Imagem ilustrativa de reportagem sobre cursos online

Novos caminhos para o mercado de trabalho: a formação por cursos online de tecnologia

Profissionais da área de tecnologia relatam suas experiências com cursos online em meio a um mercado de trabalho em mudança.

Por Felipe Erlich, Felipe Parlato, Giulia S. P. Lozano, Leonardo Caparroz, Luca Girardi, Silvio Júnior e Vinicius Silvestre.

O mercado de trabalho vem mudando: como alternativa ao ensino superior formal, a busca por cursos online livres ganhou força nos últimos anos. Desde especialização a recolocação profissional, plataformas online dão oportunidades de se obter conhecimentos específicos, de maneira mais barata e flexível, e se tornam uma alternativa àqueles que pensam em mudar de área sem se arriscar a largar o emprego ou investir em uma faculdade tradicional.

É inegável que uma formação acadêmica conta muito na hora da contratação, porque as maiores taxas de emprego e melhores salários são daqueles com ensino superior. Segundo um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 2020, brasileiros de 25 a 64 anos com diploma de ensino superior com renda de emprego em tempo integral ganhavam 144% a mais do que trabalhadores em tempo integral, com apenas ensino médio concluído, em comparação com 54% em média em todos os países da OCDE. Os dados do Brasil se referiam ao ano de 2015.

Além disso, a OCDE explica que, em média, nos países associados, a taxa de emprego em 2019 foi de 61% para pessoas de 25 a 34 anos sem ensino médio, 78% para aqueles com ensino médio completo e 85% para aqueles com o ensino superior.

Mas mesmo assim não é certeza que um curso superior garantirá uma vaga. Segundo um levantamento de 2020 da IDados, 525 mil jovens com ensino superior são considerados “sobre-educados”, ou seja, ocupam vagas menos qualificadas que não exigem seus diplomas.

Além disso, o acesso a cursos superiores ainda não é uma realidade para todas as pessoas. Segundo dados do Inep, apenas 21% dos adultos brasileiros de 25 a 34 anos têm ensino superior completo. As razões variam. Muitas vezes, o indivíduo não tem disponibilidade para investir tempo e dinheiro em uma faculdade. 

Nessa situação, muitos jovens aproveitam o formato online, como é o caso de Moisés Guilherme, hoje desenvolvedor de software. Formado em Arquitetura, ficou sem emprego durante a pandemia, quando o escritório onde trabalhava fechou. Felizmente, a convite de uma amiga, logo começou a trabalhar na parte administrativa de uma startup, onde se interessou por programação e resolveu aprender a atividade por meio de cursos online.

Mundo digital

Moisés conta sua experiência com cursos online. Fonte: arquivo pessoal.

“Eu comecei a procurar vídeos no YouTube. Quando eu consegui juntar uma grana, comprei um curso em uma plataforma, e nessa plataforma eu consegui fazer um curso de ponta a ponta e me certifiquei”, conta. Foi por meio de dicas de amigos e cursos online que Moisés se especializou em softwares e, no final de 2020, se transferiu para a área de desenvolvimento da empresa.

“Eu ia começar a faculdade. Foi quando o dono da startup onde eu trabalhava me disse: ‘nem inventa de começar. Na nossa área não pedem diploma e você vai ver coisas que não estão tão condizentes com o mercado de trabalho’. E quando eu fui ver a grade do curso, realmente tinha muita coisa que eu já tinha visto”, lembra o hoje programador.

Moisés não é o único a entrar na área de programação dessa forma. Atualmente, o segmento de tecnologia possui uma grande demanda por profissionais qualificados. Segundo um levantamento do LinkedIn, nove em cada dez vagas anunciadas em julho de 2020 eram ligadas ao mundo digital. A contratação de profissionais qualificados por cursos técnicos é uma alternativa para suprir essa demanda.

