Literatura infanto-juvenil

Como a literatura infanto-juvenil afeta as crianças hoje em dia

Nos dias atuais, a literatura infanto-juvenil apresenta uma representatividade de minorias muito maior quando comparada aos tempos antigos. Desse modo, é natural ler livros com protagonistas LGBTQIA+, negros, PCDs, etc. o que promove um melhor entendimento sobre questões de gênero, sexualidade, etnia entre outros.

Como a literatura infanto-juvenil se modificou durante a história?

A literatura nada mais é do que um reflexo da sociedade. No início do século XX, por exemplo, pouco após a abolição, era comum aparições de personagens pretos extremamente estereotipados, tais como Tio Barnabé e Tia Nastácia, de Monteiro Lobato. A representatividade negra e LGBTQIA+ na época ainda era um grande tabu. Além disso, a maior parte da população negra ainda era analfabeta, estimulando ainda mais uma visão elitizada. O público infantil aprende a partir da repetição, por isso, ao identificar certos padrões preconceituosos nos conteúdos consumidos, eles acabam absorvendo aquilo como uma verdade concreta. 

Com o passar do tempo, estes assuntos começaram a entrar em tópico e serem debatidos, gerando uma conscientização da população e, assim, se normalizaram essas questões. Hoje em dia, o enfoque das narrativas é voltado muitas vezes para a inclusão de grupos sociais que não eram lembrados anteriormente. Um dos exemplos mais conhecidos é o livro Extraordinário de P.J. Palacios. Segundo o site PublishNews, o livro teve mais de 73 mil cópias vendidas nos dois primeiros anos. Assim, entrando para a lista top-20 mais vendidos da literatura infanto-juvenil, a obra se tornou um Best-Seller ao redor do mundo.

Extraordinário: um dos livros mais comoventes sobre inclusão

De fato, o garoto Auggie ganhou o coração de milhares de leitores. Devido a uma síndrome, o jovem teve uma deformidade facial e, além disso, estava entrando em uma nova escola. Assim, o livro relata a dificuldade de Auggie em fazer novas amizades devido ao seu problema. Dessa forma, no decorrer do enredo, existem diversos momentos comoventes, que trouxeram à tona um assunto pouco comentado na época, visto que o livro foi lançado em 2012.

Essa visibilidade foi, de fato, um gatilho para o crescimento desse assunto na literatura infanto-juvenil. Esse espaço foi para além das livrarias e ganhou as telas de cinema e nos teatros ao redor do mundo, ganhando filmes e musicais inclusivos e que trazem uma mensagem de conscientização sobre a importância de abordar assuntos da minoria.

Foto: Divulgação/ Ksenia Chernaya

Mas qual a importância de ter essa representatividade na infância?

É no período da primeira infância (do nascimento aos 6 anos) que a criança atinge o auge do aprendizado. Seu contato com o mundo influencia a formação de ideias, relações e autoestima. Por isso a literatura nesse período tem um papel essencial no desenvolvimento da imaginação, na ampliação do vocabulário, na alfabetização e, principalmente, no entendimento das coisas ao seu redor. 

Em entrevista concedida, a Psicanalista Patrícia Firmino, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise integrativa SBPI/SP, disse:

“Na criança, pelo olhar psicanalítico, a fase em que se começa a leitura é uma fase de acessar os símbolos, romper o imaginário. Ela é um pequeno humano imerso em uma dimensão simbólica. O impacto positivo do acesso à leitura é assumir uma posição no mundo e ganhar autonomia…O acesso aos livros, à simbologia e a esse mundo imaginário traz um impacto positivo no desenvolvimento das cognições, logo, não ter acesso a isso impacta negativamente, tira realmente desse sujeito a chance de assumir seu papel no mundo também através dos livros, da arte e do imaginário. A leitura desenvolve cognições que precisam ser desenvolvidas”.

Facilidade na quebra de barreiras das crianças

Outro ponto positivo para se observar, é a facilidade com que crianças têm de quebrar barreiras criadas no decorrer da história. Isso ocorreu com o livro Imagináries, do autor Pedro Mendonça, feito de acordo com a linguagem neutra, para ser ainda mais inclusivo. Em entrevista dada a Factual 900, o autor revela que para muitas crianças foi o primeiro contato com a linguagem neutra. Contudo, a reação delas após algum tempo foi o mais impressionante: 

“Vinha a palavra com o gênero neutro e a criança parava e falava que não é desse jeito que se escreve, se quem escreveu não sabia que não era desse jeito. Daí vinha a problematização,  que pode-se escrever adulte sem problema…. Mas é muito curioso que a criança tem maior permeabilidade, maior abertura na maioria das vezes com relação a essas questões,  a maioria das reações são nesse sentido, que há um estranhamento inicial, que é absolutamente natural porque a pessoa não foi exposta a isso ainda. Mas diferente de nós, adultos, não tem esses preconceitos e barreiras. Cada um inventa a natureza que melhor lhe caiba, como diz uma letra de Elza Soares.” 

Pedro Mendonça, autor de Imagináries

O jogo está virando

Dessa forma, quando dizemos que as crianças são a esperança, é exatamente sobre essa evolução que estamos nos referindo. A contínua mudança que está em pauta vem ocorrendo e só tende a continuar fortemente. A abordagem que as escolas infanto-juvenil estão tendo com o assunto também é completamente diferente do passado. Assim sendo, podemos afirmar que finalmente as minorias estão tendo a visibilidade que sempre mereceram. 

Diante disso, era comum a produção e venda de livros com situações extremamente preconceituosas e que rebaixaram as minorias, mesmo que às vezes estivesse enraizada no leitor e no próprio escritor. Contudo, nos dias atuais, e entre outros, graças a visibilidade das comunidades negra, LGBTQIA+, indígena, PCD, entre outros, percebemos que o jogo está virando.

Por fim, vemos que a antiga e estereotipada literatura infantil ficou para trás. Atualmente, é cada vez mais comum ter acesso a livros ou conteúdos literários para o público infantil que atenda a todos os públicos, do mais diversos temas sobre minorias. Entretanto, ainda não se pode abaixar a guarda, visto que, casos de lgbtfobia, racismo e violência contra as mulheres ainda é extremante comum em nosso país.

Por Felipe Voivodic, Gustavo Bucchi, Larissa Saavedra, Luis Lima, Mariah Cavalheiro, Murilo Frota.

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