contato com as familiares e a falta do toque influenciam muito, além da questão financeira, já que a gente não sabe quem vai continuar trabalhando quando a pandemia acabar”, diz Silvana.

Um abrangente estudo científico com 45.161 brasileiros verificou que 40,4% das pessoas se sentiram tristes ou deprimidos e 52,6% ansiosos ou nervosos durante a pandemia. A publicação foi feita na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde, a partir da pesquisa “ConVid – Pesquisa de Comportamentos”. Esta pesquisa foidesenvolvida pela Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com dados coletados entre 24 de abril e 24 de maio de 2020. Adultos jovens de 18 a 29 anos foram os mais afetados, incluindo com a perda na qualidade do sono, mulheres tiveram o dobro de propensão para enfrentar esses problemas, e pessoas que já tiveram antecedentes de depressão tiveram o dobro de chance de apresentar sentimentos negativos nesta pandemia.

Outro estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) realizado em dois momentos específicos, de 20 a 25 de março e de 15 a 20 de abril, detectou que os índices de depressão na quarentena dobraram, passando de 4,2% para 8%. A pesquisa foi feita com base nas respostas de 1.460 pessoas espalhadas por 23 estados brasileiros.

Jovens estão entre os mais afetados

Em Portugal, jovens universitários registraram um aumento significativo de perturbação psicológica (ansiedade, depressão e estresse) durante esta pandemia em relação a períodos normais. O estudo da Universidade Católica Portuguesa questionou 460 jovens de cursos variados como psicologia, ciências da comunicação, enfermagem, turismo e geologia para saber como eles estavam se sentindo. Chama a atenção o aumento substancial de alunos que disseram que a maior parte das vezes responderam positivamente “que a minha vida não tinha sentido” ou “que não tinha nada a esperar do futuro”.

Considerada como “o mal do século”, a depressão é sorrateira e muito discriminada. De acordo com Andrew Solomon, em entrevista para a Folha de S.Paulo, muitas pessoas acham que saúde mental não é essencial nesse momento. “Vivemos em uma subnotificação de problemas em escala catastrófica, e há consequências muito sérias. Como temos que lidar com uma doença grave, a Covid-19, as pessoas acabam achando que saúde mental é luxo. Não é luxo, as pessoas morrem por causa da depressão”, alerta o professor de psicologia da Universidade Columbia, nos Estados Unidos.

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Estudos mostram que a depressão cresceu durante a quarentena – Foto Gerd Altmann/Pexels

Para a psicóloga Silvana Cardoso, outro fator que merece a atenção é a ansiedade. Muitas pessoas ficam mais ansiosas com o quadro depressivo. Nesta quarentena, aumentou o número de clientes que a procuram se queixando disso: “As pessoas ainda não estão tendo dimensão de como o quadro de depressão na quarentena está aumentando. A depressão acaba sendo mais silenciosa e, às vezes, quem é vítima disso interpreta apenas como uma tristeza, ainda mais com a banalização da doença por parte das pessoas ao seu redor a todo momento”.

O diagnóstico da depressão

O jovem Felipe de Almeida Lopes, 18 anos, estuda economia na Universidade São Judas Tadeu e teve diagnóstico de depressão em abril de 2020. Ele já sentia os sintomas há mais ou menos 6 anos, porém o diagnóstico preciso do médico só foi feito durante a pandemia. Para ele, é preciso que as pessoas mais próximas também se conscientizem sobre a seriedade do tema. “A boa relação é fundamental. A pessoa com depressão necessita de acolhimento e amparo de todos os lados possíveis num momento tão instável como esse. E ninguém melhor que a família e os amigos para isso”, aconselha Lopes.

Já o também estudante Henrique Santana, 18 anos, diz acreditar que a relação dos jovens com suas famílias e amigos é importante nessas horas. “Sinceramente, minha família nunca esteve ciente, pois era emancipado quando menor, então nunca contei, mas bons amigos para me ajudar na caminhada sempre foram essenciais. Sem uma boa relação no ambiente em que quem possui depressão vive, qualquer coisa pode acarretar uma crise”, afirma.

A psicóloga Silvana Cardoso afirma que os responsáveis pelo retorno das aulas presenciais devem prestar atenção a esse momento peculiar na vida dos jovens. Para ela, o suporte psicológico deveria ser obrigatório. “As crianças e adolescentes estão indo com a expectativa de algo que não condiz com a realidade, ou que pelo menos não deveria ser, que seria voltar ao que aconteceria antes. E todo um normal (eu não gosto dessa palavra), que ocorria antes, e que não vai poder acontecer. Não é só voltar de máscara, é voltar distante, sem poder brincar reunido com a turma no intervalo, sem poder dividir lanche e encostar no amigo”, alerta ela.

A bomba-relógio está armada e o cenário não é dos melhores. Assim como o Brasil se revelou incapaz de enfrentar a pandemia do novo coronavírus, ele já apresenta indicadores de que a situação para lidar com problemas mentais serão insuficientes. Segundo o levantamento Demografia Médica no Brasil 2018, da Universidade de São Paulo, existem 5 psiquiatras para cada 100 mil habitantes do Brasil. Nos Estados Unidos e no Japão, há 15. E na Suíça, o mais que apresenta a maior taxa desses profissionais, a proporção é de 51 psiquiatras para 100 mil habitantes.

Veja no vídeo abaixo o importante relato do calouro casperiano Felipe Amorim, 17 anos, que fala como superou a depressão:

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