Da zaga à Marta, que emocionante é uma partida de futebol (delas!)

Por Danielle Gracia, Felipe Araújo, Letícia Brito, Marcelo Ogata e Vitória Pires

Os passes que deixaram as meninas na cara do gol.

“Esporte foi criado para homens e por homens, e a gente tem que trabalhar todo dia para conseguir um espaço nisso” afirma Bianca Gomez, técnica do time masculino de futsal da ECA – USP, em entrevista. Para o futebol feminino, não existe fairplay. Jogadoras e equipes ao redor do mundo ainda sofrem com baixos salários, pouco patrocínio (em relação aos homens), pouco incentivo por parte da sociedade e preconceito de uma maneira geral, tendo sua tradição, história e importância para a cultura do esporte subestimadas.

No ambiente universitário, não é diferente. “Pra gente [mulheres], é mais difícil. A gente vê menino entrando na graduação que é ex-atleta e já é convidado abertamente pra começar essa experiência do esporte universitário – enquanto a gente tem um espaço um pouco restrito. (…) A gente depende muito de amigas que já estão nesse espaço para inserir outras” comenta Gomez. 

A copa do mundo feminina deu mais visibilidade para as mulheres no esporte e, segundo o Ibope, a audiência do esporte pelo público feminino cresceu 30% no período entre 2014 e 2018, atingindo especialmente jovens entre 25 e 34 anos. Em relação à população em geral, houve um aumento de 51% nas transmissões dos jogos femininos. Esse crescimento, porém, não é de hoje e tem sido construído e articulado através dos anos, por mulheres que ousaram vestir as chuteiras e marcar um gol para a igualdade de gêneros. 

Enquanto o futebol jogado por homens teve sua primeira partida “oficial” em 1864, na Inglaterra, não muito tempo depois, em 1898, mulheres inglesas deram seu primeiro pontapé no esporte, numa partida disputada contra escocesas, em Londres.

Desembarcando no Brasil, Charles Miller trouxe o futebol para as terras tupiniquins em 1895 – e, assim como na Europa, mulheres também saíram a campo logo após, em 1921, em uma partida ocorrida em São Paulo entre senhoritas catarinenses contra tremembeenses. Contudo, as notícias sobre as primeiras futebolistas provocaram reações majoritariamente negativas na população e nas autoridades. O esporte  era considerado violento e ideal apenas para homens, segundo o senso comum da época.

O ápice desta discriminação se deu com a promulgação do Decreto-lei n.º 3.199/41, cujo artigo 54 considerava a prática do futebol pelas mulheres “incompatível com as condições de sua natureza”. O decreto-lei, instaurado pelo então presidente do Brasil, Getúlio Vargas, foi revogado somente em 1979.

Jornal Correio do Paraná de 13 de junho de 1959, fala da proibição do futebol feminino no Brasil pelo Conselho Nacional de Desportos (Foto: Correio do Paraná/Reprodução)

O cartão vermelho dado por Vargas foi o maior, porém apenas mais um dos obstáculos impostos à modalidade, alguns dos quais persistem até hoje. A falta de recursos e patrocínio das seleções femininas advindas do machismo existente no âmbito esportivo, por exemplo, ilustra uma das maiores dificuldades das jogadoras atualmente. A receita de patrocínios da última Copa do Mundo masculina alcançou US$ 529 milhões, enquanto a do Mundial feminino, uma das maiores rendas até então, foi de apenas US$ 17 milhões (aproximadamente 3,2% da arrecadação dos jogadores homens).

O senso comum da Era Vargas tem reminiscências fortes até hoje em relação a mulheres e o esporte, segundo Bianca Gomez. “A maior dificuldade (…) eu acho que foi uma questão de quebrar aquela casca, aquela resistência – porque você cresce num mundo onde o futebol é dos meninos; a rodinha de conversa da família só tem os homens; você entra na faculdade e os grupos de estudos são formados por homens e aí, de repente, você está sozinha com trinta homens na sua frente e você ter quem falar com os homens (…) não foi culpa deles (particularmente falando), mas foi uma coisa do todo, de sociedade, da condição da mulher no esporte como praticante, como atuante profissional.”

