Ação de Graças e Desgraça Nativa.

Ação de Graças e Desgraça Nativa

A celebração do absurdo Ação de Graças na América e nas Américas

A ideia de um Dia de Ação de Graças como um período para se demonstrar gratidão pela existência e pelas relações estabelecidas entre humanos toma ímpeto nas redes sociais brasileiras neste ano pandêmico. Algumas associações, tentam mobilizar a ideia associando-a a diversos movimentos filantrópicos, com o slogan “Digamos sempre obrigado, pois não conquistamos nada sozinhos”. Ainda que nobres, os motivos para a importação de um feriado norte-americano desenvolvem a desgraça nativa do nosso país. Da subserviência dos generais brasileiros aos Estados Unidos no pós-guerra a uma narrativa romantizada da conquista da América e do genocídio dos povos nativos.

Por: Dante Rego, Gustavo Solitto, Iúri Medeiros e Julia de Deus

O ação de graças americano

A imagem do “Thanksgiving” cristalizada na cultura americana é a de uma família reunida frente a um peru recheado e acompanhamentos trazidos pelos visitantes. Sentado na cabeceira, o chefe de família mais antigo destrincha o animal e serve os convidados. Antes do início da abundante refeição os indivíduos expressam gratidão pelo que de bom lhes ocorrera no ano que se passou.

A referência histórica remonta ritualisticamente um banquete que ocorreu entre os nativos Wampanoag e os colonos protestantes autodenominados ‘puritanos’ em 1621, Massachussetts. Após uma longa e conturbada travessia para o Novo Mundo, os colonos hoje conhecidos como peregrinos aterraram próximo ao Cabo Cod no fim de 1620. Devido ao inverno, à ignorância de métodos agrícolas e de pesca, bem como a um contato inicial hostil, a maioria dos peregrinos permaneceu a bordo até a primavera. Sobrevivendo de reservas e da coleta de parcos recursos em terra, portanto enfrentaram a exposição ao clima, a disseminação do escorbuto, da desnutrição e de doenças. Sendo assim, 44 dos 102 colonos que chegaram no navio Mayflower faleceram nesse processo.

Em março, com a chegada da primavera, os colonos que construíam seu assentamento receberam a visita de um nativo de nome Samoset. Cinco dias depois os nativos retornaram com peles e bens para troca, e em sua companhia estava Tisquantum, que falava a língua inglesa perfeitamente. Portanto, Squanto, como ficaria conhecido, permaneceria com os colonos e os ensinaria a pesca e agricultura nesse ambiente hostil. Sendo assim, ao fim do outono os colonos obtiveram uma colheita farta. Em comemoração, juntaram-se aos Wampanoag e seu chefe Massasoit em um grande banquete.

O outro ação de graças americano

Há diversos fatos omitidos ou alterados nessa versão que se tornou folclórica. Os puritanos eram conhecidos a seu tempo como separatistas, uma seita dentre os puritanos ingleses. O rei James da Inglaterra odiava os separatistas e começou a persegui-los em 1604. Portanto, após uma breve fuga para a Holanda, os separatistas negociaram com o rei os direitos de um assentamento no Novo Mundo.

Os Wampanoag, membros de uma das tantas nações que ocupavam o atual território da costa leste americana, comerciavam com os europeus há um século. Sendo assim, os contatos iniciais entre os membros da Nação da Alvorada e os europeus se degradaram após o sequestro de nativos com fins de escravidão. Em 1616 foi introduzida entre os nativos uma doença advinda dos mercadores europeus; sem imunidade o povo Wampanoag e os demais membros da Nação da Alvorada perderam muitos dos seus em uma epidemia. Ao Oeste estavam seus rivais, os Narranganset, intocados pela doença devido ao fechamento de fronteiras; a ameaça de uma invasão ao povo Wampanoag era iminente. Portanto, tal era o contexto geopolítico que encontraram os colonos em sua chegada.

Samoset, em seu contato inicial, viera para dizer que os colonos construíam sobre a antiga aldeia de Patuxet, pertencente ao Povo da Alvorada. Tisquantum, capturado quatro anos antes e vendido como escravo na Espanha, era um membro original de Patuxet. Enfim, ele terminaria como propriedade de um mercador inglês, que o ensinou a língua e permitiu o retorno à sua terra. Logo depois, ao chegar, encontrou sua antiga aldeia dizimada pela doença.

O intuito de Massasoit era estabelecer uma aliança militar com os colonos, visando a defesa frente a um eventual ataque dos Narranganset. Esse era o contexto do jantar partilhado entre esses povos.
Eventualmente, Tisquantum decidiu trair Massasoit com o intuito de tomar seu lugar. O chefe dos Wampanoag, descobrindo a intenção de golpe, foi pedir que os colonos o entregassem e esses se recusaram, marcando a cisão desses dois mundos que por um átimo conviveram.