Empresas como Google e Apple não requerem mais um diploma universitário para suas contratações. Uma das possíveis razões seria o alto valor das mensalidades de universidades norte-americanas. No Brasil, isso não é muito diferente. Segundo um estudo do Guia do Estudante de 2017, a mensalidade de uma faculdade de Análise de Desenvolvimento de Sistemas custava, em média, R$750,98, cerca de 80% do salário mínimo da época.

Uma visão fundamental ao pensar em como os cursos online estão impactando o mercado de trabalho é a de quem recruta. Allan Araújo é recrutador técnico da empresa NextonLabs e desenvolvedor de software, assim como Moisés. Mesmo tendo formação superior, Allan considera os cursos online uma alternativa válida e, no momento, necessária para a formação de profissionais na área. “Os cursos hoje cobrem muito dessa lacuna de não saber nada sobre programar até a realização de um teste de recrutamento”, afirma.  

Allan ressalta a questão do custo dos cursos superiores no Brasil: “Hoje, para alguém ingressar no mercado, eu recomendaria, considerando a realidade do brasileiro médio, um curso de seis meses a um ano, em vez de uma faculdade de quatro anos que ele estatisticamente não vai terminar, principalmente pela questão do custo” – uma vez que, em algumas áreas, o mercado não exige diploma.

Mercado de trabalho

Allan explica o lado do recrutador. Fonte: arquivo pessoal.

Quanto à formação superior, ele considera que muito do que vai ser aprendido não será usado na prática. Portanto, na situação de se especializar ou do desejo de mudar de área, o curso online é o recomendado. “É uma tendência optar por apenas um curso ou um curso técnico. É muito mais caro fazer faculdade, me parece muito melhor fazer um curso. A barreira de entrada é mínima”, diz.

Porém, o contratante não descarta o curso superior, pois, segundo Allan Araújo, mesmo que não seja tão prático quanto o online, ainda tem conhecimentos importantes para a formação profissional. “Um jovem de 17 anos vai escolher fazer faculdade, aí tudo bem”, lembra. Quando a pessoa é jovem e ainda não tem a urgência de entrar no mercado de trabalho, Allan ainda considera que fazer um curso superior é uma boa forma de se profissionalizar. 

Na hora da contratação, o fundamental é a experiência. Para Allan, pouco importa o tipo da formação. Desde que o candidato saiba solucionar as questões que lhe são propostas, ele está apto para trabalhar na empresa. Quanto a isso, o recrutador considera que os cursos técnicos são uma ótima alternativa para formar e inserir rapidamente um profissional no mercado de trabalho. A partir dessa primeira vaga conquistada, ele rapidamente vai adquirir experiência, se qualificando melhor para o mercado. “Hoje em dia, o que conta aqui no Brasil é experiência. Aqui a gente quer alguém que já saiba fazer aquilo que eu peço”, acrescenta.

As novas plataformas de acesso à educação são uma realidade que não pode mais ser desconsiderada, ainda mais a partir da ampliação do uso das mídias digitais impulsionada pela pandemia. Um diploma tradicional de ensino superior é extremamente benéfico, já que, em teoria, proporciona uma experiência mais profunda com o curso desejado e salários melhores. Entretanto, em algumas áreas, esse cenário vem mudando. “Pelo menos na tecnologia, tem essa questão da rapidez. E o curso que já é voltado para uma área específica da tecnologia vai te dar especificamente o que o mercado está buscando. Na faculdade você vai estudar coisas bem técnicas mais aprofundadas”, lembra Moisés.

Cursos online, vídeos no YouTube, livros disponibilizados em bibliotecas digitais são exemplos de que esse setor vem crescendo. Ainda é difícil traçar a linha que mostra quando a faculdade pode ser substituída por cursos na internet, ou ainda saber qual pesa mais na hora da maioria das contratações. Mas é inegável que recursos online bem fundamentados podem atuar como excelentes fontes de informação e formação, aliados da educação e ótimas alternativas para aqueles que desejam ampliar conhecimentos e expandir seus horizontes.

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