Ano Novo: o dia da virada em diferentes tradições

O ano-novo é um dos feriados mais esperados e queridos pela população. Visto como símbolo de renovação e fechamento de ciclos, ele proporciona celebrações por todo o país. Muitas das tradições e superstições do ano-novo têm sua origem em diferentes culturas, para tornar o próximo ano melhor do que o que se passou. Comer lentilha, por exemplo, vem da tradição italiana, enquanto abrir o espumante está ligado à importância do vinho na crença cristã. Até mesmo o nome que atribuímos ao feriado, o “Réveillon”, tem um significado histórico.

O termo surgiu na França, no século XVII, e representava as grandes festas da nobreza. Com a decadência da monarquia no país, o termo foi ressignificado para a virada do ano. A cultura francesa influenciou diversas realezas ao redor do mundo, fazendo com que elas aderissem ao uso do termo, incluindo o Brasil. Com o passar dos anos, porém, as festas de ano novo foram alterando-se, criando diferentes práticas, rituais e crenças vindas das diferentes culturas do nosso país.

Cores e superstições

Um dos costumes mais disseminados vem da sabedoria popular: usar diferentes cores na virada de acordo com os objetivos que deseja atrair para o ano seguinte. A prática de usar branco, muito comum no Brasil, está associada a religiões de matriz africana e à busca pela paz.

Com o tempo, essa simbologia das cores foi ampliada e significados foram atribuídos a diversas tonalidades. Comumente, as pessoas associam a prosperidade à cor amarela, usada por aqueles que procuram melhorar sua situação financeira. O vermelho, por sua vez, é chamado de “cor da paixão”, usado por quem busca o amor. O azul costuma ser ligado à tranquilidade enquanto o laranja, à criatividade e à felicidade. Já o verde, com a esperança e a saúde. 

Além das diferentes superstições, cada religião possui uma maneira própria de interpretar e vivenciar essa data. Dentre elas, algumas se destacam por possuírem características bem singulares e não tão conhecidas por todos. Por exemplo, o judaísmo, o budismo e a umbanda. 

Rosh Hashana: o ano novo judaico

Enquanto esperamos a chegada de 2021, há outros calendários no mundo que indicam um ano totalmente diferente. De acordo com o calendário judaico, estamos em 5780, pois ele considera os ciclos do Sol e da Lua.  Por isso, os judeus não comemoram o ano novo no mês de dezembro do calendário gregoriano, mas em setembro. O chamado Rosh Hashana, literalmente cabeça do ano, é um momento em que os judeus vão à sinagoga para ouvir rezas, tanto na véspera quanto no dia posterior ao ano novo.

Marcela Bergstein, 19 anos, conta que na primeira noite é comum que as famílias se reúnam para jantar. Na mesa, são colocados alimentos que carregam diferentes simbologias, como uma romã, pois se diz que há 613 sementes, simbolizando os 613 mitzvot (mandamentos); uma chalá gulá, um pão redondo que simboliza um ciclo; e uma maçã com mel, para o ano ser doce. “Também é comum ter uma cabeça de peixe na mesa, mas na minha casa não temos esse costume”, explica Marcela. Outra tradição dessa celebração é ouvir o shofar, um instrumento de sopro tipicamente feito de chifres de ovelhas, para que o som desperte as pessoas para o ano que está por vir.

Efeitos da pandemia

Durante 2020, Marcela está realizando o shnat, que em hebraico significa ano de capacitação, um período de 10 meses que está passando em Israel para aprender sobre judaísmo, sionismo e educação. Portanto, teve a oportunidade de celebrar o Rosh Hashana no país. Entretanto, a pandemia exigiu muitas adaptações: “Esse feriado é logo antes de Yom Kippur, que é o dia do perdão, então, foi declarado lockdown em Israel”. De acordo com as regras, não era permitido viajar ou reunir um grande grupo de pessoas, principalmente em lugares fechados. “Isso aconteceu porque se sabe que as famílias se reúnem durante esses feriados. Foi feito  o lockdown para evitar grandes aglomerações e manter as famílias cada uma no seu lugar”, diz ela.

Durante o Rosh Hashana, Marcela estava morando no Kibutz Keturá, localizado no sul de Israel e contou que lá conseguiu participar das rezas. As que normalmente têm mais adesão foram realizadas a céu aberto, para poder comportar uma maior quantidade de pessoas sem colocar ninguém em risco. Além disso, outras medidas de segurança foram tomadas, como a separação de cadeiras para manter o distanciamento e o obrigatório uso de máscaras.