O Presente Americano

Dois feriados ocorrem no mesmo dia – a quarta quinta-feira de novembro – nos Estados Unidos da América: o Dia de Ação de Graças e o Dia do Luto. O primeiro só foi transformado em lei e tradição conforme os parâmetros atuais pelo presidente Abraham Lincoln em 1863, o segundo comemorado por lideranças indígenas desde 1970.

O Dia de Ação de Graças passa por largo questionamento na atualidade, principalmente pela retratação errônea dos indígenas e de sua história. O Dia do Luto nasceu justamente nesse contexto: criado pelos nativos para lembrar-se do Holocausto Nativo, das mortes de doze milhões de indígenas no território americano e cinquenta e cinco milhões nas Américas. O maior holocausto da humanidade se deu não por câmaras de gás ou bombas atômicas, mas a base de armas de fogo, varíola, gripe, sarampo, traição e limpeza étnica como projeto estatal. Celebrar a fantasiosa conciliação de raças é, para os nativos e para aqueles dispostos a situar-se historicamente, de extremo mal gosto.

Uma Estória Brasileira

“O entreguismo do general Dutra pros E.U.A. chegava ao ponto de inventar Dia de Ação de Graças no Brasil.”. Caio Cateb, historiador e ex-coordenador de busca na Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, refere-se à lei publicada em 1949 pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra. O contexto de subserviência brasileira aos americanos no pós-guerra, retratado romanticamente como o encanto do então presidente após presenciar as comemorações em uma visita oficial, é o esteio para a primeira manifestação sobre o tema no Brasil.

O Dia de Ação de Graças é uma particularidade da tradição protestante, notadamente puritana, e não possuía espaço em um país de tradições católicas. Dentre os motivos pelos quais pode-se argumentar um aumento do interesse sobre o tema na última década há um menor, de cunho religioso, e outro maior, de motivação econômica.

É inegável a popularização do protestantismo no Brasil, principalmente da vertente neopentecostal e pautada na denominada “teologia da prosperidade”; a Igreja Universal do Reino de Deus é um exemplo. A origem da vertente é americana, notadamente no movimento carismático surgido em 1920. O evangelismo pelo rádio e pela televisão tem em tal vertente sua maior expressão no Brasil. É interessante observar que não apenas o evangelho como determinados costumes e cultos específicos foram importados.

A economia agradece

Do ponto de vista econômico, observou-se na última década o surgimento da Black Friday no Brasil. O evento ocorre imediatamente após o Dia de Ação de Graças e faz parte das festividades desse, além de dar início ao período de compras de final de ano. Daniel Prazeres, Graduado em Ciência Política na UnB e que trabalha com Análise de Consumo de Mídia comenta: “aqui, desvirtuou totalmente o conceito, virou quase o mês todo, e ferrou a economia porque faz com que todo mundo no começo de dezembro espere que a economia vá girar mais no Natal e nunca mais acontece, então acaba gerando uma frustração no mercado.”.

Não se trata de uma nova estratégia. João Dória, publicitário e pai do atual governador de São Paulo João Dória, criou o Dia dos Namorados brasileiro em 1949 com o intuito de movimentar o mercado em uma época desaquecida, valendo-se da proximidade com o dia de Santo Antônio e do slogan: “Não é só com beijos que se prova o amor”.

De tal forma, o Dia de Ação de Graças jamais teve origem em manifestação cultural autóctone no Brasil, mas em conceitos importados e movimentações do mercado. Vale, por fim, comentar que manifestações virais nas redes por vezes desconhecem fronteiras e os exemplos de manifestações de gratidão no Brasil nesse período estão inseridos nesse contexto. A única coisa, histórica e culturalmente, que temos de semelhança em tal caso com os norte americanos é o genocídio dos indígenas, o etnocídio dos sobreviventes e a romantização da história.

Referências e Sugestões de Leitura:
-Bartolomé de Las Casas: Brevíssima Relação da Destruição das Índias. 1552
-Roxanne Dunbar-Ortiz: An Indigenous Peoples’ History of the United States. 2015
-Claudio Saunt: Unworthy Republic – The Dispossession of Native Americans and the Road to Indian Territory. 2020
-Vine Deloria Jr. Custer Died for your Sins – An Indian Manifesto
Para Assistir:
-Op-Docs do The New York Times: A Conversation With Native Americans on Race
-Native Americans on Thanksgiving

Siga-nos nas redes sociais

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *