Amarelo muito além de Setembro

AS ORIGENS DO SETEMBRO AMARELO

Mike Emme era um jovem estadunidense conhecido por sua personalidade alegre, carinhosa e expansiva, além de suas exímias habilidades como mecânico. Mike tinha um Ford Mustang 1968 que ele mesmo restaurou e pintou de sua cor favorita: amarelo. No dia 8 de setembro de 1994, com apenas 17 anos, Mike se suicidou dentro de seu Mustang amarelo, chocando todos ao seu redor: ninguém havia percebido que o jovem mostrava sinais de que pretendia tirar sua própria vida. Em seu funeral, seus amigos montaram uma cesta de cartões com fitas amarelas que carregavam a mensagem “se precisar, peça ajuda”. A ação se espalhou pelos Estados Unidos e tomou grandes proporções.

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Description automatically generated with medium confidenceO Ford Mustang 1968 de Mike Emme. Reprodução: Aventuras na História.

Apesar de começar a se espalhar rapidamente em todo mundo, a oficialização da campanha do Setembro Amarelo só se deu no Brasil no ano de 2015, graças ao trabalho em conjunto do CVV (Centro de Valorização da Vida), CFM (Conselho Federal de Medicina) e ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria). 

Setembro foi o mês escolhido para “acolher” esse movimento, pois além de ter sido o mês da morte de Mike Emme, a OMS (Organização Mundial da Saúde) definiu o dia 10/09 como Dia Mundial da Prevenção ao Suicídio.

Desde então, a campanha vem se expandindo e ajudando cada vez mais pessoas. Através de escolas, universidades, entidades dos setores público e privado, e, principalmente, redes sociais, o Setembro Amarelo se propaga mobilizando a população com a causa. 

INSTITUIÇÕES RESPONSÁVEIS 

Ainda que apenas o mês de setembro seja dedicado para a conscientização sobre a importância da saúde mental, no Brasil há instituições que atuam de forma permanente pela causa. Entre elas, uma das principais é o Centro de Valorização da Vida (CVV), associação civil sem fins lucrativos, de caráter filantrópico e reconhecida como de Utilidade Pública Federal, fundada no ano de 1962 em São Paulo. 

A instituição presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo a todos que querem e precisam conversar, sempre sob sigilo e anonimato. Os atendimentos são realizados por telefone com o número 188, que funciona 24 horas e sem custos de ligação, pessoalmente nos mais de 120 postos de atendimento espalhados pelo país ou pelo site, por chat e email. 

Por meio desses canais, 4.200 voluntários atendem mais de 3 milhões de pessoas em todo o território brasileiro, realizando um trabalho extremamente importante de auxílio para a saúde mental dos brasileiros.

Além disso, outra instituição importante é a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), fundada no Rio de Janeiro, em 1966, e dedicada ao reconhecimento e desenvolvimento científico, público e social da psiquiatria no país. 

A ABP trabalha para a disseminação do conhecimento psiquiátrico e é o principal interlocutor na formulação de políticas de saúde mental. Assim, em conjunto com o CVV e o Conselho Federal de Medicina (CFM), a associação lançou a campanha do Setembro Amarelo, em 2015, no Brasil, com o objetivo de orientar a população sobre a importância do tratamento adequado para transtornos mentais.

RELATÓRIOS E DADOS

Em relatórios coletados no site oficial do Centro de Valorização à Vida (CVV), é possível observar a importância do órgão na vida de centenas de milhares de brasileiros. No segundo trimestre de 2021 – de abril a junho – por exemplo, o CVV recebeu 971.776 ligações provenientes de todo o território nacional. 

A média de duração das chamadas dentro do mesmo período é de 6m47s, mas nos três respectivos meses houveram mais de 4.700 ligações com mais de uma hora de duração, tendo o mês de junho ultrapassado a marca de 5.300 telefonemas com mais de sessenta minutos. 

O eixo Minas-São Paulo-Rio lidera o ranking de origem das ligações no período, tendo 46,6% do total vindo de lá; Bahia e Rio Grande do Sul completam o top 5. Já no ano de 2020, aproximadamente 2,5 milhões de chamadas foram efetuadas ao CVV – ao compararmos o segundo trimestre de 2021 com o mesmo período de 2020, por exemplo, vemos um crescimento de 20% do ano passado para este.

Mas o que esses dados significam?

O CVV atende, pelo menos, 2,5 milhões de chamadas anuais vindas de pessoas buscando ajuda, e, independentemente do resultado, eles estão disponíveis 24 horas por dia e 7 dias por semana para atendê-las.

