A migração nordestina de povo e uma cultura para São Paulo

Por Nicole Pires, Laisa Matubara e Gustavo Brito

Maria Bonita é o apelido de Isaura Melo, que migrou para a capital paulista em 1971. Ela veio de Pernambuco em busca de emprego, assim como outras pessoas que migraram ao longo da história. Mas foi só duas décadas depois que ela descobriu “um pedacinho do Nordeste em São Paulo”, ou oficialmente o Centro de Tradições Nordestinas (CTN). Ela trabalha no local desde sua inauguração, em 1990. Localizado no bairro do Limão, o CTN abriga restaurantes, bares, comércio e até uma emissora de rádio voltada para a cultura nordestina.

Maria Bonita celebra todos os anos o Dia do Nordestino com uma programação especial do CTN. (Foto: Divulgação)

Outra que chegou do Nordeste e acabou ficando é Elisane, colega de Isaura, que trabalha como garçonete no CTN. Baiana, ela mora em São Paulo há 12 anos e conta que a adaptação foi difícil. Ouviu muitos “nãos” ao procurar emprego, mas ainda considera que é uma cidade que traz mais oportunidades para quem procura. “Quem fez e faz São Paulo, são os nordestinos. Não generalizando, é claro, mas alguns paulistanos não valorizam essa cidade como ela deveria ser”, diz ela.

A migração de nordestinos para São Paulo percorreu boa parte do século XX. Após a década de 1930, o fluxo migratório de outros países para o Brasil sofreu uma brusca diminuição e a crise econômica fizeram com que um grande número da população do Nordeste migrasse para o Estado. A partir de 1950, conforme a população brasileira caminhava para sair de rural para urbana, acentuaram-se as migrações para a região metropolitana do estado. 

Entre 1936 e 1940, São Paulo recebeu um grande contingente de trabalhadores nordestinos. Mais da metade deles vinha da Bahia. Porém, olhar esse tipo de fluxo populacional pela ótica única de que uma região exportou mão-de-obra e a outra a recebeu só reforça estereótipos. Nessa imagem, o Nordeste é associada à pobreza e ao atraso, e o Sudeste à modernidade e crescente economia, analisa Sueli de Castro Gomes, professora da Universidade Estadual de Maringá.

Desde 2009, é comemorado em 8 de outubro o Dia do Nordestino em São Paulo. A data foi escolhida para lembrar a importância do contingente populacional de imigrantes nordestinos e seus descendentes na cidade. Apesar de ter um dia destinado a eles, não é exatamente assim que a presença destes é representada no imaginário político-cultural da cidade.

VISÕES EQUIVOCADAS SOBRE A MIGRAÇÃO DO NORDESTE

As representações mais comuns do imaginário constroem a ideia de uma São Paulo marcada positivamente pela presença europeia (as ondas migratórias predominantes do século XIX e início do século XX) e “invadida” por nordestinos pobres e analfabetos na segunda metade do século passado. Uma visão que foge da realidade. De um lado, grande parte dos imigrantes europeus chegou à capital paulista analfabetos e miseráveis. Do outro, A imigração nordestina é muito mais heterogênea do ponto de vista econômico do que o preconceito nos permite ver. 

A Hospedaria dos Imigrantes, no bairro da Mooca, abriga o Museu da Imigração e costuma ser lembrada somente pela história dos imigrantes internacionais. Mas durante os mais de 90 anos de funcionamento do local, os nordestinos formaram a grande maioria dos hóspedes. Segundo dados do Museu, a partir de 1930, quando houve a primeiro grande fluxo de migração nacional em direção ao Sudeste, a população nordestina representou 90% dos trabalhos realizados pela hospedaria. Só em 1937 passaram mais 70 mil pessoas pelos quartos do local.

Leva de imigrantes do Nordeste na fachada da Hospedaria dos Imigrantes, data não especificada. (Fonte: Acervo Digital do Museu da Imigração).

Uma pesquisa do Datafolha mostrava que 41% dos habitantes dos bairros da região da Sé e do Brás, em 2004, eram pessoas que nasceram no Nordeste. O estado de São Paulo permanece como o principal destino de migrantes do Nordeste, representando, em 2015, quase 13% da população total, de acordo com dados do Pnad, do IBGE.

A diversidade da cultura nordestina deve ser compreendida a partir de influências africanas, com os negros africanos trazidos para o Brasil como escravos, assim como das indígenas e até europeias, com os portugueses, os holandeses e os franceses. Em São Paulo, essa diversidade migrou junto do povo, com suas crenças e seu rico folclore. Ao mesmo tempo que ao se manifestarem em São Paulo, os hábitos se alteram, o que poderia significar um movimento emancipatório pessoal, de acordo com o professor de pós-graduação da Universidade Mackenzie, Edson Bastos Marinelli, que estudou o assunto. Os imigrantes encontraram formas de manter sua cultura viva, ao mesmo tempo que se adaptaram às condições de trabalho e sociabilidade na metrópole. A partir da cultura, os nordestinos se nordestizaram.

O legado do Nordeste para todas as expressões culturais, literatura, música, culinária, dança, é visto e consumido por toda a população brasileira, mas na cidade de São Paulo este legado é inegável e pode ser encontrado em quase todas as regiões. Há sempre uma casa do norte, um restaurante de comida típica, shows e espaços de forró e outros ritmos nordestinos. E há o CTN de Maria Bonita, a Isaura Melo do começo desta história. Escritora de cordel, outra cultura tipicamente da região Nordeste, ela sintetiza em versos sua relação com a metrópole: São Paulo é uma escola/ São Paulo me deu saber/ São Paulo é a cidade melhor pra gente viver/ Se um dia eu deixar São Paulo, meu coração vai sofrer.



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