Um dos primeiros clubes a ter uma equipe de futebol feminino que se tem registro no Brasil foi o Araguari Atlético Clube, de Minas Gerais, fundado em 1958. O clube foi criado com a expectativa de evitar a falência da escola de Araguari. Dessa forma, foi proposto um jogo diferenciado, sendo jogado apenas por mulheres. Eleuza, Zalfa, Darci, Maria de Fátima, Heloísa, Ormezinda, Marizete, Nilza, Luci, Maria da Penha, Haidê, Neli, Maria, Jane, Nadima e Cirlene são alguns dos nomes que fizeram parte desse evento, comandadas por Luiz Teixeira. Jogaram muito além dessa partida, permanecendo juntas por quase um ano, inclusive lotando estádios em Belo Horizonte e Salvador, mas em consideração de todas as dificuldades que as mulheres enfrentavam na época, o time sofreu sua pior derrota em 1959, quando viu seu fim.

Curiosamente, a ideia de realizar uma Copa do Mundo Feminina surgiu em 1986, durante o evento mundial que estava ocorrendo no México, por um dos delegados da FIFA. O plano se concretizou em 1991 e apenas em 2019 a Rede Globo anunciou a primeira transmissão dos jogos da seleção na televisão aberta brasileira.

Este foi o ano em que o futebol feminino ganhou mais destaque nas mídias e redes sociais em razão da Copa do Mundo sediada na França. O assunto dominou as menções no mundo na primeira vitória do Seleção Brasileira por 3 a 0 contra a Jamaica. A tag #GuerreirasdoBrasil atingiu o primeiro lugar dos assuntos mais comentados do Twitter brasileiro:

A capa do mês de junho da Vogue Brasil, estampada com uma foto de Marta depois da Marta, por exemplo, foi capa da Vogue Brasil no mês de junho. Além disso, a FIFA aprovou a expansão da copa do mundo feminina para 32 equipes na edição de 2023, igualando-se ao torneio masculino que já tem esse formato desde 1998.

Após o hype da Copa, o futebol feminino segue em ascensão no Brasil. Responsabilizado pela eliminação da seleção brasileira no mundial, o técnico Vadão foi cortado da equipe e substituído por uma treinadora mulher, a sueca  Pia Sundhage (que já havia sido bicampeã olímpica). O jogo de estreia de Pia, com vitória de 5 a 0 contra a Argentina, reuniu mais de 13 mil espectadores no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, no dia 29 de agosto.

Vitoriosa na Copa do Mundo, a seleção americana, liderada por Megan Rapinoe, em protesto contra tweets preconceituosos de Donald Trump, se negou a visitar a casa branca após a vitória. Em declaração à revista Eight by Eight a atleta se negou a comparecer por não concordar com as políticas do presidente. 

* Com informações dos sites https://www.ultimadivisao.com.br/futebol-feminino-no-brasil-a-historia/ 

https://interativos.globoesporte.globo.com/futebol/selecao-brasileira/especial/historia-do-futebol-feminino

https://www.kantaribopemedia.com/audiencia-do-futebol-registra-crescimento-entre-as-mulheres/

https://www.lance.com.br/mundial-feminino-19/megan-rapinoe-estrela-copa-mundo-que-desafiou-donald-trump.html

https://www.nexojornal.com.br/reportagem/2017/05/28/No-pa%C3%ADs-do-futebol-as-mulheres-jogam-com-menos-falta-sal%C3%A1rio-p%C3%BAblico-e-estrutura

https://www.nexojornal.com.br/reportagem/2017/05/28/No-pa%C3%ADs-do-futebol-as-mulheres-jogam-com-menos-falta-sal%C3%A1rio-p%C3%BAblico-e-estrutur

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1 comentário em “Da zaga à Marta, que emocionante é uma partida de futebol (delas!)”

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