Durante os meses de setembro tanto de 2019 quanto de 2020, o tempo médio de duração das ligações para o CVV aumentou em mais de um minuto, o que, de acordo com o Relatório Mensal de Atendimento do Centro de Valorização à Vida de Abril de 2020, pode ser atribuído à campanha do Setembro Amarelo. “Em setembro, por se falar mais sobre o assunto, as pessoas ficam mais confortáveis em se abrir pra dizer o que elas estão sentindo”, diz a psicóloga Cristiane dos Santos. Temos, portanto, uma comprovação da eficácia da campanha em questão.

Formada pela UniA (Centro Universitário de Santo André), Cristiane atua na área clínica há vinte e um anos atendendo crianças, adolescentes e adultos. Já fez trabalho voluntário dando palestras em escolas públicas para pais, alunos e pedagogos. 

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Gráfico mostrando a duração média das ligações atendidas pelo CVV de maio de 2019 a abril de 2020. Reprodução: CVV

EFEITO SETEMBRO

“É sim uma campanha importante”, afirma Cristiane sobre o Setembro Amarelo. A psicóloga alega que o aumento das chamadas para o CVV  em dezembro e janeiro pode ser causado pelo incentivo criado em setembro. 

Durante esse mês, as pessoas começam a ficar mais reflexivas; passam a compreender que precisam de ajuda e buscam-na posteriormente: “toda vez que a gente vive uma dor emocional, pra gente conseguir falar sobre essa dor, a gente tem que elaborar ela internamente”, diz. Cristiane ainda complementa que, quanto mais doloroso for esse sentimento, mais demorado é o processo de reconhecer a necessidade de buscar ajuda – o que pode justificar os dados apresentados anteriormente.

O momento de introspecção desencadeado pela pandemia da COVID-19 trouxe à tona inseguranças, novos problemas e medos, resultando num aumento da procura por terapia. A busca por ajuda foi, no entanto, tardia: com a estabilidade financeira ameaçada, muitas pessoas optaram por deixar a saúde mental fora da lista de prioridades. 

Cristiane constatou que, a partir de julho de 2020, o número de pacientes aumentou, assim como as queixas relacionadas exclusivamente às inseguranças geradas no período de isolamento social. Os dados apontados pelo CVV mostram ainda que, o número de ligações após o mês citado – que estava em queda durante o primeiro semestre de 2020 – aumentou, atingindo seu pico em dezembro do mesmo ano. 

O PAPEL DAS REDES SOCIAIS 

As redes sociais possuem um papel importante na campanha do Setembro Amarelo por conta da visibilidade que trazem para o assunto. Entretanto, as redes também podem ser a causa de transtornos, tais como o FOMO (fear of missing out ou medo de perder alguma coisa, sigla em inglês), vícios em aparelhos eletrônicos – e, por conseguinte, abstinência – e ansiedade. 

Ainda segundo a psicóloga Cristiane dos Santos, crianças e adolescentes sem apoio emocional muitas vezes podem ser induzidos, através das redes sociais, a fazer algo que não é saudável. Um exemplo disso é o jogo Baleia Azul, que surgiu em uma rede social russa e teve uma repercussão enorme, aumentando o número de suicídio em crianças e jovens ao redor do mundo todo em 2017. 

A psicóloga cita uma experiência profissional de 2019, na qual ela foi convidada por uma escola pública para realizar palestras voltadas para todo o Ensino Fundamental. Lá, ela abordou assuntos como a importância da autoestima e amor-próprio. Cristiane contou que, ao final de cada palestra, diversas crianças e jovens abordaram-na, falando o quão importante foi escutar aquilo e se abrindo com ela; desabafando e pedindo ajuda. 

Esse é mais um exemplo de como as pessoas se sentem mais confortáveis em pedir ajuda quando o ambiente é propício, seja por causa da campanha do Setembro Amarelo ou em virtude de alguém mostrando que você não está sozinho.Organizações como o CVV prestam ajuda por meio da conversa, que ocorre mediante a uma ouvidoria individual, voluntária, sigilosa e gratuita, disponível 24 horas por dia, através de diversos meios de comunicação virtual (ligação – 188; chat do site – https://www.cvv.org.br/; e-mail – atendimento@cvv.org.br; etc.).

Por: Ana Carolina Micheletti, Giulia Zerbinato, João Pedro Gadelha, Luana Miwa, Maísa Balsan, Melissa Carraro e Pedro Consoli

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