Hanukkah: o festival das luzes

Marcela também explica que em dezembro há uma outra celebração: o Hanukkah. Próximo ao fim do ano, é uma festa comemorada por 8 noites que simboliza a vitória da luz sobre a escuridão e a luta dos judeus contra os seus opressores. A história dessa comemoração é voltada para a época do povo macabeu. Segundo ela, o templo judaico foi invadido e tudo que havia dentro dele foi dessantificado, com exceção de um potinho de óleo. O povo hebreu o utilizava para acender as velas, mas só duraria uma noite e só conseguiriam mais em 8 dias. Porém, como esse óleo ainda estava santificado, durou por todos os 8 dias necessários.

Por isso, durante o período de 8 noites, os judeus colocam 8 velas na hanukiá, um candelabro de 8 braços, e acendem uma vela a cada dia. Durante as celebrações, as famílias se reúnem e normalmente servem comidas cozinhadas com óleo, como latkes. Além disso, as crianças brincam com o dreidel, um peão de 4 lados muito único da cultura judaica.

Gongyo de Ano Novo: a celebração budista para a virada

O budismo não se baseia em tradições ocidentais, refletindo na maneira como os adeptos dessa religião, que possui variadas escolas, celebram o ano novo. Eles comemoram a data no mesmo dia do calendário gregoriano. Logo, o primeiro dia de janeiro é também o primeiro dia do ano para os budistas.

Manoel Paulo, 40 anos, pratica o budismo Soka Gakkai e conta que a tradição mais marcante da data nessa vertente envolve o chamado Gongyo de Ano Novo: “o Gongyo de Ano Novo é realizado sempre em primeiro de janeiro, e é quando os praticantes do budismo se reúnem para comemorar o início de um novo ano”, diz. Essa celebração consiste num momento de reza e representa a renovação para o ano que está por vir. Cada um, ao orar o mantra principal, estabelece os seus pedidos e objetivos.

Contudo, devido à pandemia do novo coronavírus, Manoel relata que haverá mudanças providenciadas pela própria Associação Brasil Soka Gakkai Internacional (BSGI) em relação à realização desta celebração. “Com a pandemia a realização ficará comprometida, pois não estamos nos reunindo nos locais de reuniões. Existe a possibilidade da liderança central da BSGI realizar transmissão online da atividade, mas ainda não temos essa informação”, explica ele.

Assim, o jeito será realizar o gongyo sem  aglomeração; no caso de Manoel, na companhia da esposa, contudo, a atmosfera de  renovação e esperança permanece. O ano-novo segue representado como um “momento de orar pela felicidade de todas as pessoas e que o ano seja repleto de alegria”, diz ele.

Flores brancas, paz e Iemanjá: o ano-novo na umbanda

Muitos dos rituais de Réveillon no Brasil foram originados de religiões de matriz africana. Alguns exemplos de tradições popularizadas são vestir branco, pular sete ondinhas e jogar flores no mar. Porém, poucos sabem de onde elas vieram. O costume de usar branco veio da umbanda e do candomblé, já que é uma cor que simboliza paz. O sete é um número cabalístico, que na umbanda representa Exu, filho de Iemanjá, Rainha do Mar e protetora das mulheres. Também tem relação com as Sete Linhas de Umbanda, conceito de organização dos espíritos sob o comando dos orixás. Dessa forma, cada pulo seria o pedido a um orixá diferente. O costume de jogar flores no mar é para servir de oferenda para Iemanjá, e precisam ser sempre brancas. Iemanjá é muito poderosa, ela traz força e sorte. Por isso, recebe homenagens na virada do ano.

Normalmente, as pessoas celebram esses rituais no dia 1º de janeiro. Porém, a Festa de Iemanjá ocorre em outra data. “A verdadeira festa que fazemos para Iemanjá é só no dia 2 de fevereiro”, explica Gabriela Tambellini, 18 anos. Segundo ela, umbandistas e candomblecistas vão à praia para fazer suas oferendas. Normalmente, elas são feitas em formatos de barquinhos contendo rosas brancas, perfumes e comidas. Em seguida, todos fazem os seus pedidos e agradecimentos à Rainha do Mar.

Gabriela também conta que, ao longo dos anos, as oferendas têm mudado, pois começou a pensar no meio ambiente e como essas homenagens podem ser insustentáveis e prejudiciais à natureza. “Não fazia sentido poluir o lar de quem estamos agradecendo com vidros, espelhos ou plásticos”, diz. Na umbanda, os rituais apresentam significados e são uma forma de se conectar com a espiritualidade.


Por Amanda Moraes, Camila Nascimento, Isadora Noronha, Julia Queiroz e Luiz Afonso Morêda

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