Audiovisual na pandemia: luz, câmera e… tem ação?

Por Gabriel Teles, Nicole Leslie, Rodrigo Castanheira e Thiago Lacerda

De março a julho, a produção audiovisual em São Paulo simplesmente parou. A pandemia do novo coronavírus fez com que produtoras interrompessem, por completo, as gravações. A metrópole paulista concentra boa parte das empresas do setor e disputa, cada vez mais com o Rio de Janeiro, os cenários de locações para filmagens. Com o isolamento, equipes não tiveram autorização para ir às ruas gravar filmes, documentários ou peças publicitárias. De uma hora para outra, uma cadeia econômica que crescia em ritmo chinês, segundo dados da Agência Nacional de Cinema (Ancine), teve de desligar as câmeras.

O setor audiovisual enfrentou uma série de dificuldades por conta da Covid-19 no País. Departamentos que controlavam, regularizavam e incentivavam a produção criativa na cidade também precisaram se readaptar. Em entrevista à Factual900, a coordenadora de atendimento da São Paulo Film Commission, Carolinne Golfeto, contou que a maioria das produções audiovisuais, em um primeiro momento, tiveram de parar. Mas que, apesar da determinação, “as publicidades e gravações institucionais tiveram maior facilidade de suspensão”. Isso porque elas são produções que costumam ser gravadas em um curto período de tempo. Muitas recorreram ao formato adaptado de gravações por celular.

Gravar em espaço público é regulamentado por lei. Na cidade de São Paulo, especificamente, algumas produções audiovisuais precisam da autorização de um órgão específico, São Paulo Film Commission, para que possam ser legalmente efetuadas.

Mas, afinal, o que é Spcine?

Segundo o Decreto Nº56.905 de 2016, a Spcine é o órgão responsável por centralizar e operacionalizar os pedidos de filmagens na cidade. Portanto, a São Paulo Film Commission (visite o site clicando aqui), como também é chamada, atua como um escritório que desenvolve, financia e implementa programas e políticas para os setores audiovisuais, como TV e cinema. O objetivo dessa repartição é, também, estimular e reconhecer o potencial econômico e criativo das produções desse setor, além de visar um impacto positivo tanto social quanto cultural na capital paulista.

Vídeo: São Paulo Film Commission

Sempre que houver a necessidade de gravar em locais públicos municipais da cidade de São Paulo – incluindo espaços e equipamentos públicos, em que a gravação ocupe o solo ou interfira no fluxo de pedestres e/ou veículos – a Spcine precisa estar ciente e de acordo com as filmagens. O órgão é responsável por viabilizar gravações publicitárias e institucionais, videoclipes, séries, programas de TV, documentários, curtas e longas-metragens, produções acadêmicas, entre outras. No entanto, filmagens jornalísticas e de cunho pessoal são exceções.

Como a Spcine está lidando com a pandemia?

As gravações, por conta da pandemia, foram suspensas de meados de março até 10 de julho, ficando cerca de 4 meses interrompidas. A retomada gradual das atividades se deu por meio dos protocolos obrigatórios que foram criados em decorrência do cenário ainda alarmante da Covid-19 no país.

Carolinne afirmou que durante o período de suspensão das gravações na Spcine, houve um maior número de filmagens que não tiveram ou precisaram de autorização da empresa. Isso porque muitas delas acabaram sendo realizadas em áreas privadas, onde a posse do local era de alguém da própria gravação, ou com a utilização de drones, que depende de uma autorização da Aeronáutica.

A Spcine registrou uma diminuição na procura para autorização durante o período de maior isolamento social. “As produções nos procuravam por motivações diferentes”, diz a coordenadora. Ela explica que no período pré-pandêmico a procura era voltada para filmagens em espaços públicos municipais, enquanto que, no período de suspensão das gravações, foi mais voltada para consultoria em relação às previsões de retorno, impacto e viabilidade de produções futuras.

Em relação às mudanças que a pandemia estimulou na São Paulo Film Commission, Carolinne contou que, hoje, a empresa está autorizando um número menor de gravações do que costumava fazer antes da pandemia. “Porém, a quantidade de filmagens é crescente, principalmente no meio institucional e publicitário. Conteúdos estão retomando gradualmente”, complementou.

Imagem mostra câmera profissional preparada para gravar conteúdo audiovisual situada em um ambiente amplo e claro. Cena que poderia ocorrer, dependendo do contexto, no atual cenário da pandemia no país.
Foto: Shopify | Burst

E os profissionais da área?

Marco Vale, que há 17 anos leciona a disciplina de audiovisual na Faculdade Cásper Líbero, comentou sobre adaptação que as produções audiovisuais sofreram durante a pandemia. Com vários coordenadores de cursos que envolviam cinema, rádio e TV, o professor participou de uma reunião com a equipe da Spcine, em que a empresa apresentou seu trabalho e, principalmente, deu enfoque à uma campanha que buscava evidenciar aos cursos de comunicação que o órgão gostaria de trabalhar com seus alunos.

O professor disse, porém, que muitos estudantes tentam, ainda hoje, conseguir autorização para filmarem em parques ou ruas, mesmo que, legalmente, seja a Spcine o órgão centralizador responsável por tal liberação. Como exemplo, Marco disse: “se precisa filmar em um parque que exija uma autorização, é necessário o contato com a Spcine e não com a organização do local em si.”

Vale foi questionado se as gravações durante a pandemia têm funcionado:

Os problemas de filmagem estão sendo bem resolvidos pela Spcine? É possível obter bons resultado mesmo em plena pandemia?

“Eles estão fazendo o papel que o Estado deve fazer, que é orientar, regular e estabelecer protocolos de segurança a partir de uma consulta com vários profissionais do audiovisual. Uma vez feito isso, o papel passa a ser fiscalizar, porque é uma questão de saúde pública. Então, acho um trabalho muito bem feito. Conheço mais o trabalho da Laís Bodanzky, é uma excelente cineasta e tem uma obra muito bacana. Cheguei a entrevistá-la quando estava ainda começando. Dentro do possível, eu acho que um trabalho muito bem feito vem sendo realizado, pois o audiovisual teve que se reinventar com esse contexto. É uma situação inédita, podendo pensar que a última vez que o mundo havia enfrentado situação semelhante foi há 102 anos atrás. Em 1918, o cinema era mudo e televisão era ainda artigo de luxo”, completou o professor.

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