#BlackLivesMatter no Brasil. Só nas redes sociais?

Por Amanda Albero, Ana Lúcia B. Muneratti, André da Silva Costa, Marcela Almeida e Vinícius Gimenez Bueno

A hashtag #BlackLivesMatter, que emergiu novamente com força em meio à pandemia do novo coronavírus, ganhou o mundo. No dia 25 de maio, as brutais cenas do assassinato do negro norte-americano George Floyd, asfixiado por um policial branco por 8 minutos, viralizaram nas redes sociais. Uma série de protestos tem se sucedido nos Estados Unidos desde então. Mas por que no Brasil, onde a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado, as manifestações não ganharam tanta força como em outras partes do mundo?

“Cada vez que um jovem negro é assassinado, uma mãe negra chora lá na quebrada, ou no lugar que esteja da cidade”, afirma a jornalista Luciana Pioto. Para quem não conhece, a jornalista, apresentadora e atriz criou o canal Preta Também, no Youtube, em que traz informações do protagonismo negro. Em sua luta pela promoção da igualdade racial e a empatia, Luciana viu manifestações relacionadas ao movimento Black Lives Matter acontecerem no Brasil, porém de forma mais descentralizada.

O movimento como acréscimo à pauta brasileira

“O movimento dos Estados Unidos fez com que a gente, no momento de fragilidade, acordasse e nos juntasse a esse movimento de forma mais uníssona. A constituição da história dos Estados Unidos e a questão racial são muito diferentes das nossas”, completou. É importante, segundo a jornalista, lembrar que esse movimento entre os norte-americanos tem se concretizado ao longo das décadas.

Em várias cidades dos Estados Unidos, mesmo durante o isolamento necessário por causa da pandemia, violentos protestos ganharam as ruas, repudiando a ação dos policiais e prestando um tributo à morte de George Floyd. Frases como “Não consigo respirar” e “Sem justiça, sem paz” se tornaram onipresentes em revoltas presenciais e online. No Instagram, ganharam visibilidade a hashtag #BlackoutTuesday e até situações onde cenas de milhares de pessoas se concentrando nas ruas com cartazes e gritos por justiça. Prédios e veículos chegaram a ser incendiados e houve reação violenta da polícia. Grandes personalidades se pronunciaram em suas redes sociais como LeBron James, Chadwick Boseman, Terry Crews e Lewis Hamilton

Branco sai, preto fica

No Brasil, em 18 de maio deste ano, o menino João Pedro foi morto a tiros durante uma operação policial no Rio que buscava apreender e investigar chefes de tráfico. Um helicóptero levou o garoto, baleado na barriga para o hospital. Mas a sua família nem chegou a ser avisada. Somente após 17 horas de procura, os pais o encontraram no Instituto Médico-Legal do Rio de Janeiro, já sem vida.

Carla Xavier, ativista do Movimento Negro
Carla Xavier, ativista – Foto: Instagram

“Aquilo (caso do João Pedro) já era para ter causado revolta na população brasileira”, resume a atividade do movimento feminismo negro Carla Xavier. Para ela, os brasileiros costumam só se manifestar e ter empatia depois que algo muito escandaloso acontece fora do País, como no recente #BlackLivesMatter. “Isso que me entristece. O fato das pessoas terem se comovido, terem feito hashtag é momentâneo. Não é suficiente, é só uma onda vindo dos Estados Unidos.”

Luciana Pioto e Carla Xavier tocam num ponto que faz muita diferença e ajuda a explicar por que as reações à violência policial no Brasil não geram protestos como nos Estados Unidos. Há a ausência de pessoas negras na imprensa brasileira. Na prática, isso acaba criando um filtro das informações. No território norte-americano, a imprensa cobre as questões raciais sem estereotipar o cidadão negro.

Para a jornalista Luciana, é como se houvesse uma visão de fora para dentro, crendo numa imprensa hegemonicamente branca olhando para o que a população negra está dizendo e retratando do seu ponto de vista.

Profissões como mediadoras ao combate

Como comunicadores sociais, a ativista Carla Xavier e a jornalista Luciana Pioto têm como missão construir uma sociedade mais justa e igualitária. A ativista indicou sua credibilidade dentro do trabalho como ponto, positivo pois garante uma oportunidade para ter voz. Por outro lado, Luciana destaca políticas afirmativas, cotas e redações com mais representatividade.  

Ana Claudia Sanches Baptista, pesquisadora da USP e professora. – Foto: Reprodução.

A pesquisadora da Universidade de São Paulo e professora Ana Claudia Sanches Baptista, turismóloga com mestrado em Saúde Ambiental e doutora em Mudança Social e Participação Política, afirma que a educação é a chave para o combate ao racismo. É por meio dela que mudanças mais profundas podem começar a ser criadas dentro da sociedade, sem que precisemos ir na cola de movimentos como o #BlackLivesMatter.

“Eu trago muito essa reflexão do questionamento. Certa vez me disseram que nem todos os brancos são racistas. Eu perguntei quantos autores negros ela havia citado em seu trabalho acadêmico. Ela me respondeu que nem prestou atenção nisso. Essa é a questão. Como você não se importa em citar negros? Ou mulheres? Ou algum representante LGBTQ+? Quando você realmente se importa, você começa uma mudança. Caso contrário, nada muda”, lembra Ana Claudia Sanches Baptista.

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