Alimentação: o que vai à mesa varia conforme a renda familiar

São Paulo vai da marmita ao prato gourmet

A alimentação em São Paulo transita entre mundos antagônicos e o que vai à mesa tem a ver com o que se tem no bolso

Por Douglas Norberto, Giovanna Garcia, Beatryz Gaia, Tamires Jesus e Nathalia Jesus

São Paulo é reconhecida por sua diversidade gastronômica, que começa desde o pastel de feira, passa pelos rodízios de pizza e vai até às “experiências gastronômicas” medidas em estrelas do Guia Michelin, a maior referência do mundo. Mas nem todos os paulistanos conseguem desfrutar dessa variedade de sabores e o motivo é simples: as desigualdades se manifestam também na alimentação. Da marmita ao prato gourmet, há uma longa jornada recheada de discrepâncias que vão muito além do valor nutricional. Na metrópole mais rica, o estilo de vida das diferentes classes qualifica e quantifica o quanto é posto no prato, e também o quanto se paga por ele. 

“Uma família moradora de um bairro de elite, com padrão de classe média-alta, costuma destinar de 10% a 30% dos ganhos mensais com alimentação. Eles possuem uma margem grande caso queiram consumir produtos com valor um pouco maior, como ios alimentos orgânicos”, explica a nutricionista e consultora Bruna Tarifa Carlos, em entrevista para a Factual900. Na outra ponta social, diz a nutricionista, uma família de vulnerabilidade social chega a gastar até 80% de seu orçamento para despesas com alimentação. E a renda dessa família já é muito inferior ao de pessoas de outras classes. “Isso faz com que a conta fique apertada e não tenha espaço para produtos com valor superior, ou quando, por exemplo, os preços sobem drasticamente.” Nesta pandemia, o arroz virou produto de luxo para muitas pessoas.

Bairros com maior renda per capita têm um padrão alimentar completamente diferente daqueles com predominância de baixa renda ou periféricos. A nutricionista frisa que o motivo está na renda. Come-se conforme a quantidade de recursos que a pessoa tem. Porém, ter renda elevada não é sinônimo de uma alimentação saudável, ainda que os mais ricos possuem mais possibilidades e recursos para obtê-la. Já a baixa renda está intimamente ligada à insegurança alimentar (como alimentos de baixa qualidade, inclusive impróprios para o consumo).

Bruna conta que o fenômeno das comidas industrializadas avançou de tal maneira no país, que ninguém fica de fora. Todas as classes sociais estão inclusas e, hoje, esse consumo desenfreado acima do ideal de produtos ultraprocessados faz com que frutas, verduras e legumes sejam consumidos abaixo do desejado. “Após a transição nutricional que teve como consequência a inversão dos padrões de consumo, se elevou drasticamente o consumo de alimentos industrializados, fast-foods e refeições prontas no lugar de comidas preparadas em casa. A qualidade da alimentação no Brasil reduziu.”

Alimentação por delivery é sinal de evolução? – Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Para a nutricionista, o morador paulistano poderia comer muito melhor, já que não se vive aqui uma escassez de alimentos, uma realidade de outros países. “A dieta paulistana pode ser muito versátil, já que temos uma oferta extremamente elevada de todos os tipos de alimentos – independente da época do ano -, diversos restaurantes, para diversas culturas, hábitos, crenças e gostos pessoais”, afirma Bruna. “Entretanto, observamos um padrão, em geral, de consumo muito alto de proteína, principalmente de origem animal e baixo consumo de vegetais.”

A alimentação tem a ver com o cansaço 

O cientista social Gustavo Brigante, mestre pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), lembra que a questão alimentar no Brasil compreende várias faces e que por meio da comida “um mundo se abre”. Ele diz: “a temática da alimentação pode compreender conversas a respeito das tradições culinárias de certos povos ou regiões; das possibilidades de aquisição dos alimentos; do consumo alimentício específico como marca de distinção social; das diferentes restrições e permissões alimentares ao longo do tempo e do espaço”. 

Em um país no qual quem possui condições financeiras só precisa de um clique para pedir qualquer comida a qualquer hora do dia, é importante criar a consciência de que não vivemos todos no mesmo barco. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 10,3 milhões de pessoas passam fome no país – é como se todos os moradores da capital paulista, com exceção dos do centro e da zona oeste, vissem o prato vazio várias vezes durante uma semana. 

Uma mãe do Jardim Ângela, na zona sul paulistana, que acorda às 5 da manhã, leva os filhos à escola, gasta duas horas do seu dia para ir e voltar do trabalho, de noite volta para pegá-los e chega em casa exausta, dificilmente ela conseguirá seguir uma dieta regrada ou conseguir fazer uma alimentação de maneira correta. A família inteira será arrastada para a má alimentação. 

A Factual900 produziu um podcast para falar sobre o veganismo. Confere:

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