Brasil em chamas: como as queimadas afetam a existência dos seres vivos

Em 2020, queimadas causaram morte e destruição de biomas. Essa preocupação voltou à tona em agosto de 2021, alarmando especialistas sobre a extinção das espécies 

Na última terça-feira (21), o presidente Jair Bolsonaro abriu seu discurso na 76ª Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, na cidade de Nova York. Ele abordou um dos assuntos mais esperados do evento: a questão das queimadas no meio ambiente brasileiro. 

Segundo Bolsonaro, “na Amazônia, tivemos uma redução de 32% do desmatamento no mês de agosto, quando comparado a agosto do ano anterior”. Entretanto, por mais que haja veracidade nos dados apresentados, os fatos atuais sobre a devastação dos biomas nacionais foram ignorados pelo presidente.

Por conta dos incêndios recentes, 265 espécies sofrem maior risco de extinção na Amazônia, sendo 180 da fauna e 85 da flora, de acordo com a organização World Wildlife Fund Brasil (WWF- Brasil). Com o habitat destruído, há a diminuição de alimento para animais, gerando a extinção, afirma Gustavo Figueiroa, biólogo da ONG SOS Pantanal e especialista em manejo e conservação de fauna silvestre. “As queimadas, além de liberarem CO2 na atmosfera, consomem matéria orgânica, diminuindo a quantidade de alimento para os animais que comem plantas. Assim, eles ficam debilitados. Então é um efeito cascata.”

Existe negligência por parte do Estado? 

Desde a década de 70, o Estado brasileiro ignora os problemas ambientais nos biomas do país. Além disso, incentiva o povoamento de migrantes advindos do sul e sudeste para os estados do Acre e Rondônia, além do processo intenso de abertura de estradas nessas regiões da Amazônia. 

O descaso sobre as questões ambientais se intensificou no governo do atual Presidente. Com suas falas polêmicas e recordes de queimadas tanto no Pantanal quanto na Amazônia, é possível afirmar que a administração pública está colaborando para o fim dos focos de incêndio que se alastram no Brasil? 

Segundo Eduardo Britto, geógrafo e professor, a negligência do poder público nos casos de desmatamento é notória: “O Brasil é signatário do Acordo de Paris e em uma das metas prometeu acabar com o desmatamento da Amazônia até 2030. Entretanto, com os dados e informações disponíveis fica difícil [o Acordo] ser cumprido. Há um negligenciamento desta questão, sim.” 

Durante a gestão de Ricardo Salles no Ministério do Meio Ambiente, o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) registrou a destruição na Amazônia Legal que totalizou 810 quilômetros quadrados no referido mês, um aumento de 216% em relação a março de 2020.

ONGS e brigadistas: indispensáveis no combate 

Para combater esses incêndios, tanto os ilegais quanto os naturais, existe uma movimentação de instituições que visam a preservação dessas áreas. Os brigadistas são um grupo de voluntários que recebem um curso para exercício em áreas de risco de incêndios, como as florestas. São eles e os bombeiros civis que atuam nas Unidades de Conservação (UCs), preservando e combatendo as queimadas. 

O grupo recebe o treinamento do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que nesse ano atendeu pelo menos uma unidade em todos os estados do país e no Distrito Federal. Eles trabalham em três frentes: prevenção, monitoramento e combate para salvar a vida de centenas, até milhares, de espécies de seres vivos que vivem nesses ambientes afetados pelas queimadas. 

De acordo com o brigadista, gestor ambiental e especialista em incêndio florestal, Anderson de Freitas, o encontro com animais incinerados, sofrendo de dores e clamando por socorro é uma das piores experiências que já passou. “É muito triste, deprimente. A gente se sente muito mal, é claro. Mas não é só com animais. A perda de vidas humanas também acontece durante incêndios florestais, e isso é muito triste, pois é uma coisa que não precisava acontecer, na grande maioria das vezes. Esses incêndios não precisavam estar acontecendo”, ressalta.

Área de queimada na beira da rodovia BR362 no trecho entre as cidades de Miranda e Corumbá, próximo a Estrada Parque Pantanal. Fonte: Silvério Hosomi

O voluntário e instrutor de brigada florestal também comentou sobre técnicas de combate que são utilizadas na proteção específica da cobertura vegetal, porém frisou que, em incêndios maiores, a salvação desses seres se torna muito mais complexa. “Se tem prioridades, claro. Vidas humanas, espécies endêmicas… Mas em incêndios muito grandes, se trabalha no combate àquilo que seus recursos permitem. Existem espécies que recebem tratamento especial, às vezes, recebendo a atenção exclusiva de uma brigada inteira, em sua conservação”.  

Além de brigadistas e voluntários, as Organizações Não Governamentais também trabalham pela conservação dos biomas brasileiros. Elas evitam maiores danos e até um possível desaparecimento dos ecossistemas, sobrevivendo através de doações e trabalho voluntário. 

