Professora Cristiane com seus alunos na fase de alfabetização antes da pandemia

Pandemia prejudica alfabetização de crianças

Métodos e didática improvisados, falta de contato físico e falta de ação do governo tornam 2020 um ano perdido para essa etapa de alfabetização

Por Flávia Giraldes, Izabella Giannola, Laura Vicaria, Letícia Keller e Melissa Charchat

Alfabetização com apostilas. Ensinar as primeiras letras com atividades quinzenais. Contar com o auxílio dos pais, mesmo que estes não tenham a menor ideia de como ajudar os filhos a lerem e escreverem. Apresentar aulas remotas em um país que milhões não têm acesso à internet. Estes são alguns problemas que o Brasil enfrenta na alfabetização das crianças e as únicas respostas oficiais que surgem é que as escolas estão dispensadas de cumprir os dias letivos.

 “Nesta fase de desenvolvimento da criança, é de grande relevância a participação direta com o grupo no qual lhe deveria ser oportunizado momentos de voz, no qual pudesse expressar oralmente suas vivências, opiniões, dúvidas etc”, explica a professora Cristiane Alves. Educadora na Escola Municipal João Paulo I, da cidade de Caputira (MG), Cristiane tem 43 anos e 10 de magistério. À Factual 900, ela conta sobre os obstáculos que tem enfrentado.

“Estamos trabalhando com o sistema de apostilas. De 15 em 15 dias somos responsáveis por formular atividades referentes aos conteúdos que já foram apreendidos pelos alunos”, diz a educadora do primeiro ciclo do ensino fundamental. Os professores estão trabalhando de suas casas. Quando as atividades são formuladas, eles as enviam por e-mail para a Secretaria de Educação, que cuida da distribuição desse material para os pais ou responsáveis. As famílias têm dia e hora, previamente marcados, e são informados por meio de comunicados nas redes sociais ou rádio local.

Alunos de Alves na fase de alfabetização realizando uma atividade antes da pandemia Foto: Acervo Pessoal

O ensino remoto pode funcionar bem, mas isso vale para as séries mais avançadas. Não é o caso da alfabetização, quando o contato com outras crianças gera uma forma lúdica e eficiente de estimular a capacidade criativa e o senso de equipe. “O problema é justamente a falta de contato com os alunos, pois na sala de aula o professor conduz a aula de forma direta, sinalizando naquilo em que há necessidade, tanto de forma individual quanto coletiva”, acrescenta Cristiane. “Por meio de apostilas percebo que algumas coisas acabam sendo deixadas de lado, há também casos em que as crianças não têm ajuda da família, por isso acabam devolvendo a apostila com atividades sem respostas.”

A educação para os sem-internet

A Base Nacional Comum Curricular determina que os primeiros anos do fundamental devem ensinar a criança a lerem e escreverem textos dos mais diversos gêneros. O Brasil já alcançou a universalização do ensino fundamental, com 99,7% das crianças de 6 aos 14 anos frequentando as escolas. Mas cerca de 11 milhões de brasileiros ainda são analfabetas no Brasil no ano de 2019, segundo o IBGE.

Segundo a Unicef, cerca de 4,8 milhões de crianças e adolescentes de 9 a 17 anos, uma faixa etária posterior ao da alfabetização, não têm acesso à internet em casa no Brasil. Esse contingente corresponde a 17% de todos os brasileiros nessa idade. “Infelizmente, estamos em uma região em que nem todos têm acesso à internet e muito menos computador em casa. Assim, estamos trabalhando desta forma e nenhum aluno fica sem atividades escolares”, afirma Cristina.

Só em 17 de agosto o Ministério da Educação anunciou um pacote de internet a alunos pobres de universidades e institutos federais, como noticiou a Folha de S.Paulo. A medida não se estende ao ensino básico. Um dia depois, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sancionou medida provisória que flexibiliza os dias letivos. Na prática, desobrigou a educação infantil, quando ocorre o processo de alfabetização, de cumprir o mínimo de dias e a carga horária mínima anual. Bolsonaro vetou ainda apoio financeiro federal a Estados e municípios.

A alfabetização doméstica

Mesmo quem estuda em escolas particulares sente que a alfabetização de seus filhos está sendo prejudicada com a pandemia. A advogada Natasha Cautella é mãe de Pedro, de 6 anos, que estuda no Colégio Presidente Kennedy, da rede privada de ensino. Como outras milhares de mães, ela vê prejuízo no processo de letramento do filho. “Minha maior dificuldade é, sem dúvida, a didática para ajudá-lo. A escola dele, nesse ponto, deixou muito a desejar, porque eles não me deram a orientação que deveriam ter dado. Eu não sou professora, não sei como tenho que agir e lidar com o Pedro em relação a esse tipo de aprendizado escolar”, desabafa.

A advogada conta as dificuldades que encontrou ao se adaptar a essa nova rotina. “Tenho que ajudá-lo, e por isso deixo de fazer outras coisas para conseguir estar com ele”, explica. “Meu tempo para trabalho, por exemplo, se resume ao final do dia, quando as atividades do Pedro acabam e ele aproveita para jogar um videogame”. Natasha reconhece que todo o processo de alfabetização já está sendo prejudicado. “Ele está sendo privado das coisas de criança, do contato com os amigos, do bate-papo na sala de aula com uma pessoa que sabe como ensinar e como orientar”, diz.

Natasha acredita que o filho já estaria lendo se a pandemia e o isolamento social não tivessem adiado a educação. O resultado é desastroso não só para Pedro, mas para uma geração de crianças no mundo todo.

Veja a entrevista com a Dra. Rose Marie Melamed sobre o efeito da pandemia na alfabetização das crianças.
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