Tal mãe, tal corpo: a pressão estética no pós-parto

A maternidade e o corpo grávido sob o olhar dos padrões de beleza impostos ao sexo feminino

Por Alvaro Gadelha, Bruna Sales, Gabriela Girardi, Giulia Gianolla e Leonardo Amaral

maternidade
(Fonte: Pixabay)

O ano é 2016. As revistas de fofoca e moda vão a loucura com a dieta pela qual passou Deborah Secco, atriz que emagreceu cerca de 25 quilos em dois meses depois de sua primeira gravidez. A estrela da Rede Globo afirmou em mais de uma entrevista que passou períodos de até 23 horas sem comer com o intuito de recuperar o “corpão” que a gravidez lhe tirou. 

A situação usada como exemplo nesta matéria pode parecer extrema e distante, é verdade. A tal ‘dieta do jejum intermitente’ de Secco soa um tanto exagerada, mas a preocupação com a pressão estética pela qual passam mulheres no contexto pós-parto pode dar indícios das razões pelas quais alguém se submeteria a ideias tão extremas. 

Uma simples busca pela internet já é um tira-gosto do que circunda as ‘novas mamães’: dicas para emagrecimento, receitas mirabolantes para diminuir a flacidez e a fuga constante da celulite, que é descrita como uma das grandes vilãs do corpo feminino – mesmo sendo presente em cerca de 95% das mulheres adultas, segundo uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Ou seja, qualquer coisa para que os nove meses da gestação passem despercebidos. 

É claro que essa é apenas uma das várias preocupações das mulheres em fase de puerpério (o período de transição hormonal e física que ocorre depois do parto). Mas é justamente por isso que o tabu do corpo ‘intacto’ pela gestação não é muito abordado. Já é senso comum que, após dar à luz, o foco seja apenas a criação do bebê, e talvez por isso não haja grandes redes de apoio para tratar as inseguranças daquelas que o trouxeram ao mundo.

A transição da mulher ‘sexy’ e  jovem para a mãe casta e dedicada à casa é muito abrupta e pouco discutida, por isso é compreensível que ocorra um choque entre a imagem feminina no antes-e-depois do bebê. Seja pela tentativa de manter o corpo dentro do padrão desejado – ainda que isso signifique abrir mão da saúde em um momento tão frágil -, ou para se encaixar na imagem tipicamente materna, é comum que a autoestima da mulher seja fragilizada, já desde a gestação.

Margarete Simões Ferrage, mãe do pequeno Theo, de menos de um mês de vida, passou por isso na pele. Mãe de primeira viagem, ela admite que, ao longo dos nove meses, sua autoestima passou por uma montanha russa. 

“Foi cheia de altos e baixos, porque você deixa de ser mulher e passa a ser mãe, e é difícil aceitar essa mudança.”

mãe e filho
O primeiro encontro de Theo com a mãe. (Fonte: Acervo pessoal do entrevistado)

Os cuidados estéticos também são muito comprometidos, principalmente na fase inicial, já que ainda há uma dependência muito grande do filho com a mãe, o que quer dizer que a rotina de auto-cuidados femininos fica em segundo plano temporariamente. Ainda que, com o progresso em direção à divisão igualitária das tarefas entre homens e mulheres, a figura do pai se torne mais presente, ainda é muito forte a associação da mãe às responsabilidades parentais. “Pro homem, ser pai não muda quase nada”, conta Margarete. “É como dizem, ‘o filho é da mãe’.”

Seja pelo cansaço ou pelo desgaste emocional e físico que cercam o cotidiano das novas mães, o puerpério é uma fase muito estressante. A ideia de recuperar um corpo anterior à gestação em meio a esse período é, além de utópica, muito prejudicial à mente feminina. Entre tantas preocupações, a infelicidade ao se olhar no espelho e não se gostar como se é é um estresse que nenhuma mãe – nenhuma mulher – deveria passar.

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1 comentário em “Tal mãe, tal corpo: a pressão estética no pós-parto”

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