No Brasil, existem inúmeras instituições alinhadas à preservação da fauna e da flora atuando nos mais diversos biomas do país – O Instituto Cerrados, a SOS Mata Atlântica, o SOS Pantanal e a SOS Amazônia são algumas das maiores em suas respectivas áreas de exercício. 

Já desgastados, biomas brasileiros sofrem com o aumento de queimadas pelo país 

Amazônia

Um estudo realizado pela World Wide Fund (WWF) revelou que novas espécies são descobertas na Amazônia quase diariamente. Entretanto, há uma preocupação de que muitas não sejam sequer estudadas caso o avanço da fronteira agrícola continue pelo norte do país. O geógrafo Eduardo Britto teme que o mesmo que ocorreu na Mata Atlântica aconteça na maior floresta tropical do mundo: “Muito do que poderia ter sido feito, não aconteceu. Estima-se que na Amazônia aconteça a mesma coisa. Muito do que a gente ainda não conhece, vamos perder”.

Em 2020, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), responsável pelo monitoramento via satélite do território amazônico desde 1988, constatou a ausência de cerca de oitocentos mil quilômetros quadrados da Amazônia Legal. O aumento é 57,7% maior do que o ano anterior, quando a floresta registrou 59 601 focos de incêndio.

Caatinga

Já a Caatinga, o quarto maior bioma brasileiro, enfrenta uma ameaça constante de queimadas. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em 2021, elas aumentaram em 164% nessa região em relação ao ano anterior. 

Os motivos são o aumento da agricultura e as mudanças climáticas, que causam a antecipação da seca na Caatinga. Segundo o biólogo  e professor universitário da Unoeste, Silvério Takao, a atividade humana é a grande geradora dos incêndios nos biomas, que muitas vezes acabam ferindo e matando espécies. “Grande parte dos incêndios são provocados pelo homem diretamente, outra forma são resíduos como latas, vidros jogados pelas pessoas que podem numa combinação atuar na produção de fogo”, explica.

Cerrado 

Por outro lado, em alguns períodos, as queimadas no Cerrado são comuns para o benefício da flora. Entretanto, quando os focos de incêndio ocorrem fora de época, acabam prejudicando espécies do local. Takao relata a relevância das queimadas naturais para o bioma: 

Espécie ameaçada de extinção, o Tamanduá bandeira (Myrmecophaga tridactyla) foi um dos resgatados em área queimada no Pantanal. Infelizmente, após alguns dias, não resistiu. Fonte: Silvério Takao

“As queimadas naturais acabam sendo importantes para algumas espécies da flora florescerem e/ou germinarem. Algumas sementes apresentam uma dormência morfológica e as queimadas ajudam a remover essa dormência. Elas também contribuem para um controle da proliferação de outras espécies vegetais.”

Acontecendo de forma esporádica e em pequenas proporções, as queimadas naturais, enquanto maléficas, acabam precisando da restauração do bioma. “Existem várias técnicas de restauração, mas tudo depende dos recursos financeiros disponíveis, mão de obra e equipamentos”, diz o biólogo Takao, que participou de uma campanha ano passado para arrecadação de alimentos, materiais cirúrgicos e remédios para a recuperação de animais queimados para uma base da Polícia Militar Ambiental em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, em 2020.

Há uma resiliência maior no cerrado comparado aos outros biomas, sendo assim, é passível de restaurações por meio de regenerações naturais. Com isso, favorecendo o habitat de vários seres vivos.

“O Cerrado é um bioma que apresenta uma resiliência maior em relação às queimadas. Alguns tipos de restauração seriam a regeneração natural, desde que mantenham as áreas cercadas para não sofrerem outras perturbações. O uso do banco de sementes do solo de outros locais e a chuva de sementes também são possibilidades”, critica Silvério.

Embora esse ambiente seja passível de restaurações, de 1970 a 2018, o Cerrado já perdeu metade de sua flora. Um fator alarmante, pois, além de ter diversas espécies endêmicas, é fundamental para a geração de energia, a partir das bacias hidrográficas do bioma.

Confira abaixo no Twitter da Factual900 mais detalhes sobre a extinção de espécies nesse bioma:

Pantanal

O Pantanal foi um dos biomas mais afetados em 2020, ano que apresentou os maiores registros de fogo na região desde o fim da década de 90, quando o monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) começou. 

Esse desastre ambiental foi apontado nas áreas do Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, na Serra do Amolar e no território indígena Guató, localizados próximos da fronteira com a Bolívia. Segundo um levantamento realizado pelo Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais (Lasa), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), nos meses de  janeiro a outubro os incêndios atingiram o correspondente a 28% da região do Pantanal, cerca de 4,1 milhões de hectares da área. 

O motivo do incêndio, que se propagou rapidamente por conta da seca extrema de 2020 na Bacia do Paraguai, é atrelado 98% às ações humanas na região, de acordo com o Ibama/PrevFogo, como a atividade intensa de expansão e limpeza de pastagens na região. 

