Imagem do atentado às torres gêmeas em 11 de setembro de 2001

O dia que não acabou: 20 anos depois, como o 11 de setembro mudou tudo o que conhecemos

As consequências geopolíticas e sociais do 11 de setembro, e como elas repercutem até hoje, 20 anos depois

É no espírito do Dia do Historiador, 19 de agosto, que visitar o 11 de setembro, 20 anos depois, é essencial para compreender o contexto de uma das questões sociopolíticas mais importantes da atualidade. Relembrando o passado e entendendo como este afeta o nosso presente diariamente.

“Ignorar o que aconteceu antes de você nascer é permanecer sempre uma criança. Pois qual é o valor da vida humana, a menos que seja tecido na vida de nossos ancestrais pelos registros da história?”. Segundo Marco Aurélio, antigo imperador romano e autor desta sentença, não há como vivermos plenamente como seres humanos se não entendermos nossa história como civilização.

Atos do passado, consequências atuais

O próximo dia 11 de setembro marca os 20 anos dos atentados terroristas às torres gêmeas, um dos maiores símbolos da economia capitalista dos Estados Unidos. “Instabilidade dos lugares que foram tomados, aumento da violência, pobreza, uma onda de refugiados (crise migratória com a qual o mundo não quer lidar, o que acaba sobrando para os países vizinhos que também são pobres, não tem estrutura e não recebem apoio das potências mundiais)” são algumas das sequelas do ataque ao World Trade Center apontadas pela jornalista especialista em Oriente Médio, Letícia Sé.

Gráfico que exemplifica a influência dos Estados Unidos nos países do Oriente Médio e no Afeganistão.
Gráfico que exemplifica a influência dos Estados Unidos nos países do Oriente Médio e no Afeganistão. Reprodução: BBC.

Nesse sentido, a professora Gisella Moura, mestra em História social pela UFRJ, reitera completando a lista de influências globais do atentado, “Acho que o mundo foi muito influenciado pelo 11 de setembro porque reforçou uma dicotomia entre Ocidente e Oriente, o ocidente associado aos valores da “civilização”. […] O terrorismo internacional como ameaça real mostra a própria falência da ideia de humanidade, talvez isso tenha aberto espaço para discursos de ódio.”

A partir disso, compreende-se o aumento da ideia dicotômica do mundo ser dividido em Oriente e Ocidente como um potencializador de preconceitos. Como a islamofobia e a xenofobia, e a forma que isso influencia nossa visão de uma sociedade plural.

Ascensão do ódio

Hoje, esses discursos de ódio citados por Gisella, estão cada dia mais altos, populares e até mesmo afrontosos. Desde questões como a polarização política, tanto nos EUA como aqui no Brasil, a questões sociais como o racismo, manifestam  o maniqueísmo de um mundo dividido cada vez mais pauta nosso cotidiano e nossas relações com o Outro.

Pode parecer improvável a ligação entre o ataque às torres gêmeas e a guerra ao terror de Bush com a eleição de Donald Trump em 2016, mas segundo a professora não há como compreender um sem levarmos o outro em consideração. “[…] a eleição do Trump e o fortalecimento de movimentos de extrema direita em diversos países. Contrastando com isso, o incremento de movimentos sociais, como o Black Lives Matter e o Me Too .” Esses eventos exemplificam a disputa entre dois grupos com prioridades totalmente diferentes no ocidente e como essa visão polarizada apenas nos prejudica como humanidade.

Ainda analisando sob uma perspectiva global a partir de 2001, percebe-se o posicionamento defensivo do ocidente com relação à cultura oriental e como isso afeta a forma como reagimos a ela, mesmo após 20 anos. Esse comportamento também se aplica às lutas sociais de diferentes partes do mundo, em um entendimento pré definido do que é o correto e pelo quê cada um deve lutar.

Um exemplo dessa visão deturpada que temos sobre a cultura diz respeito ao uso do véu islâmico por mulheres que seguem o islã, situação sobre a qual colocamos nossas próprias noções construídas do que é liberdade e empoderamento. “Há um embate de ideias diferentes sobre o que é a liberdade. A história ocidental tem uma história de um feminismo próprio, feminismo da pílula anticoncepcional, mini saia, ‘meu corpo, minhas regras’ que, por exemplo, o mundo árabe e o mundo islâmico não têm a mesma vivência de luta das mulheres. Então é necessário tirar esse olhar de que a luta da mulher branca é algo universal, porque não é.” Adiciona Sé sobre o imperialismo presente até mesmo em nossas lutas sociais.

Por meio dessa nova lente, podemos perceber que a imagem que temos do oriente, em especial dos países árabes, ainda é pautada nos sentimentos provocados pelo 11 de setembro e pela nossa tentativa de impor nossos costumes e cultura a esses países, o que faz com que tenhamos uma visão distorcida acerca da realidade desses locais. É o que explica o professor e geógrafo Rodrigo Ribeiro: “Essa região, como a África e a América Latina, foram colônias de exploração. Nesse contexto, além da colonização e de todo esse processo histórico, o Oriente Médio também sofre com a influência de grupos extremistas que se formaram a partir da guerra fria com financiamento dos EUA e da União Soviética.”

11 de setembro: “A ideia do terror é construída” 

Nesse cenário, pode-se agregar à questão do terrorismo o valor de ‘criação’ dos próprios países que hoje tentam contê-lo, o que confirma o pressuposto de que tudo não passa de imagética. Assim, Letícia conclui: “Por que a violência estatal (dos EUA) não é vista como terrorismo, por exemplo? A ideia do terror é construída. Porque às vezes a gente trabalha com as coisas como se elas fossem dadas, as coisas existem e a gente trabalha com elas, e não é muito bem assim, todas as palavras são uma construção narrativa.”

A única forma possível de relembrar os 20 anos de um evento tão marcante quanto tenebroso é analisar mais empaticamente notícias sobre a nossa realidade. E entender melhor, a partir do passado, a forma como enxergamos o presente. A imagem do oriente que cultivamos aqui, no ocidente, faz parte de uma estrutura imaginária que não condiz com a realidade do oriente, do islã, e mesmo do próprio ocidente.

Dessa forma, conclui Júlio Pimentel Pinto, historiador formado pelo USP, mestre, doutor e livre docente em História Social: “Nesse sentido, acabamos por aguardar, aguardar, sem reconhecer que é preciso enxergar a dinâmica dos passados até para conseguir agir na direção do futuro.”

* Por: Beatriz Kawai, Carolina Gonçalves, Guilherme Fonseca, Juliany Rodrigues, Letícia Cassiano, Lucas Werneck e Thiago Vaz

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