           

Área queimada ao lado da Estrada Parque Pantanal no município de Corumbá – MS. Setembro/2020. Fonte: Silvério Takao

Uma pesquisa submetida ao periódico Scientific Reports, do grupo Springer Nature, no dia 14 de Setembro, contabilizou as carcaças que sobraram pela ação do fogo e informou que os incêndios do ano passado resultaram na morte subestimada de 17 milhões de animais vertebrados. “Esta é uma taxa estimada que a gente tem e o fato é bem além disso. Tem várias espécies que a gente não faz nem ideia da taxa populacional, vários animais que não morreram ali passam fome depois e vão competir com alimentos de outras áreas que não foram queimadas. É um impacto muito grande.”, continuou Figueroa. 

Para ele, em 2021 os incêndios continuam intensos principalmente devido ao período de seca na região. “A situação, comparada ao ano passado, está melhor. Mas não foi um bom ano para a gente comparar. Ano passado foi o pior incêndio da história, todos os outros anos estavam melhores. A situação está crítica sim, são quase 1 milhão de hectares que foram queimados no pantanal só em 2021. Estamos em alerta porque tem umas chuvas localizadas chegando, mas ainda não chegou a temporada de chuvas mesmo, ainda está na temporada de seca”, conclui. 

Mata Atlântica

A Mata Atlântica é muitas vezes associada à diversidade e está localizada em 17 dos 27 estados brasileiros. Entretanto, é possível que isso mude: o bioma possui a maior quantidade de espécies ameaçadas de extinção, apontada em cinquenta por cento do total de espécies registradas, de acordo com a reserva Legado das Águas, maior reserva privada do Brasil.

Para Silvério Takao, a prevenção dos incêndios, principalmente em biomas de grande riqueza de espécies, só é possível a partir da compreensão das pessoas. “A prevenção de acidentes demanda  uma conscientização de toda a sociedade, os proprietários rurais que deveriam evitar o uso de fogo nas propriedades e as pessoas que deveriam parar de jogar lixo nas estradas próximas às matas e evitar soltar balões”, explica.

Ainda segundo o biólogo, as Unidades de Conservação (UCs) são essenciais para a diminuição desses incêndios, juntamente com uma equipe de brigadistas e aparelhos de combate.

Extinção da espécie humana?

Será que as queimadas são capazes de levar à extinção? Eduardo Britto acredita que não. De acordo com ele, o volume de aproximadamente 7,8 bilhões de habitantes no mundo, a capacidade enorme de se recriar e o meio tecnológico não permitirão a extinção do homem na Terra. “Se tem perdas, mas se arruma sempre um meio tecnológico para deixar muitas questões, que devem ser discutidas, de lado. Infelizmente o ser humano continuará destruindo esse planeta por alguns milhões de anos”, conclui. Apesar da estimativa, o professor ressalta a real ameaça a povos tradicionais que dependem desses ambientes para sobrevivência, podendo passar, novamente, por um período de extermínio. 

O geógrafo também comentou sobre a possibilidade de futuro distópico no qual a maior floresta úmida do mundo seria quase totalmente desertificada. Segundo ele, esse cenário acarretaria em mudanças drásticas no modo de vida da população mundial. “Haveria uma readaptação evolutiva do ser humano. Teríamos, por exemplo, uma alteração na nossa forma de se alimentar, nos produtos que seriam produzidos. Somos um país tropical com um ritmo alimentício tropical. Alteraria também nossa condição econômica, uma vez que somos um país agroexportador e essa capacidade seria potencialmente perdida com a devastação da Amazônia. Aí vem a pergunta: viveríamos do que então? Pois o Brasil não é um país tecnologicamente preparado para outras funções e essas mudanças, de certa forma, influenciaram na nossa dinâmica global”, acrescenta. 

Em contrapartida, o biólogo Figueroa afirma que as queimadas podem fazer parte de um processo que leve o ser humano à extinção, mas não atuam sozinhas. “É uma sequência de eventos. As queimadas junto com vários outros fatores, o desmatamento, mudanças climáticas podem levar a extinção dos seres humanos. São vários fatores: mudanças climáticas, desmatamento acelerado, falta de água, eventos extremos que estão acontecendo, mais furacões, incêndios sem precedentes… Fatores que se o ser humano não mudar a relação com o meio ambiente, com certeza nós seremos extintos e levaremos um monte de espécies junto”, conclui.       

A fim de realizar um debate mais aprofundado sobre o futuro da espécie humana e sua possível extinção, a Factual900 entrevistou a jornalista, futuróloga e head do núcleo de inovação e futurismo da Up Lab, Lídia Zuin. O podcast, disponível na plataforma Spotify, aborda conceitos como o “ecogenocídio”, possibilidade de recuperação dos recursos da Terra, ocupação de outros planetas e muito mais!

Por: Camilla Guerreiro, Catarina Nestlehner, Gabriel Borgonovi, João Pedro Haiter, Letícia Iervolino, Maria Clara Matos

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